Chandi_Julian

Chandi | Entrevista

À conversa com Chandi, a cantautora que lançou o seu primeiro trabalho discográfico a 7 de Março do presente ano.

O mês de março foi de comemoração com o lançamento do primeiro álbum de estúdio de Chandi. Intitulando-se “Portal”, conta com oito canções que nos transportam para um lugar onírico e quase interminável. 

“Portal” compõe-se de sonoridades e identidades múltiplas, não fosse a artista uma amálgama das raízes mais sábias e das sementes mais íntegras. Uma voz doce que não perde a força, uma voz suave que não perde o ímpeto.

O disco celebra o que de mais vital habita em nós, como se fôssemos infâncias que nunca se perdem, como se fôssemos primaveras que nunca esmorecem, como se fôssemos substâncias que nunca se desfazem. No meio de tudo isto, temos a Chandi. Que nos cativa e activa, indicando-nos o rumo, sem muro. Sem muros, apenas ‘portais’. 

A cantautora já lançou dois videoclipes associados ao nascimento deste “Portal” – do single “Oxalá” (com Celina da Piedade), que saiu em Novembro de 2024; e da “Dragonfly” (com Ruca Rebordão), divulgado aquando do lançamento do álbum.

Segue a conversa da Rua de Baixo com Chandi, a artista que dá voz ao verbo, que do corpo faz amparo, e que às palavras lhes dá consistência e consciência. Não fosse o que nos dá contorno, aquilo que nos mantém à tona…

Obrigada, Chandi. 

Boas escutas! 

Rua de Baixo (RDB): Como tem sido o brotar deste “Portal”? Qual a origem dele, de onde parte e para onde vai?

Chandi: O “Portal” brota, eu acho, de um processo de vida. De estar viva. E a origem dele, assim, mais concreta, foi em 2014. Nesse ano, senti um desejo mais específico e concreto, um ímpeto de transformar poesias que tinha escrito em canções. A verdade é que ao longo destes anos todos, esse caminho foi-se cumprindo, com o seu tempo, e não descurando a urgência bastante de trazer ao mundo estas poesias. Poesias estas que tentam traduzir mundos internos e afectivos, em formato de canções. A origem deste disco também vem de uma necessidade de comunicação, de comunicar uma sensação quase de solidão primordial no mundo que era meu e a partir do qual eu queria estabelecer pontos. Então, para isso, sentia que a poesia, as canções, o poder dar corpo e voz a estes mundos, eram uma possibilidade, eram um portal. Eram portas que se podiam abrir para comunicar este sentir. E, agora, sentir que ele está no mundo é um misto de emoções muito grande. Foi, realmente, muito trabalho, dez anos de foco, de resiliência, de não perder a esperança com todos os desafios e limites que surgem, as frustrações… Então ver que concretizei o que idealizei há tantos anos atrás, é gratificante acima de tudo. Acerca do lugar para onde ele vai e, como ‘mãe’ deste “Portal”, nós temos expectativas para os nossos filhos, mas eu quero deixar-me surpreender acerca do lugar para onde ele irá. Acho que é um disco que ele próprio, pela sua identidade, escolherá os seus públicos, os seus lugares onde ele gostará de estar representado e ecoar. Mas no fundo a minha vontade seria manifestar ‘este portal’ em diferentes contextos, culturas, países, palcos…

RDB: Qual a sensação que advém com o lançamento de um primeiro álbum desejado há muito?
Chandi: É como se houvesse algo que se deixa para trás, que morre em nós, para poder dar a luz a algo novo, dar espaço a algo novo. E a sensação é mesmo desta transição, desta metáfora da serpente que solta a pele, da borboleta que sai do casulo… a natureza é uma grande inspiração para mim. Ao haver algo que se deixa para trás, há algo que se abraça no presente, numa surpresa para o futuro. 

