«Um Poeta»: quando o génio mora na rua errada
Simón Mesa Soto filma a Colômbia que não canta vitórias — e devolve-nos um dos retratos mais vivos e humilhantes do cinema do ano
Premiado com o Prémio do Júri em Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2025, Um Poeta (Un Poeta) do colombiano Simón Mesa Soto chega a Portugal esta semana com a bagagem de um percurso singular pelos festivais internacionais: de Toronto a Melbourne, de San Sebastián ao El Gouna. Distribuído em Portugal pela Alambique através do selo Cinema Bold, o filme é uma tragicomédia filmada em 16 mm nas ruas de Medellín que recusa a glória e a redenção fáceis. O cinema colombiano raramente chegou às salas portuguesas com tanta elegância — e com tanta crueldade.
O ponto de partida: o poeta como espelho rachado
Óscar Restrepo é o arquétipo do artista falhado. Vive em Medellín numa rotina marcada pelo álcool, pela amargura e pela certeza inabalável — e cada vez mais comprometida — de que o mundo lhe deve alguma coisa. Publicou poemas que quase ninguém leu. Frequenta saraus onde é tolerado mais do que celebrado. Tem aquele tipo de dignidade frágil que se mantém intacta apenas enquanto não é testada.
Simón Mesa Soto, que ganhou a Palma de Ouro de Curta-Metragem em Cannes em 2014 com Leidi e regressou ao mesmo festival em 2021 com Amparo (na Semana da Crítica), conhece bem o território da derrota silenciosa. Em Um Poeta, não trata Óscar com desdém nem com condescendência. O filme começa como sátira — há humor genuinamente negro nas cenas do mundo literário local — mas vai revelando, sessão a sessão, camadas progressivamente mais dolorosas. O que parece um retrato cómico de um falhado revela-se, afinal, um estudo clínico sobre o que significa dedicar uma vida inteira a uma arte que não te devolve nada.
O ponto de viragem é o encontro com Yurlady, uma adolescente de origem popular que escreve poesia com uma naturalidade que Óscar jamais conheceu. A premissa soa familiar — o mentor e o talento bruto — mas Mesa Soto desvirtua sistematicamente qualquer expectativa de narrativa edificante. Não há aqui Dead Poets Society. Há algo mais incómodo, mais honesto, e por isso mesmo mais difícil de sacudir depois de sair do cinema.

A linguagem do filme: o grão que conta a verdade
Mesa Soto filmou em 16 mm, uma escolha que em 2025 é tudo menos inocente. O grão da película imprime ao filme uma textura orgânica, quase táctil, que contraria a lisura digital da maioria das produções contemporâneas. As ruas de Medellín surgem com uma materialidade que as câmeras digitais raramente conseguem capturar — o calor, a poeira, a espessura do quotidiano. O director de fotografia Juan Sarmiento G., parceiro habitual de Mesa Soto, encontra nos bairros periféricos da cidade colombiana uma luz que é simultaneamente bela e implacável.
O ritmo do filme é observacional, quase documental em alguns momentos. A câmara mantém distância suficiente para que as personagens respirem — e se humilhem — sem que o espectador sinta que está a ser guiado por onde olhar. Não há música a dizer-nos o que sentir. O humor nasce do desconforto, de situações que se prolongam ligeiramente além do que esperamos, de olhares que ficam no ar. É uma comédia que dói, e que dói precisamente por não anunciar a sua dor.
Há uma sequência, a meio do filme, em que Óscar recita os poemas de Yurlady para uma pequena audiência como se fossem seus — e a câmara simplesmente observa, sem julgamento imediato, deixando o espectador trabalhar. É o tipo de cinema que confia na inteligência de quem assiste, uma raridade que justifica, por si só, a ida ao cinema.

