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Primavera Sound Porto 2026 | Dia 3 (13.06.2026)

Terceira noite entre a política dos Massive Attack e a euforia dos Idles.

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Texto por Daniela S e fotografia por Graziela Costa.

Terceiro e, para a maioria, último dia de Primavera Sound Porto 2026 mas, apesar do cansaço acumulado e do calor dos anteriores dias, ainda não estamos preparados para atirar a toalha ao chão. 

Já com temperaturas mais aprazíveis, abrimos as hostilidades com Yard Act… ou melhor, foram os britânicos que abriram as hostilidades, com a sua habitual irreverência e crítica mortazes e sem nos deixarem sequer interiorizar o que estava a começar a acontecer em palco antes de nos virarem ao contrário.  Voltamos ao “spoken word” misturado com pós-punk da tarde anterior, fórmula de sucesso nesta edição do festival e que serviu de aperitivo para um sábado de muito ativismo social (e musical). James Smith foi o mestre de cerimónias de um final de tarde em modo britpop made in Leeds, com algum humor e muita confiança misturadas. Quem não viu, pode sempre começar a juntar uns euros para espreitar em Outubro, no Capitólio. 

No entretanto, outro palco prometia fórmuia similar ao chamar por nós e não dava mesmo para ignorar o apelo dessa festa ao por do sol. O veterano Mike D decidiu fazer a sua estreia europeia a solo passar por Portugal e, desta vez, não quisemos mesmo arriscar não ver ao vivo um dos Beastie Boys (just in case…). A atuação, que encaramos como um “check” na lista de nomes a ver ao vivo, acabou por ser uma das mais icónicas desta edição do festival (ainda) primaveril. 

Em indumentária rosa-choque e ladeado de uma banda composta de gente que não tem os seus 60 anos de idade, mas se viu e revezou para o acompanhar (e onde se incluíam dois filhos do rapper), Michael Louis Diamond fez ver aos mais novos como é que isto do “rap branco que é meio hip-hop, meio hardcore punk” se faz. Ainda sem álbum a solo cá fora (“Thank You” sai em agosto), o público teve direito a alinhamento com covers dos “brits” Delta 5 e momentos “remember” de, claro está, Beastie Boys. Ficamos agradecidos por isso… e por «Hello Brooklyn», obviamente. Valeram os 15 anos de espera… 

Quem prefere outras sonoridades também tinha por onde escolher, com Criolo, Amaro e Dino a dar cartas no palco Zyn. O projeto, a meio caminho entre Portugal, Cabo Verde e Brasil, fala de colonialismo sem pejos e deixa no mar, mesmo ali ao lado, a resposta para o que nos liga na dor e na esperança. O mar e, claro, a poesia na palavra, um dos inúmeros pontos em comum entre Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago, os exorcistas desta catarse que nos envolveu a todos. Tivemos direito a “Saudade” e ficamos, de facto, com ela. Ainda vamos ouvir falar muito deste trio… 

Mas não nos detamos por aqui, que outros sons afroinspirados estavam prontos a tomar-nos de assalto noutro palco: a californiana Sudan Archives já estava no Primavera pronta para nos deslumbrar, entre a energia, a aura e o violino elétrico. Trap do bom, a eletrónica experimental altamente contagiante, com laivos de folklore da África Ocidental a piscar o olho ao R&B, o apogeu da performance foi “The BPM”, o mais recente álbum de Brittney Denise Parks, que serviu de desculpa para nos meter a todos a dançar com ela (um dos membros do público acabou mesmo por fazê-lo, literalmente, subindo a palco). Mais do que um concerto, assistimos a uma performance…e não nos estamos a queixar! 

Quem ainda teve curiosidade (e força nas pernas), espreitou ainda a dupla norueguesa Smerz, que sofreu da famosa síndrome de “banda que termina de atuar escassos minutos antes do headliner e, por isso, perde o público que já está a fazer filinha em frente ao palco principal”. Foi o caso da nossa fotógrafa, Graziela Costa, mas eu, devo confessar, padeci do síndrome supramencionado e já estava a guardar lugar noutra latitude… Fica o registo fotográfico (como sempre excelente) e a promessa de que a minha recompensa kármica por esta falha haveria de chegar breves momentos depois… 

É que Massive Attack foram, como sempre, mais do que uma banda em palco: foram a voz da razão, espelho direcionado à nossa cara sem grande espaço para subtilezas, denúncia em jeito de reflexão do negrume do mundo que habitamos, aquela presença impossível de descartar e que faz lembrar o célebre refrão da “Cantata da Paz”, poema de Sophia que foi imortalizado por Francisco Fanhais. 

