«Dois Procuradores» e o labirinto do poder que devora os seus filhos
Loznitsa regressa à ficção para nos dizer que o totalitarismo não é uma anomalia — é o sistema a funcionar na perfeição
Baseado na novela homónima de Georgy Demidov — escritor soviético que sobreviveu aos campos estalinistas e escreveu às escondidas durante décadas —, Dois Procuradores é o mais recente filme de ficção de Sergei Loznitsa, cineasta ucraniano radicado nos Países Baixos e uma das vozes mais rigorosas e incómodas do cinema de autor contemporâneo. O filme estreou na Competição Oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Prémio François Chalais — atribuído ao filme que melhor defende os valores do humanismo —, e chega agora ao Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, como estreia da semana, continuando o percurso de um realizador que nunca deixou de confrontar o espectador com as suas próprias fragilidades históricas.
Ficha técnica: Dois Procuradores (Two Prosecutors / Zwei Staatsanwälte) | Realização: Sergei Loznitsa | Argumento: Sergei Loznitsa, baseado na novela de Georgy Demidov | Fotografia: Oleg Mutu | Música: Christiaan Verbeek | Elenco: Aleksandr Kuznetsov, Aleksandr Filippenko, Anatoliy Beliy | Países: França, Alemanha, Roménia, Letónia, Países Baixos, Lituânia | Ano: 2025 | Duração: 117 min | Classificação: M/12
O ponto de partida: uma carta que não devia ter chegado
União Soviética, 1937. No auge das Grandes Purgas de Estaline, milhares de cartas de presos políticos são sistematicamente destruídas antes de alguma vez saírem das celas. Numa prisão de Bryansk, contudo, uma dessas cartas — escrita a sangue por Stepniak, um velho bolchevique da velha guarda, torturado por se recusar a confessar crimes que não cometeu — escapa ao fogo e chega à mesa de Alexander Kornyev, jovem procurador recém-nomeado que ainda acredita na lei como instrumento de justiça. Eis o ponto de partida de Dois Procuradores: um gesto de sobrevivência documental que se transforma, inevitavelmente, numa odisseia kafkiana.
Loznitsa constrói o seu décimo primeiro filme de ficção a partir de uma premissa de aparente simplicidade moral: um homem bom descobre uma injustiça e decide agir. Mas desde o primeiro plano — uma cela mergulhada na penumbra, papéis a arder com uma lentidão quase ritual — o realizador sinaliza que o território que iremos percorrer não é o da esperança, mas o do reconhecimento. Reconhecimento de como os sistemas totalitários se perpetuam: não através da vilania óbvia dos seus executantes, mas através da boa-fé dos que tentam trabalhar dentro deles.
É este o gesto mais perturbador do filme: transformar a luta de Kornyev numa armadilha montada pela própria arquitectura do Estado soviético. A injustiça que ele descobre não é uma excepção ao sistema — é o sistema. E Loznitsa, com a frieza cirúrgica que caracteriza o seu cinema, vai deixando o espectador chegar a essa conclusão um passo à frente do protagonista.
A linguagem do filme: a burocracia como mise-en-scène
A escolha de Oleg Mutu como director de fotografia é reveladora das intenções estéticas de Loznitsa. Mutu, romeno, é o homem por trás da câmara de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu — um dos filmes que mais radicalmente filmou a opressão burocrática como condição atmosférica. Em Dois Procuradores, a câmara de Mutu observa com uma distância clínica, quase entomológica, os espaços onde o poder se exerce: corredores de prisões filmadas em Riga numa fortaleza construída em 1905, gabinetes da procuradoria-geral em Moscovo onde o mármore e a madeira escura sufocam qualquer veleidade de individualismo, compartimentos de comboio onde ninguém é quem diz ser.
O ritmo do filme é lento — deliberadamente, incomodamente lento. Não porque Loznitsa negligencie o espectador, mas porque a lentidão é, ela própria, uma ferramenta dramática: o tempo do Estado soviético é um tempo que esmaga, que esgota, que faz a resistência parecer cada vez mais ridícula e inútil. A música minimalista de Christiaan Verbeek sublinha este efeito: discreta, quase inaudível, como um baixo contínuo de ansiedade reprimida.
O resultado formal é um filme que Jessica Kiang, na Variety, descreveu como uma obra cuja fascinação reside no tecido e cuja devastação está no detalhe — uma formulação precisa para um cinema que não força o drama, preferindo deixá-lo emergir da própria estrutura da realidade que representa. É um cinema de acumulação, não de explosão.

As personagens e o que carregam
Aleksandr Kuznetsov empresta ao jovem Kornyev uma ingenuidade que é ao mesmo tempo a sua maior virtude e a sua condenação. O actor — que já trabalhou com Kirill Serebrennikov — constrói um rosto de quem acredita genuinamente nas palavras que leu nos manuais de direito: que a lei protege, que a verdade prevalece, que a hierarquia existe para rectificar os erros dos que estão abaixo dela. É essa crença, intacta durante demasiado tempo, que torna a sua trajectória tão dolorosamente reconhecível.
Em contraponto, Aleksandr Filippenko oferece uma dupla interpretação de rara densidade — interpretando tanto o velho Stepniak, o prisioneiro político cujo corpo carrega as marcas físicas da máquina de repressão, como um veterano da Primeira Guerra Mundial que Kornyev encontra no comboio para Moscovo, e que narra as suas tentativas de chegar a Lenine com a mesma combinação de obstinação e absurdo. É uma opção dramatúrgica que sublinha a ideia central do filme: que a URSS não foi um desvio da promessa bolchevique, mas a sua conclusão lógica.
Anatoliy Beliy interpreta Andrei Vyshinsky — o Procurador-Geral histórico, arquitecto das confissões forçadas dos Processos de Moscovo — com uma cortesia glacial que é a forma mais eficaz de violência burocrática. Não grita. Não ameaça. Simplesmente informa Kornyev de que sem provas documentais não há investigação possível — e devolve-o a Bryansk com papéis que são, na prática, uma sentença de morte.
O que o filme diz (e o que cala)
É impossível ver Dois Procuradores sem pensar no presente. Loznitsa — que nasceu em Baranovichi, então parte da URSS, e cresceu em Kiev — é um cineasta que nunca abandona a dimensão política do seu trabalho, mesmo quando o veste com as roupagens do período. A escolha de adaptar Georgy Demidov neste momento histórico específico — com a Rússia a invadir a Ucrânia e o autoritarismo a reconquistar legitimidade em vários pontos do globo — é um gesto deliberado, e Loznitsa nunca pretendeu o contrário.
Mas o que distingue Dois Procuradores da propaganda política, ou mesmo do simples cinema de denúncia histórica, é a sua recusa em oferecer heróis. Kornyev não é um dissidente. É um crente. E a tragédia que lhe acontece não é a de alguém que combate o sistema, mas a de alguém que tenta usá-lo honestamente — e descobre que essa honestidade o torna automaticamente suspeito. Esta é a lição mais antiga e mais contemporânea do filme: os regimes totalitários não destroem apenas os seus inimigos. Destroem, com especial eficiência, os seus servidores mais ingénuos.
O que o filme cala, deliberadamente, é qualquer forma de redenção. Não há catarse. Não há momento em que o espectador possa respirar aliviado. Há apenas a progressiva, implacável percepção de que o labirinto não tem saída — porque o labirinto não é uma falha de arquitectura, é o projecto.
Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
Dois Procuradores é um filme para quem não tem medo de sair do cinema mais pesado do que entrou. É cinema independente no sentido mais rigoroso da expressão: um objecto com uma voz singular, uma lógica interna coerente, e uma recusa total em condescender com as expectativas do espectador. Não é um filme fácil, nem pretende sê-lo. A sua lentidão exige disponibilidade; o seu pessimismo radical exige uma certa robustez emocional. Mas para quem aceita o contrato, oferece qualquer coisa rara: a sensação de ter estado dentro de uma máquina histórica e de a ter compreendido por dentro.
Para os que conhecem o trabalho anterior de Loznitsa — de Donbass a Babi Yar. Context, passando pelos documentários sobre a memória soviética —, este é o regresso mais esperado e o mais coerente com o seu percurso. Para os que chegam a ele pela primeira vez, é uma porta de entrada exigente mas absolutamente justificada. Dois Procuradores, crítica unânime à parte, é o tipo de estreia cinema independente Portugal que merece enchido o Cinema Medeia Nimas.
Dois Procuradores pode ser visto no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa — um dos raros espaços em Portugal dedicados ao cinema europeu e independente. As sessões desta semana decorrem a 5 de junho (19h00), 6 de junho (22h00), 8 de junho (21h30) e 10 de junho (17h15).
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