“As Muitas Mortes de Laila Starr” argumento de Ram V e ilustração de Filipe Andrade
Poderá a Morte encontrar o sentido da vida?
‘As Muitas Mortes de Laila Starr’, de Ram V e Filipe Andrade (G.Floy, 2023), é uma bonita abordagem poética à vida, à morte e ao seu arqui-inimigo, a imortalidade.
Com argumento do autor premiado Ram V (Blue in Green, Grafity’s Wall) e ilustração de Filipe Andrade (Figment, Cyberpunk 2077: Big City Dreams), a história segue, maioritariamente, num ritmo intenso, quase urgente, desde a primeira página. Intensidade essa, representada por meio de vinhetas com tons mais intensos, cores típicas das que facilmente associamos à Índia: roxo, fúcsia, laranja, amarelo, vermelho; até aos momentos de quebra nesse tom mais pesado da história, quando são utilizados os tons pastéis, para representar momentos mais calmos, de transição, mais “mágicos”.

O livro todo, desde o tema, à conceção e realização, gira em torno do equilíbrio, de sincronia. Equilíbrio entre a vida e a morte, entre os bons e maus momentos, entre argumentista e ilustrador, até no equilíbrio estético, entre as cores intensas vs pastéis, o uso adequado dos balões (orgânicos, caudas menos pronunciadas dentro da vinheta vs orgânicos, caudas mais pronunciadas, fora da vinheta), e as legendas.
Trata-se de um longo processo de criação. Ram V, decidiu desde adolescente que iria ser escritor, chegando a escrever 40000 palavras da sua trilogia, inspirado pelo Senhor dos Anéis. Aos 16 anos, foca-se num tema, da qual era bastante escudado por parte dos pais, a morte. É aos 20, inspirado pela personagem Morte de Neil Gaiman e por Daytripper de Fábio Moon e Gabriel Sá, que sente novamente o impulso de escrever sobre a morte, encontrando nas suas memórias de infância, a presença sempre constante da morte na sua vida e na vida dos seus.
Aos 32, convence Eric Harburn a editar a sua obra e é aos 39, que saem os primeiros números de The Many Deaths of Laila Starr, ao todo uma minissérie de 5 revistas, editada pela Boom!Studios (2021), e depois reunidas em livro (2022).
A obra foi nomeada a vários prémios Eisner, em 2022: Melhor Minissérie, Melhor Argumentista, Melhor Artista/Arte-Finalista e Melhor Colorista, e lançada em território nacional, em junho deste ano, no Maia BD, publicada, em português, pela G.Floy.

Ram V, vencedor de vários prémios, desde 2016, aquando da publicação do seu 1º romance gráfico, escreve desde 2018, para a DC Comics, Marvel Entertainment, além de escrever as suas obras originais.
Em ‘As Muitas Mortes de Laila Starr’, Ram V une o seu talento para a criação de argumentos brilhantes, ao talento artístico de Filipe Andrade, lisboeta, colaborador – tendo também publicado obras – na Boom!Studios, Riot Games, MTV Networks, Passion Animation Studios, Marvel Comics, etc. Andrade também colabora, desde 2014, com a companhia de teatro Auéééu.
Ambos conjugaram os seus processos de criação, para Ram V, e neste caso específico d’As Muitas Mortes de Laila Starr, o conceito, seguido dos requisitos estruturais à criação de histórias para os capítulos individuais, em união com a estrutura direta, de vinhetas simples, com perspetiva cinematográfica em grelha, de ritmo pautado, regado a movimento, e proporções exageradas das personagens de Filipe Andrade.

A Morte é despedida. Este é o mote que dá início a esta história.
Apresentados, num início muito atribulado, a três histórias a desenrolarem-se em simultâneo, vemos uma jovem numa festa, uma senhora prestes a dar à luz e a Morte a perder o emprego.
Um novo ser humano está prestes a nascer, e ele será aquele que criará a imortalidade, tornando assim, obsoleta a Morte.
Sem emprego, revoltada por ir tornar-se um mero mortal, condenada a sofrer as agruras de uma vida humana e, por consequência, desaparecer, resolve tomar o assunto nas suas próprias mãos e eliminar a ameaça, desde a base.
Mas Laila Starr, nome com o qual a Morte renasce -uma e outra vez, sem parar-, não vai ter uma tarefa fácil.

Em ‘As Muitas Mortes de Laila Starr’, de Ram V e Filipe Andrade, o que poderia ser o mote de uma comédia, o despedimento da Morte, é nada mais nada menos, que a apresentação elaborada e poética, dos desafios da mortalidade e a busca pela imortalidade. Em suma, o descobrir do que é ser-se humano.
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