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Olá, bom dia, tudo bem? de Martina Hefter

Abelha selvagem

Publicado em Portugal pela Minotauro, Olá, bom dia, tudo bem?, de Martina Hefter (Editora Minotauro, 2026), chega aos escaparates com a reputação de ser um dos romances europeus mais marcantes dos últimos anos, inclusivamente vencedor do Prémio do Livro Alemão 2024.

Narrativa que se instala devagar e obriga o leitor a olhar para zonas pouco confortáveis da intimidade contemporânea, a trama centra-se em Juno Isabella Flock, artista performativa de meia-idade, a viver em Leipzig, cuja rotina é marcada pelo cuidado constante ao marido, Júpiter, dono de uma incapacidade física que o impede de ser autónomo.  

Por isso, o quotidiano de Juno é feito de fragilidade física, exaustão emocional e uma solidão silenciosa e existencial. É nessa brecha de desgaste que o romance encontra a sua tensão mais humana, transformando o amor num compromisso, responsabilidade e permanência.

Fruto das frequentes insónias, Juno entra num outro mundo, no caso em participar em conversas online com burlões amorosos, homens que constroem identidades falsas para manipular mulheres emocional e financeiramente. O que poderia ser um enredo moral simples, entre vítimas e predadores, transforma-se numa exploração subtil das máscaras que muitos usam, principalmente à frente do ecrã.

Consciente dessas “regras”, Juno sabe, em muitos momentos, o que está em jogo, aceitando o desafio e lidando com um universo onde a fronteira entre autenticidade e representação torna-se difusa, espelhando o próprio mundo da performance artística que define a protagonista.

Com assinalável destreza, Hefter guia-nos por um equilíbrio entre a dureza concreta do quotidiano hospitalar e uma dimensão quase cósmica e metafórica da existência, criando uma espécie de coreografia emocional onde convivem melancolia, ironia, desejo e desencanto, rejeitando o moralismo fácil enquanto expõe a vulnerabilidade que sustenta tanto quem engana como quem “aceita” ser enganado.

Narrativamente, o romance não necessita de seguir uma aproximação mais clássico de tensão e resolução, estruturando-se uma sucessão de momentos, diálogos (principalmente com Benu, parceiro de ecrã de Juno) e reflexões que constroem um retrato fragmentário, e por isso profundamente contemporâneo e melancólico, da experiência humana, seja isso uma convivência com a invasão (quase) pacífica de um enxame de abelhas selvagens, a confissão das necessidades logísticas do transporte de Júpiter, a luta de Juno contra a meia-idade no mundo artístico, as desconfianças e desabafos com alguém que só se conhece através da pequena tela do telemóvel, ou a instabilidade financeira de se viver com dificuldades.    

Hefter tem o mérito de tornar a espuma dos dias em poesia, mesmo na ausência de uma progressão dramática mais tradicional – a “relação” com Benu nunca chega a ser mais de que uma amizade à distância. E no âmago deste livro breve está a questão da identidade. Quem somos quando ninguém nos vê? E quem somos quando estamos constantemente a representar, online, no casamento, na sociedade? A maioria de nós sabe que essas repostas podem estar ligadas (ou não) ao ato de ser humano e, especialmente por isso, a autora alemã opte (e bem) por deixar que o livro sirva de lente para uma observação delicada, passando por momentos de desconfortável lucidez, servidos numa bandeja de prata onde as contradições da vida contemporânea transformam a banalidade quotidiana num território de reflexão ética e emocional. E isso é boa literatura.



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