RDB: Porquê “Portal”?
Chandi: Inicialmente o disco era para se chamar “Trânsitos”, inclusive já tive um espectáculo com esse nome, muito na óptica da poesia musicada, onde fui experimentando os meus originais, entrelaçando com interpretações de outros cantautores da world music. E eu achava que “Trânsitos” representava muito bem esta sensação de inquietude, de estar sempre à procura de algo… e mantive-me com essa ideia desde 2018 até ali 2022, o início da produção do disco. Mas, em 2022, eu passei por outras mortes e renascimentos e senti que já não queria estar no ‘trânsito’, queria estar no momento presente, num lugar com presença. Até que, de repente, me veio à ideia “Portal”, e aí não tive mais dúvidas. As palavras têm muito significado para mim e eu senti que ‘portal’ poderia ter múltiplos significados e isso agradava-me. Quase uma sensação de entrada e de saída… 

RDB: Uma música do álbum, em três palavras.
Chandi: “Contornos” – Fé, Resiliência e Constância. 

RDB: Fala-me um pouco sobre o teu caminho artístico até aqui. Quais os principais desafios que tens sentido enquanto artista?
Chandi: Realmente, a mãe de tudo isto foi o teatro. Comecei com 15 anos, fiz um curso intensivo de representação e depois ingressei num curso de actores. O teatro era o meu fiel companheiro, era ali que eu queria estar… mas a vida dá muitas voltas. Acabei por cursar comunicação social, mas sempre com esta latência do teatro. Em 2010, conheci alguém que me inspirou muito, que fazia consultoria de inovação através do Clown – e aí voltei a conectar-me imenso com o teatro. Fui estudar para fora, Clown, e fundei uma associação com amigos, a Clown Care. Voltei a trabalhar como actriz. Fui formando-me mais e mais. No fundo, comecei a aliar o teatro e as ferramentas que o mesmo nos oferece. O nosso corpo, a nossa expressão, mas também a nossa escuta e sensibilidade… achei que eram fundamentais para o desenvolvimento pessoal. Criei cruzamentos até gerar um método próprio. Ando sempre por entre dois mundos – o teatro, que depois extrapola para as artes multidisciplinares; e o desenvolvimento pessoal. Também lancei um livro “O Grito da Bananeira”, e sinto que andei sempre entre a escrita (muito presente desde nova), as artes sonoras, a performance e o activismo. 

Em termos de desafios, os maiores são as minhas crenças internas, que me limitam, por eu achar que não tenho espaço; e o próprio contexto, em que creio que a arte que faço talvez esteja sempre em lugares circunscritos, à margem. Questiono-me sobre o porquê de o meu trabalho não ter mais extensão, sobre o porquê de não conseguir chegar a mais lados… Tem sido difícil conseguir assumir-me como artista multidisciplinar, sobretudo em Portugal. Podem ser crenças minhas, eu coloco também essa hipótese porque as nossas crenças também nos enviesam o olhar. Mas penso muito também na questão de ser criadora mulher, mestiça… Por outro lado, sinto que já se começa a cruzar o activismo, as revoluções e as transformações sociais. Espero fazer parte desse movimento e que estejamos cada vez mais unidos. Seria tão bom estarmos mais unidos, a cooperar, enquanto artistas, e não com medo da competição… 

RDB: Quais são as tuas urgências criativas? E de que forma este álbum as agregou/concretizou?
Chandi: Uma urgência criativa minha, eu acho que é… o que é isto do amor? A nossa necessidade de sermos amados e de amar… e ah, tentar definir afinal o que é casa. Para mim casa é amor, é onde eu me sinto segura e amada, é onde eu posso amar e ser amada. E este amor tem várias frentes, não é? É desde a origem primordial, que pode ser a nossa família, onde nascemos, e pode, desde logo, haver falta aí… Como os nosso afectos na escola, com os amigos, nas relações interpessoais, de trabalho, na construção do novo amor ou de uma nova família, seja como ela for. Então, para mim, o amor e a falta dele, falar sobre isso, é muito importante. O entendimento, o diálogo, não é? Entre o que é diverso. E também outra grande urgência criativa para mim é a cura do feminino, que implica uma cura do masculino também… e a falta de diálogo que às vezes há nesse sentido, e a violência… o que é identificado como amor e, de facto, não é amor. A violência subtil, a do isolamento, a da falta de empatia, da castração, do que é ser… do sistema. Por isso é tão importante essa definição acerca do que é o amor afinal. E que é múltiplo. Para nos podermos libertar, nem que seja internamente. E sermos quem somos, quem viemos para ser. Urge-me criar, porque não tenho respostas… 

