“A Hora as Sombras” de Johan Thoerin

“A Hora das Sombras” de Johan Thoerin

Ecos do passado

Jornalista de profissão, o sueco Johan Theorin, passou grande parte da sua infância na ilha de Öland, junto ao Mar Báltico, local que serviu de inspiração para um dos maiores projetos da sua vida: escrever uma tetralogia – apelidada por alguns como o “quarteto de Öland ” – sobre esse pedaço de terra ao largo da costa leste da Suécia.

Foi assim que começou a ser idealizado “A Hora das Sombras” (Porto Editora, 2014), um romance que mistura algumas das muito apreciadas características dos polícias nórdicos com um estilo mais narrativo pausado e reflexivo, sem pressas, que envolve o leitor de forma gradual e aditiva.

Tal como o próprio ambiente de Öland, este livro reflete momentos de uma fria pacatez, entrelaçada em peculiares episódios de folclore local que apenas são quebrados por uma terrível memória que nos faz recuar duas décadas.

Esse retrocesso no calendário leva o leitor até a uma manhã de setembro de 1972, onde o pequeno Jens explora os meandros de Öland. Apesar de o dia está envolto de uma densa névoa, Jens ousa passar a fronteira dos muros dos jardins dos seus avós maternos… para não mais regressar a casa. Depois de procurar em toda a ilha, polícia e populares não encontram o paradeiro do menino. A hipótese, trágica, leva a pensar que Jens teria caído ao mar e morrido afogado.

Vinte anos depois, Julia Davidsson atende um telefonema inesperado do pai, um reformado lobo-do-mar, mestre de embarcações ainda residente em Öland, a informar que recebeu nessa manhã uma encomenda especial: um anónimo enviou uma das sandálias que, supostamente, Jens calçava no dia em que desapareceu.

Este acontecimento faz (re)surgir a esperança e Julia, à luz de nova provas, regressa a Öland  para encetar novas investigações. A crença, ainda que ténue, de saber do paradeiro de Jens, faz com que Julia, uma sombra de si mesma, aceite regressar à terra onde nasceu, cresceu e viveu o pior dos pesadelos.

Presos a um drama que os retém presos ao passado, Julia e Gerlof estão decididos a entender o que aconteceu a Jens. Entre os novos dados, Julia ouve falar pela primeira vez de Nils Kant, um mítico personagem local que em tempos fora declarado inimigo púbico da comunidade. Mas há muito tempo que Kant está morto e enterrado. Ainda assim, pouco tempo antes de Jens ter sido visto pela última vez, há quem afirme ter visto Kant a deambular pela charneca ao cair da noite, à hora das sombras.

Ao longo das quase quatrocentas páginas deste romance sente-se uma atmosfera depressiva e opressiva de locais e personagens. Se Gerlof é um octogenário que tem como um dos últimos objetivos de vida saber o que aconteceu ao seu neto, episódio que carrega como uma forma de culpa, Julia rege a existência através de uma espécie de “piloto automático” cujo combustível assume a forma de uma garrafa de vinho. Já Nils Kant, o personagem que completa o trio nuclear de “A Hora das Sombras”, é um vulto, um espetro que reúne (pequenas) doses de inocência com uma maldade omnipresente e manipulável.

Theorin, através de uma escrita cuidada e em velocidade de cruzeiro, que em nada prejudica a fluência narrativa, tece um puzzle negro onde disseca sentimentos como a perda, a culpa, a ganância e a sede de poder. A amargura com que, por exemplo, Julia e Gerlof (sobre)vivem, retrata, de forma exemplar, a inquietude de um luto incompleto, de um fel que teima em atormentar corpo e alma.

Para contextualizar a trama, o escritor sueco faz uma pertinente crónica em forma de flashbacks (os capítulos do livro alteram entre passado e “presente”), principalmente para apresentar ao leitor Nils Kant, enriquecer também o nosso conhecimento face a alguns tiques de personalidade de Gerlof e Julia – que são particularmente avessos às novas tecnologias -, ou ainda sobre a rivalidade sueca entre continentais e insulares. Genial, é também a subtileza criativa de Theorin que faz crescer a “lógica” do desaparecimento de Jens através de pequenas revelações e pormenores.

Ainda que “A Hora das Sombras”, editado originalmente em 2007, tenha sido o romance de estreia de Theorin, a qualidade do mesmo valeram-lhe prémios como o Glass Key (Prémio para o Melhor Livro Sueco de 2009) e o prestigiado CWA International Dagger e figura, com todo o mérito, entre os melhores thrillers editados em Portugal no ano de 2014.

 



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