“Porco Assado” de An Yu
Quem és tu, homem-peixe?
O oriente sempre carregou, em especial para nós, comuns ocidentais, uma áurea que mistura misticismo com uma certa dose de distanciamento, seja geográfico, filosófico ou cultural, que remete para realidades e universos que desafiam a própria racionalidade.
E é esse ambiente que, muitas vezes, encontramos em obras literárias oriundas, principalmente, da China e Japão, sendo Porco Assado (Quetzal, 2023), de An Yu, chinesa que reside em Hong Kong, um excelente exemplo de uma narrativa que desafia a lógica racional e leva o leitor a mergulhar, literalmente, num mundo paralelo, aquático, onde as trevas emergem e vencem a luz.
Tudo começa numa manhã de outono, como tantas outras, em Pequim. Jia Jia, a protagonista e jovem pintora, pouco depois de tomar o pequeno-almoço com Chen Hang, seu marido, encontra-o sem vida, na banheira. A perplexidade desse inesperado facto é o ponto de partida para uma aventura que mudará a vida de Jia Jia, cuja tarefa maior passa a ser encontrar o significado para o desenho de um homem-peixe deixado no “leito” de morte de Chen Hang, algo que a levará até terras de uma remota aldeia no Tibete, onde vai encontrar lugares fantásticos, que desafiam a própria imaginação, e farão que duvide da sua sanidade mental.

Com uma vida assumidamente monótona e refém de uma relação pouco gratificante com Chen Hang, Jia Jia, “aproveita” a morte deste para iniciar uma luta libertadora contra uma dor que a atormenta há anos, sublinhada pela conjuntura de uma Pequim urbana e cinzenta.
A saída dessa prisão emocional é, além de tentar compreender a morte do marido, procurar respostas que lhe permitam, simultaneamente, conhecer melhor a pessoa com a qual partilhou anos da sua vida, mas também os mistérios da sua morte, duas questões que apenas logrará atingir se avançar para uma aventura que mescla medo pelo desconhecido (o expoente será a recriação de uma solitária viagem que o seu marido fez ao Tibete) e a “sedução” por uma vida mais livre, independente, e que encontra, em parte, eco na tentativa de construção de uma relação com Leo, proprietário de um bar local.
Narrativa elegante que navega entre momentos misteriosos e outros mais tranquilos, oníricos (a remeter para um universo digno de Haruki Murakami), contemplativos e alucinados, Porco Assado reflete, magistralmente, ao longo de 19 capítulos, sobre a ideia de família – a revelação feita pelo pai de Jia Jia no final do livro é um dos seus momentos altos – e os desencontros com a história das pessoas que nos são mais próximas, mas que, afinal, desconhecemos, mas também sobre os conceitos de arte, perda, luto, memória, beleza, amizade e amor, que, por vezes, erradamente, assumimos como definições estanques.
O resultado é um livro fascinante, repleto de dúvidas e algumas, poucas, certezas, sendo a maior delas a paixão com que abraçamos a demanda de Jia Jia e nos deixamos levar pela sua força e determinação.
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