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“Susan Sontag: A entrevista completa da Rolling Stone” de Jonathan Cott

Ideias em estado bruto

É difícil definir Susan Sontag: A entrevista completa da Rolling Stone (Quetzal, 2026). Não podemos afirmar tratar-se de uma biografia; tampouco é ensaio clássico ou um manual de ideias prontas. Mas uma certeza temos: é um documento raro onde temos o privilégio de ler o seu pensamento em “tempo real”, sem uma edição apertada, frases lapidadas para a posteridade ou a proteção da escrita ensaística onde sempre controlou cada palavra.

Esse navegar entre géneros sem género é uma das marcas deste livro que resulta de uma entrevista feita, em 1978, pelo jornalista e escritor Jonathan Cott entre Paris e Nova Iorque, e apenas uma parte tinha sido publicada na Rolling Stone em 1979.

Por isso, o que agora temos em mãos é a conversa inteira, longa, sinuosa, ora obsessiva, ora brilhante, e que reflete exatamente Sontag. E, entre páginas, fala-se de tudo, de literatura, de cinema, de fotografia, de política, de feminismo, de sexualidade, de doença (o livro começa com uma autorreflexão sobre quando Sontag soube que tinha cancro…), de guerra, de moralidade, da fama, da Europa vs. América, mas, sobretudo, sobre como pensar num mundo saturado de imagens, ideologia e certezas fáceis. A complexidade de temas e referências é tal, desde os Beach Boys a Jean Cocteau, passando por Jean-Luc Godard, Vladimir Nabokov ou Leni Riefenstahl, que, no final do livro, existe um índice remissivo.

Esta extrema exposição, sem rede, revela uma mulher menos monumental e mais de carne e osso, ainda que nunca perca o lado da exigência, da recusa de simplificações, de quem desconfia de slogans e tem verdadeira alergia ao pensamento “preguiçoso”.

Por exemplo, quando o tema é arte, Sontag insiste que tal não serve para “consolar” nem para “explicar o mundo”, mas para intensificar a experiência. E quando fala de política, rejeita o conforto das boas intenções e sublinha a responsabilidade moral do intelectual, mesmo quando isso implica ser “impopular”. Já quando o tema é a doença, algo que marcaria profundamente a sua obra, há uma recusa de transformar o sofrimento em metáfora moral.

Do outro lado da barricada, Cott, como um experiente profissional, não disputa o palco. O seu trabalho é “apenas” fazer perguntas e deixa Sontag avançar, às vezes em monólogos longos, cheios de desvios e contradições. É precisamente aí que o livro ganha corpo, e ao ler uma pensadora a hesitar, a reformular ideias, a corrigir-se, a testar limites. Nem todas as respostas são brilhantes ou envelheceram bem, mas resultam de um registo cru de uma mente em permanente cogito.  

Ao longo das quase 150 páginas do livro, há também espaço para temas mais íntimos, de confronto, principalmente quando o assunto é o desconforto com a celebridade intelectual, a relação com o desejo, o medo da mediocridade ou (auto)disciplina do trabalho intelectual. Sontag surge, assim, como alguém permanentemente em combate consigo própria, movida por uma ética do rigor num mundo que já então caminhava para a superficialidade acelerada que hoje nos é tão familiar.

Por tudo isto, Susan Sontag: A entrevista completa da Rolling Stone é uma obra para ler devagar e deixar-se levar (ou não) por ideias em estado bruto, aceitando o natural desconforto de se estar dentro do pensamento de uma mente genial, mesmo que isso gere assentimento ou, claro, discussão.  



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