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“Marfil” de Mercedes Ron

Entre o perigo e a luxuriante atração

Mestre dos apelidados romances para novos adultos, Mercedes Ron volta aos escaparates com um livro que fará as delícias dos seus muitos fãs. Assim, em Marfil – Atraídos pelo destino (Singular, 2026), a autora argentina volta a fazer a segura aposta numa fórmula já conhecida, mas eficaz: uma protagonista jovem e privilegiada, um passado envolto em mistério, um perigo que surge quando menos se espera e uma relação proibida que cresce entre duas personagens que parecem ter muito mais a esconder do que aquilo que deixam transparecer.

Neste primeiro volume de uma duologia, Marfil – Atraídos pelo destino, que vai ser transformado em filme através da Prime, acompanha Marfil Cortés, de 20 anos, filha de um poderoso empresário, habituada a uma vida de luxo entre Nova Iorque e a universidade de Columbia. O ballet, as festas e uma existência aparentemente despreocupada sofrem uma reviravolta quando Marfil é raptada no Central Park. Após acordar em Nova Orleães sem memória do que aconteceu, vê-se obrigada a aceitar a proteção de Sebastian Moore, o guarda-costas contratado pelo pai.

A partir daí, a história desenvolve-se num jogo permanente entre desconfiança, perigo e atração. Sebastian é reservado, controlador e difícil de decifrar, enquanto Marfil tenta recuperar alguma normalidade e, sobretudo, perceber em quem pode confiar. O problema é que a pessoa encarregada de a proteger pode ser também aquela que ela mais deseja e quem mais ameaça desestabilizar o seu mundo.

É precisamente nesta combinação de romance e suspense que o livro encontra o seu principal motor, com o rapto e os mistérios que o rodeiam a criar uma premissa suficientemente forte para prender o leitor, isso a par da componente romântica que acaba por se sobrepor ao próprio suspense.

E como habitual no universo narrativo de Ron, o ritmo da escrita é simples, direto e construído para não deixar o leitor parar. Essa competência encontra sinónimo, por exemplo, na alternância de perspetivas, sobretudo entre Marfil e Sebastian, contribuindo para manter a curiosidade e permite perceber gradualmente que nenhum dos dois corresponde inteiramente à primeira impressão. Ou seja, estamos perante um romance que privilegia a velocidade e a tensão, fazendo desses predicados parte da sua competência.

E depois há Sebastian, provavelmente a personagem que mais curiosidade desperta. A sua postura fria e protetora, aliada a um passado que vai sendo revelado aos poucos, torna-o simultaneamente atraente e desconfortável, o que contribuí para criar uma dinâmica tóxica entre o “casal”. Já Marfil revela vulnerabilidades e contradições resultantes do trauma aliadas a uma imaturidade que sublinha o estereótipo da jovem privilegiada e impulsiva.

Mercedes Ron sabe exatamente que tipo de experiência quer proporcionar. Não procura oferecer uma representação particularmente realista de uma relação amorosa nem desconstruir os clichés do romance juvenil. Prefere jogar com eles: luxo, perigo, atração proibida, segredos, personagens imperfeitas e uma relação marcada pela tensão.

Como primeiro volume de uma duologia, o livro também assume deliberadamente um final em aberto. As derradeiras revelações acrescentam novas perguntas e funcionam sobretudo como convite à continuação da história, com título já anunciado: Ébano – Separados pelo destino.



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