“Partida” de Julian Barnes
Sentido de adeus
Falar de um livro do britânico Julian Barnes é seguir viagem à boleia da obra de um dos mais marcantes escritores da sua geração, um homem que arrecadou, por exemplo, galardões como o Man Booker Prize e marcou a literatura a partir da década de 1980.
Também por isso, Partida (Quetzal, 2026), apresentado pelo próprio autor como o seu último romance, surge como uma obra profundamente reflexiva que revisita temas centrais da escrita do autor nascido em Leicester: memória, envelhecimento, amor e mortalidade. Ou seja, enquanto Barnes deixa cair o pano e dialoga simultaneamente com o leitor, a própria literatura e a ideia de finitude.
Misturando romance, ficção, ensaio e autobiografia, com um narrador chamado Julian Barnes que revisita episódios da sua vida e a história de dois amigos, Stephen e Jean, cuja relação amorosa atravessa décadas, Partida é um livro híbrido.
Não sabemos que factos pertencem à realidade nem o que é invenção literária, mas a história que tem como ponto de partida o reencontro entre dois namorados após quarenta anos de separação funciona sobretudo como estrutura para uma investigação literária sobre o próprio ato de narrar e sobre os limites da memória humana.
Sente-se também nas entrelinhas, um (quase certo) declarado adeus e a tentativa de fazer um balanço final de uma carreira de mais de quatro décadas, com Barnes a olhar conscientemente para uma saída, mesmo que isso signifique reflexões sobre morte, doença e perda de amigos, mantendo a ironia e a inteligência que marcaram toda a sua obra.

Por outro lado, a dimensão autobiográfica da narrativa faz-nos conhecer um narrador que partilha traços evidentes com o próprio autor, incluindo a experiência da doença e a reflexão sobre o envelhecimento, o que aproxima o romance da chamada autoficção. Contudo, Barnes utiliza essa proximidade não para oferecer uma confissão direta, mas para questionar o modo como as histórias são construídas e reinterpretadas ao longo do tempo.
Do ponto de vista estético, Partida mantém o perfil da escrita de Barnes, ou seja, uma prosa precisa, irónica e intelectualmente rigorosa. E ainda que possamos notar, a espaços, um lado mais contido e depurado do que em obras como, por exemplo, O papagaio de Flaubert ou O ruído do Tempo, não se perde uma forte dimensão reflexiva e dinamismo narrativo, já que grande parte do texto concentra-se em meditações sobre memória, literatura e mortalidade.
Em Suma, Partida não é um romance convencional, mas uma obra introspetiva que combina narrativa e reflexão filosófica, estando a sua força menos associada à ação narrativa e mais à capacidade de explorar questões universais como a fragilidade da memória, a inevitabilidade da morte e o poder da literatura para dar forma à experiência humana.
E ao transformar o próprio ato de escrever e de recordar em matéria literária, Barnes oferece um livro que funciona simultaneamente como romance, ensaio e despedida, uma obra que encerra, com lucidez e elegância, uma das carreiras mais consistentes da literatura contemporânea. Até já ou até sempre.
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