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“Pão de Anjos” de Patti Smith

Literatura punk em forma de autobiografia

O meu primeiro contacto com a escrita de Patti Smith em forma de livro, depois de décadas a ouvir a sua música, foi com Apenas Miúdos. Ao terminar de o ler, cresceu a vontade de conhecer mais e melhor a pessoa de Smith, pois o referido livro focava-se mais da sua persona artística.

Esse desejo fica agora realizado com Pão de Anjos (Quetzal, 2026), obra que nos mergulha numa autobiografia poética e melancólica que, apesar de não esquecer a arte, centra-se na família, perda(s) e sobrevivência criativa da autora de discos seminais como Horses ou Radio Ethiopia.

E quando mais se lê Patti Smith, mais real é a sensação de estar perante a memória viva de criatura literária, sobrevivente da misticismo rock, que continua a escrever como se ainda estivesse sentada num quarto frio de Nova Iorque à espera que a arte lhe salvasse a vida.

Trata-se de uma viagem selvagem através da mente de Smith que sublinha a força hipnótica da sua escrita, seja nos momentos mais “dispersos”, como quando o foco é o sofrimento, a doença, a pobreza e o luto, tornando as frases que vão nascendo em matéria literária quase espiritual. Tal faz com que as páginas evoluam num percurso onírico que soam a um diário febril de alguém que viveu demasiadas vidas numa só.

Nessa viagem fazem-se paragens na infância pobre de Smith em New Jersey, com constantes mudanças de casa, nas doenças que marcaram os seus primeiros anos, no despertar artístico, na religião, na, claro, música, e os anos em que Nova Iorque ainda parecia um laboratório caótico de artistas falidos e génios improváveis. Entre os “atores” convidados a entrar na viagem surgem figuras como Robert Mapplethorpe, Bob Dylan, Sam Shepard ou Allen Ginsberg, “peças” naturais de uma paisagem artística e emocional.

Mas, o core do livro está na relação com Fred “Sonic” Smith, guitarrista dos MC5, e na forma como Patti descreve o amor, a família e o luto, entrando numa dimensão mais vulnerável e humana.

Obra que se aconselha moderação na leitura, pois precisa de espaço e tempo para maturar tal é a forma, por vezes errática e “indisciplinada” que segue, Pão de Anjos nunca tenta ser uma autobiografia tradicional, organizada ou “limpa”, afigurando-se como um mergulho na cabeça de Patti Smith, mestre em transformar fragilidade em arte, e que, perto dos 80 anos, continua a abraçar mais a verdade, estranheza e intensidade do que muita da literatura contemporânea.



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