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Festival do Bairro chega a Setúbal com cinema programado pela comunidade

Primeira edição, de 19 a 21 de junho, coloca os habitantes no centro da seleção e avaliação dos filmes em competição.

Setúbal recebe, entre os dias 19 e 21 de junho, a primeira edição do Festival do Bairro, uma iniciativa pioneira de cinema programado pela própria comunidade local. Ao contrário dos festivais tradicionais, foram os habitantes da União das Freguesias de Setúbal — de diferentes idades e bairros — quem selecionou os filmes em competição ao longo do último ano. Todas as sessões têm entrada livre.

Um Festival Feito Pelos Habitantes, Para os Habitantes

A ideia é tão simples quanto radical: e se fossem os moradores de um bairro a decidir o que se vê num festival de cinema? É essa a premissa do Festival do Bairro, coordenado pelo programador e jornalista de cinema Rui Pedro Tendinha, com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal.

Durante o último ano, dezenas de habitantes participaram em sessões de visionamento e discussão, escolhendo as obras que integram agora a programação. No final de cada sessão do festival, o público voltará a ter voz ativa — os prémios de melhor longa-metragem e melhor curta-metragem serão atribuídos por votação popular, com os vencedores anunciados na cerimónia de encerramento.

“Os verdadeiros curadores deste festival foram os habitantes dos diversos bairros da União das Freguesias de Setúbal. Foi uma experiência comunitária que permitiu desenvolver novos olhares sobre o cinema e criar uma ligação mais próxima entre as pessoas e as obras”, sublinha Rui Pedro Tendinha.

Programa Completo: Três Dias de Cinema em Espaços da Cidade

O festival arranca na noite de 19 de junho, às 21h45, nos Edifícios Montalvão, com a exibição de Bairro do Povo, de João Bordeira e Sérgio Braz d’Almeida — uma produção da Monstro Colectivo Associação Cultural, financiada pela Câmara Municipal de Setúbal no âmbito do programa Viver a Anunciada.

No dia 20 de junho, a programação desdobra-se em duas sessões. Às 18h00, na Sociedade Musical Capricho Setubalense, passam as curtas-metragens em competição: Salto, de Ana Castro; Chama, de Lucas Dutra; Vasco da Gama – O Mar Infinito, de Cláudio Jordão; e O Menino de Baião, de João Seugirdor. Mais tarde, às 21h45, o Largo da Misericórdia recebe a longa-metragem A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira — um drama intimista sobre um veterano de guerra que, ao ingressar numa casa de repouso, estabelece uma ligação inesperada com a sua cuidadora.

A sessão de encerramento realiza-se no dia 21 de junho, às 15h00, na Sociedade Musical Capricho Setubalense, com a entrega dos prémios atribuídos pelo público e a exibição do documentário Festival do Bairro – Uma História de Outros Olhares de Cinema.

Anabela Moreira É a Madrinha e Há um Documentário Sobre o Processo

A atriz Anabela Moreira é a madrinha desta primeira edição, participando também no documentário que encerra o festival. Com cerca de 35 minutos, Festival do Bairro – Uma História de Outros Olhares de Cinema, realizado por Pedro Augusto Almeida, acompanha o processo de criação deste projeto comunitário ao longo do último ano.

Para além de Anabela Moreira, o documentário conta com participações do músico The Legendary Tigerman, do ator Paulo Pires e do escritor Alex Couto. O realizador Pedro Augusto Almeida destaca a raridade da experiência: “Raramente acontece um produtor oferecer carta branca a um realizador.”

Um Caso Único em Portugal

Rui Pedro Tendinha considera que o envolvimento direto da comunidade na programação faz do Festival do Bairro um caso único no panorama cultural nacional. A iniciativa esteve aberta à participação de todos os interessados e coloca os habitantes no centro das decisões que moldam a identidade do festival — uma lógica que contraria a norma nos festivais de cinema portugueses, habitualmente definidos por comissões de especialistas.

O modelo participativo não é apenas um argumento de comunicação: durante meses, foram os moradores de Setúbal quem viu, debateu e escolheu. O festival é, assim, o resultado visível de um processo longo e silencioso de construção coletiva.

Para além do impacto imediato, o Festival do Bairro levanta questões sobre o futuro da programação cultural em Portugal: poderá este modelo ser replicado noutras cidades? A primeira resposta chegará nos próximos dias, nas ruas de Setúbal.



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