“Nada Há a Temer”, de Raquel Fontão
Quando o silêncio se torna o som do desastre
Nada Há a Temer, de Raquel Fontão (Guerra e Paz, 2026), traça um mapa que vai do incómodo visceral à melancolia profunda, unindo a sua técnica narrativa à experiência do leitor como observador.
O foco desloca-se da narrativa geral para o detalhe gráfico, onde o elemento visceral funciona como uma ponte para o estado mental das personagens, não se limitando a criar um choque visual, mas tornando-se um símbolo de invasão: a gosma que emana da matéria morta, materializa a sensação de que algo está a apodrecer naquelas relações e que, ao expandir-se na cabeça de uma personagem, revela como o trauma se torna invasivo — uma vez que a escuridão entra, ela ocupa o espaço de forma imparável.
Essa invasão, essa percepção de que essa substância se expande e ocupa o pensamento é a representação perfeita de obsessão. É o momento em que o negrume da gosma deixa de ser algo que se vê e passa a ser algo que se habita.

Há uma clara dinâmica de poder e do peso do papel familiar. O livro explora a dor de quem “faz tudo por todos”, e que à medida que se sacrifica, se anula, transformando a dedicação numa armadura que, ironicamente, isola a personagem; porém o verdadeiro horror psicológico surge devido a uma “traição interpretada”. Essa dúvida e tristeza que lentamente corroem o psicológico, aliadas ao sentimento de se estar perdido mesmo dentro do seu “refúgio”, sublinha a ideia de que a casa já não protege; ela apenas confina as sombras que crescem.
A narrativa prende-te através de um jogo de sons — a vitalidade das risadas infantis versus o silêncio gélido dos adultos, o que acaba por criar uma tensão constante, onde o leitor sente que o perigo não vem de fora, mas está sentado à mesa de jantar.
É aqui que o leitor é capturado pela inevitabilidade, tornando-se em alguém que se encontra imobilizado na posição de testemunha de um desastre inevitável, preso a uma curiosidade mórbida que o impede de fechar o livro, saindo da leitura com a sensação de que o maior perigo não é o que nos ataca, mas o que nos anula.
Raquel Fontão tece a atmosfera física, sonora e térmica de Nada Há a Temer de forma mestra, criando um contraste sensorial que sustenta o terror psicológico, usando o gore físico como porta de entrada para um horror existencial muito mais profundo: o medo de que o nosso refúgio nos consuma e de que os nossos sacrifícios sejam em vão, e conduzindo o leitor voyeur a sair dos escombros dessa casa com a memória da gosma, das sombras e do silêncio, combalido mas com a capacidade de transformar as suas emoções em reflexão.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados