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Carbilly + Bruto and The Cannibals

Musicbox, 10 de Fevereiro de 2010.

O ambiente que se viveu no passado dia 11 de fevereiro no Musicbox, com o espaço bem composto, foi prova de que as dinâmicas “não politizadas“ de uma certa subcultura “voodoo rock´n´psyco billy”, que animaram algum do imaginário mais luxuriante de 50, ou o lúgubre e apocalíptico de finais de 70, com bandas como The Cramps ou Meteors, permanecem para a imensa minoria que as tem acompanhado, desde meados de 80, cá no burgo religiosamente intocáveis.

Carbilly são de Beja e foram os primeiros a reanimar aquilo que em ’50 alguns americanos designariam de “música do diabo”. Um rock´n´roll cúmplice com o modelo de décadas passadas levando-nos ao porto de abrigo da matriz vezes sem conta ao longo da actuação.

A voz, harmónica e guitarra, alimentaram o envolvimento referencial que se sente nas suas coordenadas, deambulando entre figurões da Memphis Tennesse de outros tempos – de Johnny Cash a Scotty Moore, de Elvis a Bill Back Combo – que a aura do colectivo revelou como manifesto combustível de predilecção.

«Blues Suede Shoes» (celebrizado por Elvis Presley) e a versão de «Come On Everybody» enunciaram boas doses de vitalidade revisitada fazendo abanar ancas e o entusiasmante bater de pé de alguns creepers envernizados.

Servindo a sua primeira vinda a Lisboa também de apresentação do mais recente EP, de título homónimo, ainda nos embalaram, pelas sinfonias abertas, de «Sold The Ring» que se seguiu a «Around My Naked Boy», ambas a avivar, em boa dose, o anseio rítmico de um western ou faroeste.

«All Night Long», «Devilish» e «Killing Time Baby» são a intromissão dos universos secular e sagrado na sua sonoridade em perfeita comunhão. O sexual e o devoto lado a lado. Tal qual a geração que os inspira exsudou ou nos transparece e acomoda no pensamento até hoje.

Na imagética sonora deixada pelo colectivo no palco do Musicbox retêm-se ainda «One Murder», «Deep Search» e a argúcia vocal, bem acompanhada por guitarra e bateria, de «Sweet Honey» (também do recente EP).

A emergência que se seguiu carrega o culto de uma época que refractou géneros e sub géneros musicais pela cidade de Lisboa, Porto (Cães Vadios) e Coimbra (Tédio Boys) em décadas idas. Jorge Bruto dispensa apresentações, mas quem se recorda dele em Emílio e a Tribo do Rum ou Capitão Fantasma não poderá esperar menos que a restituição calorosa que deu em tempos vida à energia vital do primeiro rockabilly, punk e psycobilly ouvido por terras lusas.

Bruto and The Cannibals é o mais recente projecto de Bruto. Cantado em Inglês, mas com o (ainda mais) frenesim deliberado que lhe aconchegou o pioneirismo no boom do underground nacional em tempos passados, assumiu nesta noite todas as conotações previsíveis que nos devolvem à memória a semente da sumptuosidade anárquica e democratizada de tais movimentos sónicos.

A ruptura com a génese mainstream não é a única ideia que prevalece no seio de Bruto and The Cannibals. Aliás, se a ideia de democratização sonora de alguns estilos sonoros passou, nas década de 70 e 80, por unificar uma atitude performativa e vocal majestática e assertiva com a distorção completa e a ineficácia instrumental, que permitia usar o instrumento como arma de arremesso, Bruto and The Cannibals contorna as ideias que nutriram um largo nicho durante anos a fio e, embora embebido da subversidade incorrigível de outros tempos e projectos, é do ponto de vista instrumental muito bem acompanhado pelos Cannibals.

Mário Ayres é figura experiente também e exímio guitarrista, «Astro Man», «Mad Dog» e «Mean Blues» comprovaram-no melhor ainda ao vivo nesta noite. Também «Live a Rocket» e «Critical Day» cresce na severidade da bateria.

«Get Out My Life», «Bad Seed», «Little Baby», «Angel» e já no encore «Twisted Twist» propuseram e fizeram crescer no público presente, maioritariamente simpatizante de Jorge Bruto, o instinto participativo de concertos com tal carga.



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