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“O Segredo de Dior” de Natasha Lester

Amor, tragédia e heroísmo em tempos de guerra

O Segredo de Dior, de Natasha Lester (Porto Editora, 2022), é uma ode às mulheres piloto durante a Segunda Guerra Mundial.

Mães, filhas, irmãs, com elos de sangue e de armas, mulheres que deram o seu todo pela liberdade e pela justiça, arriscando as suas próprias vidas.

Um enredo contado em diversos tempos, desde 1928 a 1947, e, por fim, 2012. Uma história repleta de camadas, de situações interligadas. Uma traição que mudou tudo.

Kat não conseguia afastar os olhos da fotografia. Porque, se por um lado ela respondia a algumas perguntas, por outro suscitava ainda mais.

Natasha Lester trabalhou como executiva de ‘marketing’ para a L’Oreal Australia e para a Maybelline, antes de regressar à universidade para estudar escrita criativa. Fez um mestrado em artes criativas e escreveu vários romances. Em 2016, aventurou-se no mundo da ficção histórica. Entre os seus livros, destacam-se os ‘bestseller’ internacionais The Paris Seamstress (2018) e The French Photographer (2019).


Lester, tem um superpoder. A capacidade de escrever protagonistas fortes, inteligentes, valentes, emotivas, mas de cabeça fria quando se necessita que o sejam; de demonstrar uma grande atenção aos detalhes e recorrer à sua extensa pesquisa sobre estas heroínas de quem pouco ou nada se sabe. Mulheres, essas, que se arriscavam diariamente em situações drásticas, às quais nem os homens eram submetidos; que sofriam intermináveis humilhações devido à forte misoginia que se fazia sentir; que passavam por uma luta constante e impiedosa. Mulheres dignas de uma ovação de pé, pela sua perseverança, pela valentia e dedicação apesar das dificuldades em terra e no ar.

Nunca descobriu se o facto de ter sido colocada na rota da Escócia era castigo pelo seu loop sobre loop ou se aquele sempre fora o plano da RAF. Supôs que eles não poderiam saber que aquele seria o pior inverno de Inglaterra nas últimas décadas. Mas a RAF coordenava os movimentos de transporte, pelo que podia determinar o que as mulheres pilotavam e para onde. E elas pilotariam aqueles Tiger Moths até à Escócia, durante um inverno que bateria todos os recordes. Dois mil aviões. Duas mil viagens árticas, ao todo.

A escrita de Lester é fluida, repleta de detalhes históricos. Muitos dos nomes referidos são de pessoas reais, embora algumas situações sejam adaptadas ao enredo, já que a autora não queria inserir mais personagens para não baralhar o leitor. A autora clarifica tudo na sua Nota do Autor.
No que diz respeito ao mundo da moda, o leitor é logo apresentado ao mundo de Dior nas primeiras páginas. Dior e os seus vestidos ‘New Look’ serão o fio condutor que vai unir o passado e o presente, e devido ao qual vão surgir muitas dúvidas que levarão a procurar respostas. Essas investigações vão levar à revelação de vários segredos escondidos há muitas décadas.

“Tira a saia do Bar Suit, que tinha vestida, e desabotoa o casaco (…) sempre sem olhar para o espelho, até ter apertado os muito colchetes e a seda e o tule lhe terem moldado os ossos como uma segunda pele.
Mas não é a pele da dor. É a pele da memória, e é uma coisa violenta. Ela consegue ver as mãos a tremerem, enquanto se enfrenta a si mesma (…) encurralada na sua alma.”

1928: Skye e Liberty Penrose não podiam ser irmãs mais diferentes uma da outra. Uma é aventureira, arriscada, um pássaro livre, a outra é impulsiva, vaidosa e retraída na sua concha.
As suas vidas serão, para sempre alteradas, após a partida de Nicholas Crawford, seu amigo de infância, e a ida destas para a casa da tia.

1939: Os anos passam, Skye é agora uma nulher-piloto na WAAF (Women’s Auxiliary Air Force), as auxiliares femininas da RAF (Royal Air Force). É uma mulher que não é de baixar a cabeça perante as dificuldades. Envolvida num mundo de espionagem, a sua vida vai sofrer algumas surpresas e nem todas positivas.
Acompanhada pelas suas colegas, Skye vai entender na carne os riscos da profissão, enfrentar a misoginia dos colegas e superiores masculinos, e ter a sua vida em perigo por fazer o correto pela liberdade e sobrevivência durante a invasão nazi.

1947: Dior, apresenta a sua nova coleção ‘New Look’ em honra de alguém que lhe é muito caro. Os seus vestidos serão não só uma lembrança do passado, mas uma esperança num futuro melhor.

2012: Kat Jourdan, faz uma descoberta incrível numa casa em Inglaterra, um armário repleto de vestidos. Mas esses vestidos contêm segredos abafados pelo tempo e a história que os envolve é tão frágil quanto o tecido em que foram elaborados. Tentar entender a sua origem é despertar memórias dolorosas e pode ser mais do que está preparada para descobrir.

Invocou todas as forças para se manter de pé e espreitar através das tábuas do vagão e viu que os sinais já não estavam escritos em francês, mas em alemão.

Le dernier convoi, como seria mais tarde apelidado aquele comboio – o último comboio a deixar Paris -, chegou ao campo de concentração de Ravensbrück a 21 de agosto de 1944.

Paris caía nas mãos dos Aliados quatro dias depois.

O Segredo de Dior, de Natasha Lester, é uma história de espionagem, valentia, perda, amores que superam as provas do tempo e um interminável sofrimento tatuado nos ossos.

O leitor tem a possibilidade de seguir a vida dos intervenientes desde os tempos antes da guerra, ao durante e ao pós-guerra, e a tudo o que isso acarreta. Todas as lembranças dolorosas, os seres queridos que se perderam, os traumas que perduram.

Uma história emotiva, brutal, com toques de esperança.

As ondas corriam ao encontro delas, rebentando numa saudação; depois, recuavam lentamente, como se compreendessem que os nomes que levavam consigo eram um tesouro do tipo mais raro.



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