“Um, dó, li, tá” de M. J. Arlidge

“Um, dó, li, tá” de M. J. Arlidge

Dois reféns, uma bala, uma terrível decisão

Combinar uma forma narrativa excitante, personagens com cabeça, tronco e membros e uma atmosfera assustadoramente inebriante não é tarefa fácil mas o britânico M. J. Arlidge consegue-o logo na sua primeira experiência enquanto escritor de romances policiais.

Com uma vasta experiência em televisão – nomeadamente em séries dramáticas de cariz criminal – Arlidge lança-se de cabeça no panorama literário com “Um, dó, li, tá” (Topseller, 2014), uma obra que está a fazer furor em termos internacionais através de (merecidas) excelentes críticas.

No centro da ação está Helen Grace, inspetora-detetive do departamento policial de Southampton que lidera uma investigação envolta de um intrincado jogo de sacrifício onde a chantagem psicológica do raptor encontra feedback no desespero das vítimas que são obrigadas em optar entre matar ou morrer, entre salvar-se ou eliminar o seu companheiro de forçado cativeiro.

Tudo começa quando Sam e Amy, um jovem casal, é raptado e se vê forçado face a uma decisão aterradora. As regras deste abominável jogo são claras: apenas um dos reféns pode sair com vida deste cárcere. Alvos de uma forte manipulação, os namorados enfrentam o desespero e a “solução” assume a forma de uma bala. Um simples tiro certeiro significa o fim do martírio de um dos raptados, um preço demasiado alto.

Os casos sucedem-se e cada pormenor, cada detalhe, leva Helen a acreditar que existe um padrão nos acontecimentos. Com a preciosa ajuda do atormentado Mark Fuller e da belíssima Charlie, uma dupla de detetives que habitualmente acompanha as investigações de Grace, a inspetora-detetive está cada vez mais convencida que a chave para capturar o monstro raptor está nos sobreviventes. Mas o tempo não para e a qualquer momento o número de vítimas pode aumentar enquanto a época natalícia em Southampton é manchada pelo vermelho do sangue derramado.

Estão assim lançados os dados para este que é um dos mais alucinantes romances policiais do presente ano. Arlidge revela uma ímpar mestria em combinar tensão, mistério e uma estória muito bem delineada. Um dos grandes trunfos de “Um, dó, li, tá” está na sólida construção dos personagens, principalmente da tripla Helen, Mark e Charlie, que mostra pormenores de grande lucidez ao apresentar “notas de rodapé” sobre as complicadas vidas destes polícias que, cada um à sua maneira, tentam ultrapassar fantasmas interiores que teimam em não abandonar as suas mentes.

Mas é também no perfil pérfido do raptor que reside outra das traves mestras deste romance pois as suas pensadas movimentações tendem a fazer revelar o pior do ser humano encurralado por uma situação que leva a que os sobreviventes sintam a dor imensa provocada pela culpa de matar alguém, para mais um amigo, um camarada de trabalho, um namorado ou uma filha. Desta forma recai sobre os “vencedores” um tormento interminável que os leva a ponderar a sua condição humana.

Escrito através de capítulos curtos, dinâmicos e absolutamente viciantes, que remete para um universo cinematográfico de películas como “Saw”, “Um, dó, li, tá” leva o leitor a devorar num ápice as páginas deste thriller psicológico cujos contornos mórbidos arrepiam e entusiasmam quem o lê pela sua brutalidade, intrincadas camadas de tensão e um enredo genuinamente entusiasmante que, algo já garantido pela editora, vai ter uma sequela.



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