“Vemos, ouvimos e lemos… não podemos ignorar” bem podia ser cantado pelos Massive Attack, se o coletivo britânico de trip hop soubesse português (e conhecesse o universo da música de intervenção feita por padres). Mas tal desconhecimento não os impediu de nos dar chapadas imaginárias de realidade durante quase duas horas, ou não fosse esse o seu modus operandi (no nosso caso, estamos a repetir a dose pós-Meo Kalorama de 2024). 

Por falar na língua de Camões, as “chapadas” simbólicas foram traduzidas nos ecrãs, para garantir que todos entendiam… e faziam-se acompanhar de muitas, MUITAS imagens para pintar todos os (des)gostos e desalentos: ora víamos os dramas que se vivem em Gaza, Sudão, Líbano ou Ucrânia, ora recordávamos que já odiamos George W. Bush em tempos, fizemos piadas com a pobre da Monica Lewinsky e não éramos particularmente fãs de Bin Laden ou Estaline. Pelo caminho ainda se relembraram sem timidez males mais atuais, como a AfD, Trump, Putin, Netanyahu ou Elon Musk, mandamos às favas as grandes tecnológicas e juramos combater quem rouba os nossos dados. Abaixo o capitalismo, reza-se, num festival com bilhetes a 75 euros e plantado mesmo ao lado de Matosinhos Sul e da Foz…

Ironias aparte, fica a justiça que tem de ser feita ao coletivo que não se coibiu de nos asfixiar com o seu manifesto político elevado aos píncaros, mesmo quando os olhares de desânimo se foram formando à medida que percorriam a setlist. É assim que se combate a indiferença, talvez. Assim e com marcação cerrada ao algoritmo, à inteligência artificial e a empresas de software lideradas por Peter Thiel. 

Pelo meio nem tudo foi absolutamente depressivo: tivemos direito a Elizabeth Fraser, Horace Andy e Deborah Miller e ouvimos «In My Mind», «Angel», «Unfinished Sympathy» e «Teardrop», verdadeiros prémios de consolação por aguentarmos tamanho abatimento. Quem não conseguiu absorver todas as mensagens, pode sempre rever o momento na RTP Play, mas avisamos já: mais vale ter um pacote de lenços e uns chocolates à mão. 

Ainda incomodados (e bem!), muitos saíram do recinto, macambúzios, agarrados aos seus telemóveis e a publicar posts nas redes sociais, já a fazer planos para o resto do fim de semana enquanto se dirigiam aos solavancos para os seus respetivos automóveis. Outros optaram por fazer a catarse no palco ao lado, juntando-se aos largos milhares que já esperavam os IDLES por lá. Se a ideia de alguns era fugir a lições de moral, estavam bem enganados e claramente não conhecem o grupo de Bristol. Joe Talbot e companhia também não se coíbem de falar mal dos principais líderes mundiais da atualidade e de lutar contra a masculinidade tóxica, o racismo e a favor da Palestina… mas a filosofia aqui é outra: “Joy as an Act of Resistance”, como reza o álbum. Uma espécie de “fuck the pain away”, da Peaches, mas em versão dança, que tem MUITOS fãs por cá e que deu cabo das últimas bolsas de energia que poderíamos ter no corpo ao fim de um festival tão vivido. É preciso mesmo dizer que, quem foi assistir ao concerto de uma banda de punk hardcore ficou rouco, suado, participou de copiosos moshpits e não meteu os pés no recinto no domingo para ver dj sets? Se sim, alguém está a precisar de mais uma ensaboadela nas armas de luta antifascista, de decorar a letra de «Never Fight a Man with a Perm» e de ver IDLES ao vivo. Não se preocupem: eles costumam andar muito por cá. 

Quem também continua por cá é o Primavera Sound que, este ano e em quatro dias, recebeu mais de 120 mil festivaleiros (mais dez mil que no ano passado). Para o ano logo veremos quantos rumam ao Parque da Cidade para mais uma edição, já com datas marcadas: fazemos novamente a festa no Porto de 10 a 13 de junho de 2027. Vemo-nos por lá?

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Leiam aqui as reportagens do primeiro e segundo dia do festival.



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