“A Livraria Mágica das Cerejeiras em Flor”, de Takuya Asakura
“Uma porta para o infinito”
A Livraria Mágica das Cerejeiras em Flor, de Takuya Asakura (Harper Collins Ibérica, 2026), é um livro de ficção japonesa contemporânea, com toques de realismo mágico, similar a Antes que o Café Arrefeça e Os Meus Dias na Livraria Morisaki, o típico livro feel good, não muito extenso, uma narrativa de “cura”, a qual retrata um local misterioso ou especial, que permite a quem lá entra, enfrentar e resolver as suas lutas pessoais.
Trata-se de um enredo metafísico, com uma certa melancolia, um complexo de histórias, focado em livros, nas memórias, no luto, na aceitação e na redenção, e na fugaz natureza da vida, onde o veículo da transformação é, nada mais nada menos, que uma livraria misteriosa localizada sob as cerejeiras. Uma livraria “mágica”, que só aparece e está acessível para certas pessoas em momentos de crise ou bloqueio nas suas vidas.
Nessa livraria os livros têm o poder de sarar, e há uma obra certa para cada pessoa e cada momento da vida, que traz consigo memórias, eventos específicos e marcantes que têm que ser abordados, de forma a evoluir e viver sem arrependimentos.
No geral, a obra aborda o quão curta é a vida e a necessidade de viver o agora. Uma leitura leve, mas profunda emocionalmente.

A primeira jornada é focada no isolamento, no luto e na injustiça. Neste caso, a livraria não resolve todos os problemas os problemas de quem lá entrou através de artes mágicas, pelo contrário, oferece-lhe uma mudança de perspetiva, confrontando-a com o passado, os mal-entendidos, a revolta e o perdão.
O livro que representa Mio, é um clássico, amado por muitos leitores, pequenos e graúdos: O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, onde “o essencial é invisível aos olhos”, que retrata na perfeição não só a história desta personagem, bem como a própria livraria.
Já a segunda jornada aborda a perda de memórias e, consequentemente, da identidade, a culpa reprimida e medos profundos que atormentam diariamente o novo interveniente, Shingo.
O livro que melhor representa a situação é Ten Nights of Dreams, de Natsume Soseki, onde são exploradas diferentes facetas da alma humana, e uma promessa entre os amantes afastados pela morte e pelo tempo. O simbolismo detrás do nome da mulher, Yuriko, e a flor de lírio (yuri), que ela tanto gostava, criam uma ponte com o “encontro após cem anos” presente na obra de Soseki.
O caminho da terceira jornada é cheio de obstáculos, focando-se na culpa, na inveja e ciúme, no luto, na separação quer pela distância, quer pessoal, de duas pessoas extremamente unidas.
O livro que representa Kaho e Shiho, é outro clássico conhecido, Peter Pan de J.M. Barrie, que reflete a sua infância, o seu elo e a quebra de algo difícil de reconstruir, já em adultas. O que a livraria lhes oferece é uma oportunidade de cerrar essa porta dolorosa, reconhecer a dor que lhes causou e crescer, permitindo que alguém que amamos “voe para novos poisos”.
A quarta e última jornada, é um ouroboros, é o “princípio de tudo”, é onde a livraria e os seus habitantes, passam de cenário e figurantes a protagonistas da história.
É uma porta para o infinito, não limitada pelo espaço ou tempo, algo que ganhou a sua essência a partir de luto, da tentativa de preservar memórias, a partir de um grande e eterno amor, “criados” por Kazuhiko, um escritor arrasado pela perda, que tenta agarrar-se aos detalhes da pessoa que mais amava, que lhe deu uma filha igualzinha a ela, Kozue.
Kazuhiko sofre de bloqueio de escritor, e é Kozue que se vê diante da livraria. Um dos momentos agridoces deste livro. Onde a vida real se depara com o impossível, com o fluxo do tempo imparável e misterioso, no limiar de mundos.
O livro que representa esta história é Spring and Asura, de Kenji Miyazawa, um reflexo da dor da perda e da ira.
É neste capítulo que podemos ver as interligações entre a “criação” do escritor, e como esta ao ganhar vida, perpetuou memórias e sentimentos, não só de Kazuhiko, mas de muitos outras pessoas que sem saberem que precisavam, foram auxiliadas pela livraria, a sua livreira e a gata Kobako.
O luto, o confrontar do passado e ver para além do que é visível aos olhos da história de Mio, o receio de perder as memórias, o amor pela mulher e a promessa por cumprir de Shingo, o sentimento de culpa, e a necessidade de encerrar um capítulo doloroso que as retém e limita só oferecendo dor, das irmãs Kaho e Shiho, como tantos outros detalhes pessoais dos personagens bem como históricos e culturais do Japão, são como espelhos da situação de Kazuhiko e de Kozue. Como que para completar o ciclo de renascimento dos personagens, Mio, da primeira jornada acaba por ter uma participação na “cura” do autor.
Um livro é uma porta para um mundo desconhecido.
Esta frase descreve na perfeição não só os livros que representam cada personagem, no seu respectivo capítulo, como também a livraria, aquele ser “estranho e incomensurável” que serve de portal entre a realidade e um local algures no espaço/tempo, que serve de comboio entre os traumas do passado e libertação do perdão no presente.
É incrível ver como um livro tão pequeno consegue carregar dentro si tanta emoção, tanto detalhe e significado, e como transmite a sua mensagem de forma mágica, e ao mesmo tempo tão real.
A Livraria Mágica das Cerejeiras em Flor é o paradoxo de um livro, pois cabe numa estante, mas é detentora de um universo onde o tempo flutua como as flores de cerejeira. Uma obra que nos ensina que o poder de um “mundo confinado” dentro de um livro, deixa em nós um impacto infinito.
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