“À Morte Ninguém Escapa” de M. J. Arlidge

“À Morte Ninguém Escapa” de M. J. Arlidge

A vida depois de Marianne

São muitos os livros que surgem todos os anos nos escaparates, mas alguns destacam-se dos demais. É nessa categoria que se encaixava “Um dó, li tá”, um policial lançado em 2014 por terras lusas, da autoria do britânico M. J. Arlidge que se estreava no formato livro depois de muita experiência na área da televisão, nomeadamente na conceção de algumas séries do género supra citado.

No epicentro da trama estava Helen Grace, traumatizada inspetora-detetive do departamento policial de Southampton, personagem que volta à carga em “À Morte Ninguém Escapa” (Topseller, 2015), interessante e pertinente sequela do intrigante mundo criado por Arlidge.

Ainda com os ecos de “Um, dó, li tá” na mente, Helen Grace vê-se de novo envolvida numa onda de crimes que, tudo leva a crer, têm como autor um tenebroso serial-killer cujas vítimas são homens “de família” que recorriam a prostitutas cujo “cardápio” era divulgado via Internet.

Seja dos escritórios da polícia local ou em cima da sua Kawasaki, Grace sabe que não tem uma tarefa fácil e o tempo corre contra si quando há um obstinado e cruel assassino à solta. Mas Helen tem mais inimigos e fantasmas que lhe atormentam a vida: o regresso de Charlie ao ativo elevou a tensão no seio da investigação; a nova líder do departamento, Ceri Harwood, boicota o trabalho da equipa por mero egoísmo e sentimento burocrata; Emilia Garanita, a jornalista do Southampton Evening News continua a atormentar, perigosamente, o seu passado e agora com um aliado inesperado…

Enquanto isso, existe mais um terrível caso para resolver e tudo começou quando foi descoberto um corpo abandonado num sítio recôndito. Do cadáver fora arrancado o coração que, mais tarde, foi entregue à família em forma de arrepiante encomenda. O crime fora sangrento, terrível, impiedoso, cirúrgico, e não vai ser o único.

É nesta atmosfera cortante que evolui “À Morte Ninguém Escapa”, um livro dinâmico e absorvente que (e)leva o leitor para dentro de um caleidoscópio emotivo que trás de volta um universo tão caro a Arlidge e que qualquer fervoroso leitor de um (bom) thriller policial não vai querer perder. E para isso muito contribuí a capacidade do autor britânico em criar, e alimentar, bons e credíveis personagens cujo crescimento vem desde “Um dó, li tá”, e arriscamos mesmo dizer que este segundo volume conta como um ambiente mais envolvente e “sedutoramente” violento.

A isso juntam-se outros ingredientes de caráter social e humano que tornam a narrativa mais pertinente e crítica. Em causa estão as novas tecnologias e o consequente perigoso anonimato que a Internet (nomeadamente nos chamados fóruns) possibilita; a religião e a cínica usurpação dos seus mandamentos em nome de interesses pouco “católicos”; as frustrações relacionais dos casais modernos que colocam a família em segundo plano em detrimento da realização profissional; as relações de conveniência entre a polícia e a imprensa.

Estes ingredientes, alicerçados numa aventura rápida, cinematográfica, sem tréguas, à base de capítulos que não ultrapassam a meia dúzia de páginas, fazem com que “À Morte Ninguém Escapa” seja sinónimo de uma leitura ávida, uma estória entusiasmante (e sangrenta) e algumas horas muito bem passadas de livro na mão, com o virar das páginas a assemelhar-se a uma espécie de engatilhar de revólver.



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