As personagens e o que carregam
Ubeimar Rios, num papel escrito à medida de uma estreia no cinema, entrega uma das performances mais singulares do ano. Óscar é simultaneamente ridículo e digno, egoísta e vulnerável — e Rios gere essa contradição com uma economia de meios que impressiona. Não há grande gesticulação nem monólogos reveladores. A personagem existe nos silêncios, nas hesitações, nos momentos em que claramente preferia estar noutro sítio. O Rotten Tomatoes, com 100% de aprovação em 54 críticas, cita precisamente a sua «brilhante performance de desconforto» como um dos pilares do filme.
Rebeca Andrade constrói Yurlady como o contrapeso necessário: onde Óscar é hermético e performativo, ela é directa e genuína. O filme não romantiza a sua relação nem a apresenta como uma amizade sem fricção. Há diferença de classes, de idade, de género — e Mesa Soto tem o cuidado de nunca deixar esquecer esses desequilíbrios. Yurlady tem talento, mas também tem consciência do mundo que habita e do que custará navegá-lo. É uma personagem que recusa ser apenas o espelho do protagonista.

O que o filme diz (e o que cala)
Um Poeta é, na superfície, um filme sobre poesia e sobre o fracasso de um poeta. Mas o que Mesa Soto está realmente a filmar é a Colômbia que não aparece nas narrativas mais exportadas do país — nem a narco-estética glamorizada, nem o optimismo pós-conflito das peças de divulgação cultural. É Medellín tal como existe na maioria dos seus dias: uma cidade com vida cultural intensa, com comunidades trabalhadoras, com jovens que escrevem porque precisam de escrever, independentemente de qualquer recompensa institucional.
O filme coloca questões que não responde directamente: quem tem o direito de ser poeta? Quem tem o direito de descobrir talentos? O que acontece quando o reconhecimento chega tarde, ou ao indivíduo errado? Há uma leitura política clara sobre a economia da atenção cultural — sobre como os recursos escassos do mundo literário são distribuídos de forma profundamente desigual — mas Mesa Soto tem o bom senso de deixar esses temas respirar dentro da narrativa em vez de os explicitar em diálogos-tese.
O que o filme cala é igualmente significativo: nunca saberemos exatamente o que Óscar perdeu ao longo dos anos, nem o que Yurlady encontrará depois. Um Poeta termina sem a catarse que esperamos — e é precisamente nessa recusa que reside a sua força. A vida dos seus personagens continua, intocada pela câmara.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
Um Poeta não é um filme para todos, e sabe disso. É um filme lento no sentido mais nobre do termo — lento como um poema que se lê duas vezes, como uma conversa que não tem pressa de chegar a lado nenhum. Quem procura narrativas de resolução limpa, de redenção garantida, ou de emoção telegrafada pela banda sonora, encontrará aqui uma resistência produtiva mas real. Para esses espectadores, a recomendação mantém-se: vale a pena ser desafiado.
Para quem já viveu a experiência de Amparo — o anterior filme de Mesa Soto, igualmente distribuído em Portugal num circuito de autor — ou de qualquer outro cinema latino-americano contemporâneo com marca autoral, Um Poeta será uma visita obrigatória. Confirma um realizador em plena maturidade criativa, capaz de transformar o banal em específico e o específico em universal.
O filme está em estreia em Portugal a partir de 10 de Junho, distribuído pela Alambique através do seu selo Cinema Bold, com sessões em salas de circuito de autor em Lisboa. Consulte a programação actualizada em alambique.pt.
Um Poeta (Un Poeta). Realização: Simón Mesa Soto. Com Ubeimar Rios, Rebeca Andrade, Guillermo Cardona. Colômbia / Alemanha / Suécia, 2025. 123 minutos. M/14. Em cartaz nos cinemas de circuito de autor em Lisboa a partir de 10 de Junho de 2026.
Simón Mesa Soto não filma para tranquilizar. Desde Leidi — a curta que lhe valeu a Palma de Ouro de Cannes em 2014 — que o seu cinema se situa naquele território desconfortável onde a comédia e a tragédia se tornam indistinguíveis. Um Poeta é a confirmação de uma voz que o cinema mundial já não pode ignorar: uma voz que vem de Medellín, que se filma em película, e que fala de falhanços tão específicos que se tornam, inevitavelmente, os nossos. No panorama do cinema de autor contemporâneo, poucas estreias desta semana — em Portugal ou no mundo — mereceriam mais a sua atenção.
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