“Geometria Sensível”: Rodrigo Cass faz a sua estreia individual em Portugal
A Escola das Artes da Universidade Católica inaugura a primeira exposição individual do artista brasileiro Rodrigo Cass em Portugal, reunindo obras que exploram a tensão entre geometria, matéria e perceção sensorial em dois espaços — Porto e Lisboa.
A Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa apresenta “Geometria Sensível”, a primeira exposição individual do artista brasileiro Rodrigo Cass em Portugal, inaugurada a 20 de maio de 2026 no Porto. Com curadoria de João Sarmento SJ e Nuno Crespo e em colaboração com a Brotéria, a mostra desdobra-se por dois espaços: o Católica Art Center, no Porto, e a Brotéria, em Lisboa, a partir de 26 de maio. Cass, cujas obras integram coleções de referência como o Centre Georges Pompidou, em Paris, o TBA21 – Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, em Viena, e o MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, chega a Portugal com um conjunto de trabalhos que exploram a tensão entre geometria, matéria e perceção sensorial.
Entre Rigor e Fluidez: A Linguagem de Rodrigo Cass
Nascido em São Paulo em 1983, Rodrigo Cass construiu uma prática artística na encruzilhada entre o rigor da tradição construtiva brasileira e uma abordagem orgânica da forma. O seu vocabulário visual dialoga com os legados do concretismo e do neoconcretismo, mas recusa a sua rigidez, expandindo essas referências para um território onde pintura, escultura e imagem em movimento se cruzam e contaminam mutuamente.
A geometria é o ponto de partida, mas nunca o destino. Nas obras de Cass, as estruturas geométricas — planos, volumes, ritmos cromáticos — funcionam como campos de relação e transformação, ativados pelo gesto do artista e pela presença do corpo que as contempla. É uma geometria que respira, que oscila entre equilíbrio e instabilidade, entre o mensurável e o vivido.
Segundo os curadores João Sarmento SJ e Nuno Crespo, o trabalho de Cass “articula dois gestos que raramente encontramos em simultâneo: por um lado, um formalismo rigoroso, que encontra na geometria e na cor uma forma de depuração e concentração; por outro, uma abertura a uma dimensão sensível e experiencial, onde o gesto emerge como inscrição do corpo, da memória e de uma certa ideia de mundo.”
Uma Geometria que Convoca os Quatro Elementos
No cerne da exposição está a noção de “Geometria Sensível”, que se manifesta nas formas, nas cores e nos gestos que atravessam as obras. Mais do que uma abordagem estritamente formal, esta geometria revela-se como um campo de tensão entre racionalidade e intuição. As estruturas geométricas articulam-se com experiências sensoriais e afetivas, evocando uma dimensão mística atravessada pelos quatro elementos — terra, água, ar e fogo — como forças primordiais que informam, transformam e vitalizam.
Ao percorrer a exposição, o visitante é convidado a ajustar o olhar, a deslocar-se, a habitar o espaço de forma consciente. O gesto — do artista e do corpo que observa — torna-se estruturante, ativando planos e instaurando relações dinâmicas entre matéria e perceção. Entre equilíbrio e instabilidade, rigor e fluidez, a geometria deixa de ser apenas medida para se tornar experiência.
Como sublinham os curadores, “‘Geometria Sensível’ propõe um campo de tensão onde esses dois movimentos se intensificam mutuamente, fazendo da forma um lugar de passagem entre o visível e o vivido. As obras operam por decomposição e rearticulação, convocando fragmentos, ritmos e variações que desestabilizam qualquer leitura fixa.”
Percurso Internacional e Presença nas Grandes Coleções
Ao longo da última década, Rodrigo Cass tem-se afirmado no circuito internacional da arte contemporânea através de exposições individuais em galerias e museus nos Estados Unidos, Brasil e Portugal. Em 2025, participou na 13ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, e realizou uma residência como artista visitante no Nevada Museum of Art, em Reno. Os seus trabalhos estão representados em coleções de referência mundial, incluindo o Centre Georges Pompidou, em Paris, o TBA21 – Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, em Viena, e o MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Em Portugal, o artista já tinha marcado presença em 2018 com a exposição Mundo Vasto Mundo, na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel | Escritório Lisboa. A atual mostra representa, contudo, a sua primeira exposição individual de grande escala no país, reunindo obras que sintetizam o percurso dos últimos anos e propõem novas articulações entre a herança construtivista e a experiência contemporânea.
A colaboração com a Brotéria — centro cultural jesuíta com longa tradição no diálogo entre arte, cultura e espiritualidade — acrescenta uma dimensão particularmente pertinente à proposta expositiva, dado o interesse explícito de Cass pela dimensão espiritual e transcendente da forma.
Dois Espaços, Um Diálogo: Porto e Lisboa
A exposição desdobra-se em dois momentos distintos, ajustando-se às especificidades de cada espaço expositivo. No Católica Art Center, no Porto, a mostra estará patente de 20 de maio a 3 de outubro de 2026, com horário de segunda a sábado, das 14h00 às 19h00. Em Lisboa, a Brotéria acolhe a exposição de 26 de maio a 31 de julho de 2026, com horário de segunda a sábado, das 10h00 às 18h00.
Esta distribuição geográfica e temporal não é meramente logística: propõe diferentes modos de relação com as obras, permitindo que cada espaço imponha o seu próprio ritmo de leitura e contemplação. A dualidade Porto–Lisboa funciona assim como um eco da própria dialética que estrutura o trabalho de Cass — entre o local e o universal, entre a estrutura e o gesto, entre o rigor e a abertura ao sensível.
Mais informações sobre a exposição estão disponíveis em artes.porto.ucp.pt.
Conclusão: Uma Estreia à Altura
A chegada de Rodrigo Cass a Portugal com “Geometria Sensível” é, acima de tudo, uma oportunidade rara de contactar com uma das vozes mais singulares da arte contemporânea latino-americana. Num momento em que o diálogo entre as tradições construtivistas do século XX e as linguagens do presente se revela cada vez mais fértil, a Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e a Brotéria oferecem ao público português um ponto de entrada privilegiado nessa conversa. A pergunta que a exposição deixa em aberto — onde termina a geometria e onde começa a experiência? — é, por si só, motivo suficiente para uma visita.
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