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“A obra-prima”, de Daniel Silva

Retrato de uma jovem

Há muito tempo que Daniel Silva, criador de Gabriel Allon, um dos personagens mais interessantes e míticos do universo da espionagem e thriller internacional, entendeu como agarrar a atenção dos seus milhões de leitores sem lhes dar descanso.

A obra-prima (Harper Collins, 2026) é a sua mais recente criação e, neste que é o seu 25.º livro, continua a utilizar a mesma fórmula e com o sucesso e qualidade de sempre, tendo como premissa um quadro roubado (desta vez, um Leonardo da Vinci desconhecido que é um retrato de uma bela jovem), espionagem, criminosos e mafiosos mais ou menos “elegantes”, membros da Igreja corruptos e amantes do vil metal, uma morte atroz e segredos internacionais. Todos eles ingredientes que transformam um thriller numa obra que se devora.

Essa mistura (improvável) entre cultura e ação é mesmo a maior qualidade das narrativas de Silva, que, desta vez, “esquece” a situação geopolítica explosiva concentrando-se nos meandros obscuros do contrabando da arte e na ganância de quem o dinheiro é sinal de estatuto e negócio. Tudo isso patrocinado pela influência da Máfia Italiana e o controlo da banca.

A narrativa de A obra-prima leva o leitor a seguir, claro, Allon, o agora restaurador de arte que em tempos foi uma das mais importantes figuras do Departamento, organização de espionagem israelita, que continua a não se esconder do perigo e de enfrentar com todas as suas forças os inimigos da justiça e da arte.

Para o ajudar nesta aventura, que começa com o aparecimento de um cadáver de uma mulher nas águas de Veneza, Gabriel Allon recruta vários dos seus aliados do passado (a quantidade de personagens é tamanha que existe uma lista com todos os nomes nas primeiras páginas), com o livro a fazer como que uma “revisão da matéria” no que toca aos tomos da saga iniciada há décadas, com participação especial de Luigi Donati, sumo pontífice da Igreja Católica Romana e amigo de Gabriel, sendo o Vaticano, e Itália, os palcos maiores.

A sustentar a trama está a habitual e sempre atual e profissional pesquisa de Daniel Silva que torna a narrativa mais sustentada, real, com destaque para o domínio dos meandros das pinturas desaparecidas, do tráfico de arte, dos bastidores de museus e leilões milionários.

Os mais céticos podem dizer que a fórmula se repete sem acrescentar nada de novo, mas Silva não precisa de fazer mais do que o seu normal para termos um competente e excelente livro, ainda que naturalmente possa não surpreender, principalmente os fãs de longa, mas que se deixam embalar com capítulos curtos cuja dinâmica remete para os melhores filmes de ação e entretenimento inteligente e cativante. A dúvida que fica, algo que acontece nos últimos romances com Allon, é saber se este foi um adeus ou um até já. Resta-nos esperar até março de 2027.



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