B Fachada canta Sérgio Godinho (novo CD)

B Fachada, com dois convidados especiais (Francisca Cortesão, dos Minta & The Brook Trout, e João Correia, dos Julie & The Carjackers), reconstruiu “Os Sobreviventes”, o primeiro álbum de Sérgio Godinho editado há precisamente 40 anos*.
* Embora gravado em 1971, e por isso surgindo com essa datação em diversas discografias, o LP de “Os Sobreviventes” foi apenas lançado no mercado português em 1972

Cuidado com as imitações:
Bernardo Fachada e Sérgio Godinho conheceram-se pela melhor das razões: por uma canção. Sem grande parcimónia e ainda menos cerimónia, o primeiro tinha em meados de 2010 composto ‘Os Discos do Sérgio Godinho’, uma irónica e divertida vinheta que se referia metaforicamente à centralíssima importância do segundo na crónica moderna da música nacional. [O tema viria a ser incluído no vinil de tiragem limitada “Há Festa na Moradia”, editado pela Mbari no Verão de 2010].

O tema, apropriadamente, retratava um casal em crise. Ele, emancipado e voluntarioso escritor de canções, dizia assim: “pedi-te a viola, falei-te na minha escola, que é nula e não rula a não ser para mim/ e preparei-me para cantar, pus o capo no lugar, fiz questão de me levantar/ dei corda a unha, dei corda à composição mesmo sabendo que tu não gostavas da canção”. Ela, de facto indiferente a essa nova escola, só lhe “mostrava discos do Sérgio Godinho”, dominando “o glossário daquele verso irregular”. Então, replicava ele, aludindo ao estilo patenteado há décadas por Godinho, que “também sei escrever para te cantar assim/ com o verso, enfim, quebrado, quase falado”. Mas não havia mesmo volta a dar: a liberdade “a passar por aqui”, como se ouve na canção, numa citação directa de uma frase de Godinho dada à estampa precisamente num tema de “Os Sobreviventes” (em ‘Maré Alta’), era a de que cada um seguiria para seu lado.

Sérgio Godinho reagiu ao mimo da melhor e mais bem-humorada forma possível: não só fez chegar os parabéns a Fachada pela canção como se disponibilizou para, caso se propiciasse a ocasião, interpretá-la num dueto. Foi o que acabou por acontecer, primeiro a 26 de Maio de 2010, num “encontro improvável” patrocinado pela Nokia, filmado e transmitido em streaming no site da marca e posteriormente disponibilizado em plataformas gratuitas como o YouTube, e, depois, a 3 de Dezembro do mesmo ano, quando Fachada convidou Godinho para uma actuação conjunta no cinema São Jorge, no âmbito do festival Super Bock em Stock, em que incluiu ainda outros clássicos do repertório godinheano como ‘Lisboa que Amanhece’, ‘Etelvina’ ou ‘O Elixir da Eterna Juventude’. Na banda em palco, fruto da sua participação no álbum “B Fachada é Pra Meninos”, então a chegar às lojas, estava também Francisca Cortesão. E logo ficou no ar essa hipótese que os músicos sempre perseguem de dar continuidade a boas, e inesperadas, experiências intergeracionais.

O elixir da eterna juventude:
Meses depois, a preparar o lançamento de “Mútuo Consentimento”, o novo disco que celebrava igualmente os seus 40 anos de carreira, Godinho lembrou-se de que seria interessante desafiar músicos de outra (mais nova) geração a pegar nas canções do seu primeiro álbum e averiguar da sua eventual validade estética para os nossos dias. Com a memória da recente colaboração com Bernardo e Francisca ainda fresca, falou-lhes dessa ideia, colocando-os à vontade para sugerirem em que contexto tal se daria – num single para as rádios, numa aparição em concerto, numa versão num próximo disco de Fachada ou Minta, etc. Claro que não se fez a coisa por menos, e, convocando João Correia (fundador dos Julie & The Carjackers e baterista com experiência em variadas e excelentes bandas, da de Nancy Vieira à de Manuel Paulo), produziu-se uma versão integral do pioneiro LP.

Isto anda tudo ligado:
Gravado por Fachada em 2011, entre o “Deus, Pátria e Família” e o CD homónimo com que fechou esse ano, este “Os Sobreviventes” não é, na sua discografia, o objecto não identificado que à primeira vista parece. Logo pelo precedente de ‘Os Discos do Sérgio Godinho’, claro, mas também porque, longe de uma certa complacência que instala relações acríticas entre os protagonistas da tantas vezes amnistiada e ocasionalmente amnésica música popular portuguesa, Fachada sempre mencionou, de entre outros, o exemplo de Godinho. Mas acima de tudo porque, mesmo a pretexto de homenagear um percurso tão singular, abrangente e unificador como esse, e apesar de o ter feito em parceria, esta nova versão das canções de “Os Sobreviventes” não dispensa de um estilo idiossincrático que combina, por exemplo, inusitados arranjos vocais, uma obsessão quase racionalista com a métrica (dramaticamente alterada, pois copiá-la da sua matriz original pareceria caricaturar o seu autor), uma relação profundamente sensual com o ritmo, uma organização coral dos materiais melódicos ou uma descura praticamente subversiva face a expectativas de coesão estilística e aos ideários contemporâneos do bom gosto. Estes são traços de B Fachada na música que faz, mesmo quando ela não é sua. E algo a que Godinho não será certamente alheio.

Por outro lado, alinhada com aspectos de participação política na sua alegórica lírica, e como desde aí se tem tristemente comprovado, nestas revolucionárias canções escritas na sombra da ditadura encontrou Fachada uma matéria com tremenda acuidade e relevância para os dias que correm. É impossível ouvir ‘Que Força é Essa’, ‘Senhor Marquês’ ou ‘Que Bom Que É’ e não pensar neste Portugal de tanta e tão transversal infelicidade.

Os pontos nos iis:
Mas, obviamente, a mensagem de liberdade que se adivinha no disco original só seria honrada por esta releitura se ela se situasse o mais possível no tempo presente e num campo de acção ditado pelos interesses dos actuais intervenientes. Assim, neste “Os Sobreviventes” dispensam-se certas cadências progressivas, ainda que num contexto folk-rock, de inescapável relevância em 71 mas hoje mais datadas, e introduz-se tango, rumba, merengue, valsa. E evita-se também aquela toada medievalóide-o-trovadoresca com que se ficava naquele mundo de Dylan mal se punha ao ombro uma guitarra, desenvolvendo-se, por exemplo, ricas harmonias vocais de todo inesperadas nestas canções. Daqui desaparecem também os (poucos) tambores mais marciais e introduziu-se com outro protagonismo uma maleável e doce bateria que está quase ausente da gravação de Godinho. Também aqui se canta sem a responsabilidade de dar voz a um povo e, logo por isso, não se nota uma prevalência da mensagem no texto nem é a palavra o que mais ordena em cada canção. Não será por acaso que este “Os Sobreviventes” soma quase 15 minutos à duração do de há 40 anos atrás. Retiraram-se também caricaturais efeitos de sonoplastia de um certo absurdismo ácido e a amplitude de géneros evocados não serve para reflectir determinada mundividência ou sublinhar os limites das fronteiras físicas e psicológicas de um país na altura a viver com medo mas sim para espelhar uma independência criativa desde então conquistada. No fundo, usa-se o testemunho de uma era – moral, social, política, economicamente – tão distante para se repetir o que já nesse instante se adivinhava: que, neste estado de coisas, sobreviventes somos todos nós.



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