“Foi o Preto” de Ângelo Delgado
Racismo, nunca mais!
Em pleno século XXI, a sociedade ainda luta contra a discriminação. Quase diariamente surgem novos casos de pessoas que pela cor da sua pele, etnia ou cultura são castradas da sua liberdade. Perante isso, é absolutamente urgente lutarmos por tomadas de consciência que gerem empatia e respeito pelo próximo, e uma das formas de fazê-lo é através de livros que coloquem o dedo na ferida e despertem mentalidades.
Em Foi o Preto (Oficina do Livro, 2026), Ângelo Delgado, lisboeta com sangue cabo-verdiano, dá o seu precioso contributo e constrói uma narrativa policial que vai muito além da intriga criminal, com o romance a partir de um enredo aparentemente simples – a investigação de um crime – para explorar um fenómeno social profundamente enraizado: o racismo estrutural e a rapidez com que o preconceito se transforma em “verdade” e injustiça.
A trama desenvolve-se a partir de uma suspeita que surge quase automaticamente: perante o crime, a acusação informal aponta para “o preto”, no caso José Lima. A expressão que Delgado dá como título ao livro resume o mecanismo central da história, isto é, como o preconceito racial pode substituir a investigação, a reflexão e até o bom senso. O resultado é (bom) livro que revela como estereótipos e preconceitos funcionam como atalhos mentais perigosos, capazes de moldar a opinião pública e influenciar instituições.
Ao longo da obra, pautada por capítulos curtos que vagueiam por diferentes geografias, por vezes em regime flashback, o leitor acompanha personagens que, de formas distintas, reproduzem ou questionam essa lógica. A suspeita inicial desencadeia uma cadeia de reações, sejam rumores, julgamentos precipitados e atitudes discriminatórias, que expõem como o racismo não se manifesta apenas em atos explícitos, mas também em pequenas decisões, comentários ou silêncios que acabam por legitimar a desigualdade.

O perfil de thriller ajuda a manter o ritmo narrativo, mas o verdadeiro motor da história é a tensão moral que ronda os fantasmas da década de 1990 e os amores ou ódios lamentavelmente associados ao futebol. O crime torna-se quase um pretexto para analisar o modo como uma sociedade reage perante a diferença e como o preconceito pode contaminar a perceção da realidade.
Nesse sentido, Foi o Preto dialoga com debates contemporâneos sobre racismo, discriminação e justiça social, colocando quem tem o livro na mão perante os mecanismos subtis que sustentam o preconceito, com o autor a “obrigar” a confrontar a facilidade com que se constroem culpados antes mesmo de existirem provas.
Mais do que um romance policial, o livro funciona como um espelho incómodo, com Ângelo Delgado a lembrar, e muito bem, que o racismo raramente surge apenas em gestos extremos; muitas vezes, manifesta-se na naturalidade com que se aceita uma suspeita baseada apenas na cor da pele. E é precisamente essa naturalização que o romance procura desmontar.
No final, Foi o Preto deixa uma pergunta inquietante: quantas vezes a sociedade prefere uma explicação rápida, mesmo que injusta e “conveniente”, em vez da verdade?
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados