Seis mesas para junho: as escolhas em Lisboa, Porto e Algarve
Do peixe maturado de Leandro Carreira ao marisco eterno do Rei das Praias, junho tem muito para dar.
Junho é o mês em que Portugal se senta à mesa com o estômago aberto e os sentidos em alerta. Em Lisboa, chefs com carreiras construídas em Espanha e no Reino Unido regressam a casa com uma linguagem culinária própria, capaz de surpreender até os palatos mais exigentes. No Porto, os recomendados do Guia Michelin 2026 confirmam o que já se sabe: a cidade nunca esteve tão bem. E no Algarve, com o sol já instalado e o mar em temperatura, a escolha é simples — comer bem perto de onde as ondas chegam. Seis restaurantes, três cidades, razões de sobra para reservar já.

Lisboa — à mesa
A Rua de Santos-O-Velho ficou mais interessante desde que Leandro Carreira empurrou a sua primeira porta em Portugal. O chef, que partiu para Londres em 2011 para trabalhar com Nuno Mendes e se afastou do país durante mais de uma década — passando pelo lendário Mugaritz, no País Basco —, quis regressar com uma cozinha que vai contra a corrente. No Barbela CPM, quase nada é servido fresco. A maturação e a fermentação são o centro de tudo: o objectivo é extrair o sabor máximo de cada peça, e os resultados são fascinantes. A carta, que muda com frequência e inclui espécies pouco habituais nas mesas lisboetas, divide-se entre crus e quentes — do tártaro de lula ao atum galha-à-ré com waffle de algas e alho-francês, passando pela cavala maturada em soro de leite e citrinos. Para quem prefere começar pelo bar, dentro do Barbela funciona também o Bela, com cocktails de assinatura e menu próprio de Lula Mascella. Reserva indispensável. (€€€) — Rua de Santos-O-Velho, 82, Santos, Lisboa.

Vasco Coelho Santos, o chef do Euskalduna no Porto — casa que conquistou a sua estrela Michelin em 2025 —, desceu a Lisboa para abrir o Lamina. O nome é animal ao contrário, e a filosofia está no nome: usa-se o animal do princípio ao fim, numa cozinha nose-to-tail onde coraçõezinhos, orelha, moelas, rabo e língua dividem a carta com a inteligência e o cuidado de uma cozinha de autor. À frente do dia-a-dia está Inês Azevedo. O fogo é o denominador comum de todos os pratos — até à sobremesa: a rabanada, que já se tornou uma das peças mais faladas da cidade. Na Avenida Duque de Ávila, o Lamina propõe uma experiência de conforto que é simultaneamente exigente, honesta e sem desperdício. Uma visita ao Porto num prato. (€€€) — Av. Duque de Ávila, 42B, Avenidas Novas, Lisboa.
Porto — novidades e clássicos revisitados
Quando o chef Nuno Mendes — o mesmo que fundou o Chiltern Firehouse em Londres e trabalhou em cozinhas com estrelas Michelin de todo o mundo — regressou a Portugal, escolheu o Porto. A Cozinha das Flores, instalada no Largo de São Domingos no espaço do boutique hotel The Largo, é o seu projecto mais pessoal e mais enraizado na tradição nortenha. A sala foi desenhada pelo atelier dinamarquês Space Copenhagen — dez mesas, cozinha aberta, luz certa — e os pratos celebram os ingredientes do norte de Portugal com leveza e criatividade genuínas. A carta evolui com as estações, e a selecção de vinhos de pequenos produtores é um dos pontos altos da experiência. Em março de 2026, o Guia Michelin confirmou o que quem tinha ido lá já sabia: o Cozinha das Flores é uma das referências mais consistentes do Porto. (€€€) — Largo de São Domingos, 62, Porto.

Rita Magro tem 29 anos e já foi Jovem Chef do Ano pelo Guia Michelin 2024. Vem de Coimbra, passou pela Vila Vita Parc, pelo Salpoente, pelo Antiqvvm e liderou a equipa que conquistou uma estrela Michelin no Blind, do Torel Palace Porto. Desde dezembro que chegou ao Atrevo como quem regressa a um sítio que sempre foi seu — e o restaurante nunca esteve tão bem. A cozinha é de ingrediente: produto português no auge da época, técnica apurada, sabores que se complementam com harmonia. Os pratos mudam com a sazonalidade e o menu inclui propostas como Ostra da Ria de Aveiro com ponzu e piri-piri, ou Cachaço de Bacalhau com broa de milho, couve e azeitona. Em março de 2026, o Guia Michelin incluiu o Atrevo na lista de Restaurantes Recomendados; em abril, chegou o Sol Repsol. A sala — mármore claro, tons de verde, iluminação baixa — é intimista mas sem formalismo. Fine dining descontraído, como deve ser. (€€€) — Rua do Morgado de Mateus, 51, Porto.
Algarve — a mesa do verão
Em Lagoa, o chef Ivo Braz comanda o Gaspacho & Migas com uma clareza que é rara: chama-lhe Cozinha de Emoções, e é exactamente isso que faz. O menu celebra os ingredientes portugueses — e algarvios em particular — no seu melhor: robalo assado com migas de berbigão, polvo grelhado com mil-folhas de batata-doce, bacalhau confitado. A cozinha é aberta, e dali sai um cuidado que se sente em cada detalhe, desde a apresentação ao serviço personalizado com que a equipa apresenta cada prato à chegada, explicando a proveniência dos produtos. Cinco anos consecutivos de Traveller’s Choice no TripAdvisor são uma indicação clara de que este não é um sítio de passagem. Para quem vai ao Algarve em junho, Lagoa fica a vinte minutos de Carvoeiro e tem outros bons restaurantes por perto — mas o Gaspacho & Migas vale a deslocação por si só. Reserva aconselhada, mesmo fora dos fins de semana. (€€) — Rua Francisco L. M. Veloso, Lagoa, Algarve.

Há restaurantes que existem porque alguém acredita genuinamente no que serve. O Rei das Praias, em Ferragudo, existe desde 1976 — agora gerido pelo filho do fundador — e a fórmula nunca mudou: peixe e marisco frescos da costa algarvia, servidos na Praia dos Caneiros com o som das ondas como banda sonora. A cataplana de marisco e o arroz de marisco são as especialidades que trazem as pessoas de volta ano após ano, mas o melhor do menu é a consistência — sabe-se exactamente o que se vai encontrar, e é sempre bom. A localização é um privilégio: uma praia quieta entre Portimão e Lagos, com uma esplanada que olha directamente para o mar. Com quase cinquenta anos de história e uma esplanada com vista para o Atlântico, este é o tipo de sítio que se quer aproveitar sem pressa. Em época alta, reserva com antecedência — a procura é muita e a experiência merece ser vivida com calma. (€€) — Praia dos Caneiros, Ferragudo, Algarve. Tel: +351 282 461 006.
A gastronomia portuguesa vive um momento de rara lucidez. Chefs que saíram do país regressam com novas ferramentas, os guias internacionais olham cada vez mais para o norte, e o Algarve mantém o que sempre teve de melhor: o produto, o sol e a generosidade de uma costa que dá tudo o que tem. Seis mesas, três cidades, uma só razão para reservar: porque em Portugal, neste momento, comer bem é quase inevitável. Bom apetite — e boas reservas.
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