RDB: O que significa/representa “casa” para ti? E como é que concilias isso com o teu corpo e com a tua voz?
Chandi: Eu sinto que estou exactamente no processo de tentativa de descoberta do que é sentir-me em casa no meu próprio corpo e na minha própria voz. Tenho laivos. Eu sinto que é interessante, porque sinto que o próximo disco, já está aqui a marinar, vai muito ao encontro deste processo de voltar a ser mamífero. O voltar a sentir-me selvagem, a integrar. Essa nossa valência de sermos mamíferos, de termos o nosso instinto, de prestarmos atenção ao nosso instinto, à nossa escuta, à nossa visão… Porque temos de desenvolver esses dons, não é? Então voltar a ser mamífero no sentido de ficar curiosa com a minha respiração, sentir os pés no chão, ou sentir que eles não estão no chão. Voltar a sentir o meu corpo. A viver o meu corpo inteiro. E o corpo inteiro é este corpo físico e é o corpo emocional e é o corpo espiritual. Então, casa para mim são aqueles micro-momentos que eu consigo, ah! Apoderar-me, apropriar-me do meu próprio corpo.

RDB: Quem é a Chandi e de que forma é que as tuas raízes te influenciam e cativam?
Chandi: A mim ficou-me o cativam, pela dualidade que integra. Quem é a Chandi? A Chandi é um ser que está nesse processo de perceber quem é ela, seja através das suas raízes, que honro; mas também me zango. Ou seja, há esta gratidão e esta zanga ao mesmo tempo… por haver espaços tão vazios ou que eu, pelo menos, os sinto ainda tão vazios de compreensão. Então, eu diria que a Chandi é caleidoscópica, e dual e paradoxal, mas também, e ao mesmo tempo, consistente no que ela se propõe e resiliente. E é mulher e menina. Neste momento, procura dar-se colo a si mesma. Em relação às raízes, ora me inspiram ora me cativam. Há uma dualidade… o lugar de onde eu vim, que é ainda desconhecido. Não posso ficar muito focada na raíz, dificulta o seguimento do meu caminho enquanto ser única, entendes? Acho que este “Portal” é essa transição entre o que foi, o que é e o que será. 

RDB: O que seria um dia extraordinário para ti?
Chandi: Um dia extraordinário para mim seria acordar algures na natureza. Os passarinhos a cantar. E há um som que me faz sempre voltar a casa, que é o sino da igreja matriz da aldeia da minha avó. Olha, despertar na casa dos meus avós, ir colher fruta do quintal… e ter a casa recheada de gente que eu gosto. Primavera. Fazer um grande pequeno almoço e ir ensaiar, ir construir algo em comunidade, em rede, com vários cruzamentos disciplinares, com propósito. Saber que eu tinha essa rotina. Ao entardecer, já podíamos ir para o rio, tomar um banho e fazer o jantar com comida boa. Eu acho que um dia extraordinário é podermos fazer o que mais amamos, com quem mais amamos, conectados à natureza. 

RDB: O que fica por dizer?
Chandi: Sobre o disco… dizer que as obras se vão transformando, e que este “Portal” já me abriu outros ‘portais’. Espero que este disco seja chão para os próximos. Foram muitos processos de transformação e que me fizeram aprender muito. E é soltar a expectativa de quem vai ouvir e do que vai achar porque, realmente, eu tive de o fazer para mim. Por sua vez, fica por explorar mais o cruzamento disciplinar como possibilidade de lugar de autopertença, não fosse a arte o lugar onde podemos ser e nos devolver a nós próprios.



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