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Sonic Youth @ Coliseu dos Recreios, 22 de Abril de 2010

Os Sonic Youth são a melhor banda do mundo.

Assim escrevia Robert Christgau – editor de música do Village Voice à altura – aquando o lançamento de “Rather Ripped”, penúltimo álbum da banda. Este concerto deu mais do que razão a esta hipérbole, mesmo que só por uma noite.

“We’re Sonic Youth and we’re from New York”. Os gajos que podem subir a um palco e dizer isto, sem estarem a mentir, têm direito a tudo, a hipérboles, a panegíricos e ao que mais houver. Teçam-se loas a cada um dos membros.

O Thurston Moore e a Kim Gordon, Rei e Rainha da música ruidosa, ela a fera pouco amansada que canta como os outros tocam guitarra, desafinada, rude, de uma aspereza que escapa à fealdade e caminha para a beleza, ele o eterno moço que as rugas mal escondem, que contorce o corpo como se dele pudesse extrair o som que se evapora da guitarra.

O Lee Ranaldo, que é o gajo mais cool do mundo. São dele as canções mais orelhudas, sempre assim foi, e ao mesmo tempo é da sua guitarra que saem os sons que baralham tudo, que sabotam a música mais corriqueira dos últimos álbuns, que a elevam. E o corpo dele mal se mexe, absorto que está na música que faz, na música que deixa verter, como se não fosse nada com ele, para o que se está a passar ao seu lado. Quando for grande, quero ser como o Lee Ranaldo.

O Steve Shelley, o herói “incantado” (má tradução de unsung) da banda. Passa mais despercebido que Mark Ibold – o baixista marreco emprestado pelos Pavement -, parece aquele miúdo gorducho, caixa-de-óculos, a quem ninguém liga nenhuma, lá atrás da bateria, quase às escuras. Mas ele é o esteio, quem segura as rédeas ao caos que emana do jogo de guitarras de Lee Ranaldo e Thurston Moore, com uma batida certeira e poderosa. É para ele que os outros se voltam quando estão perdidos, quando já não sabem para onde ir.

Quando todos estes ingredientes combinam na salganhada muito bem cozinhada em muitos anos de estrada, em muitos anos de ensaios, em muitos anos em estúdio a gravar álbuns, pode e deve-se falar em epifania. Por muitos antecessores e sucessores que a música dos Sonic Youth tenha, ninguém mais toca assim, ninguém mais é como eles, nenhuma banda pode ser tão como eles o foram no palco do Coliseu dos Recreios. Porque eles são os Sonic Youth e vêm de Nova Iorque.

Claro que os Sonic Youth não fazem música com uma relevância por aí além hoje em dia, o último “The Eternal” (donde saem a maioria das canções do alinhamento) é apenas um bom álbum de canções, na linha de “Rather Ripped”, muito longe das obras-primas “Evol” e “Sister”, dois dos melhores álbuns da história da música popular.

Nem têm uma canção tão boa como «The Story of Yo La Tango» (dos contemporâneos Yo La Tengo) nos últimos anos – «Massage the History» anda lá perto -, nem aterrorizam o público como os abrasivos My Bloody Valentine. Felizmente também não entram no jogo dos Pixies que desde que se reuniram se limitam a desfilar os velhos clássicos para júbilo da populaça (e podiam muito bem fazê-lo), o que pode ser divertido uma vez, mas acaba por cansar.

No entanto, não se coíbem de fazer as suas viagens ao passado, mais recompensadoras por serem raras e inesperadas, e é um prazer ouvir «Cross the Breeze», «Stereo Santity» e principalmente «Shadow of a Doubt» e «Schizophrenia» (que antes do concerto jurava que nunca havia de ouvir ao vivo). E «Death Valley ’69», que fecha o concerto em beleza, com imagens de acidentes, de morte, de massacres colectivos.

Lembram-nos dos Sonic Youth que sonhavam com animais mortos em estradas secundárias, com coroas de algodão e em anjos que sonham contigo, que trocavam títulos de filmes do Hitchcock, que repeliam as irmãs psicóticas dos amigos, que pediam a morte do Sean Penn (e quanto esses pesadelos nos sabiam bem), que cantavam que queriam ser invisíveis ao som de um piano desafinado, e nós acreditávamos que eles o eram e também o queríamos ser, quando eram, sem hipérbole alguma, a melhor banda do mundo.

Os Gala Drop? Quem é que no fim se lembra dos Gala Drop aos quais se apagou a luz? Mas é injusto, deram um bom concerto, daquela música monótona e repetitiva que induz àquele estado entre a vigília e o sono, com notas que nos chegam com atraso, sons que não temos a certeza se ouvimos, entre o dub e o krautrock, com uma guitarra gingona vinda de África à mistura. Quando lhes juntaram vozes guturais à Animal Collective e iam no melhor momento do seu concerto… a luz foi-se e por aí se ficaram.



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