“A Cura” | Pedro Eiras

“A Cura” | Pedro Eiras

Carta de despedida a Freud

O cenário confessional está montado: a divisão a meia-luz, o divã que convida à posição horizontal, a voz zen que induz ao desbloquear de segredos conhecidos ou mantidos presos pelo inconsciente. Logo no início de “A Cura”, o novo livro de Pedro Eiras, o narrador-psicanalista – iremos tratá-lo também por Sr. Doutor – avisa que as próximas linhas serão um testemunho de alguém que passou uma vida inteira a escutar os segredos dos outros – ele próprio -, à procura de uma cura para dores de alma e mente.

Acompanhamos as suas recordações dos tempos de faculdade, em que acreditava que todas as doenças eram invenções, até sucumbir a uma hipocondria que o vai sempre acompanhar e que terá sido, muito provavelmente, o combustível que alimenta a sua relação de fidelidade alargada com Rita, uma mulher que vive com um desejo permanente de adrenalina e uma insaciável sede de descoberta.

Um dia, a secretária Vanessa – que a partir do sétimo filho deixou de ser simpática para os pacientes – escreve-lhe na agenda uma estranha marcação: «20.30h – X». Porém, X não passa de um mensageiro de Z, um paciente futuro que mantém algumas exigências a troco de uma remuneração digna de um jogador da bola: as sessões serão marcadas a um ritmo de uma por mês – nunca menos -, terão duração ilimitada e não poderão sofrer interrupções; nunca começarão antes da meia-noite e serão tomadas diligências para que não haja encontros indesejados na rua, na entrada do prédio ou no elevador; não terão existência oficial, não podendo por isso haver registos.

Apesar do ar ditatorial das exigências, o psicanalista sente-se impelido a aceitar o paciente Z, que chegará sempre no meio de um corte de corrente eléctrica que se estende a todo o bairro, excepção feita ao candeeiro do escritório e ao elevador que irá conduzi-lo à consulta. Os sintomas que mostra são dores de cabeça, tristeza, insónia e ataques de pânico. Porém, ao desejo do Sr. Doutor de avançar para a cura da alma, o paciente afirma que não está dotado quer de inconsciente quer de sexualidade, pretendendo apenas a cura da mente. Está assim aberto o diálogo ideológico, que irá obrigar também o psicanalista a fazer uma rememoração do passado, desde a religião que lhe foi ensinada pelos pais – com muito certeza mas sem chama – à relação de discípulo perante o mestre Wagner, um inflamado ateísta que acreditava no Diabo e gostava de ouvir os discos do seu antepassado.

Sempre com o fantasma de Freud por perto, “A Cura” é um interessante exercício sobre os confins da mente humana e de como, por vezes, as crenças profundas podem estar a um pequeno passo dos seus antípodas. Um pouco como passear entre o amor e o ódio.



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