A Comédia Francesa: uma ode ao teatro e a quem o faz acontecer
Na Festa do Cinema Francês, a comédia de Martin Darondeau e Bertrand Usclat mostra que, na Comédie-Française, o espetáculo nunca é cancelado.
Há uma regra de ouro na Comédie-Française: o espetáculo nunca é cancelado. É a partir dela que Martin Darondeau e Bertrand Usclat constroem A Comédia Francesa (De la Comédie-Française), comédia que o público português pôde descobrir na Festa do Cinema Francês deste ano e que estreia nas salas a 22 de outubro.

A ação decorre nas três horas que antecedem a estreia de um Macbeth, a primeira encenação de Nina (Pauline Clément) na mais antiga companhia de teatro em atividade no mundo. E se a peça tem fama de amaldiçoada, o filme leva a superstição a sério: aqui, um azar nunca vem só. Cada problema resolvido abre caminho a outro maior, numa bola de neve em que a tensão sobe ao mesmo ritmo que o riso.
É um caos que se alimenta de situações improváveis e de uma boa dose de bizarria. Há momentos que desafiam a lógica e que só fazem sentido naquele universo, onde o absurdo convive com a solenidade de uma instituição com mais de três séculos. Não vale a pena estragar a surpresa: o melhor é entrar na sala sem saber o que esperar.
Por trás do caos e do riso, porém, A Comédia Francesa é uma ode ao teatro e, sobretudo, aos compromissos e ao esforço de quem o faz: atores, técnicos e encenadores que se recusam a baixar os braços perante todas as dificuldades. A comédia nasce do contraste entre a “Casa de Molière” e as pessoas de carne e osso que lá trabalham, com os seus medos e as suas vaidades.

O elenco ajuda. O filme é interpretado por membros da própria Comédie-Française, entre eles Laurent Stocker, Marina Hands, Julien Frison, Adeline d’Hermy, Serge Bagdassarian e Christian Hecq, com Pauline Clément, também co-argumentista, no centro. O resultado é uma comédia de trupe, em que o espírito de grupo conta mais do que qualquer protagonismo individual.

Os realizadores vêm de Broute, a série que parodiava os códigos dos vídeos informativos nas redes sociais, e trazem para a primeira longa-metragem o mesmo gosto pelo ritmo e pela palavra. O projeto nasceu como série que nunca chegou a ser vendida, foi escrito em dois meses e rodado em apenas três semanas na histórica sala Richelieu, então em obras. Essa pressa sente-se, e em bom sentido, como energia.
Em França, o filme saiu do Festival de l’Alpe d’Huez com vários prémios, incluindo o do Júri e o do Público, e estreou em julho com enorme sucesso, ultrapassando 1,3 milhões de espectadores. Compreende-se. É uma comédia que ri do teatro sem deixar de o amar, e que lembra que, por mais que tudo corra mal, há quem insista em levar o espetáculo até ao fim.
A Comédia Francesa estreia nas salas portuguesas a 22 de outubro, com distribuição da Risi Film.
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