«Pelo Adam» e o cuidado como campo de batalha
No segundo filme de Laura Wandel, um hospital pediátrico torna-se o palco de uma luta silenciosa entre o amor de uma mãe e a sobrevivência de um filho.
«Pelo Adam» («L’Intérêt d’Adam»), o segundo filme da realizadora belga Laura Wandel, chega esta quinta-feira, 9 de julho, às salas portuguesas, com distribuição da Alambique e casa marcada no Cinema Ideal, em Lisboa. Filme de abertura da Semana da Crítica de Cannes em 2025, junta Léa Drucker e Anamaria Vartolomei num drama hospitalar de apenas 78 minutos. Depois de «Recreio», que transformava o pátio de uma escola num campo de batalha visto à altura de uma criança, Wandel volta a filmar uma instituição por dentro — e a fazer dela um mundo inteiro.
O ponto de partida: uma enfermaria pediátrica como mundo inteiro
A premissa cabe numa frase e, no entanto, contém um dilema moral de dimensões consideráveis: Lucy (Léa Drucker), enfermeira-chefe num serviço de pediatria, cruza-se com Rebecca (Anamaria Vartolomei), uma jovem mãe cujo filho de quatro anos, Adam, foi hospitalizado por subnutrição. Perante o sofrimento dos dois, Lucy decide fazer tudo o que está ao seu alcance para os ajudar — mesmo que isso implique desafiar os seus superiores e as regras da própria instituição que serve.
Wandel percebeu cedo aquilo que a sua protagonista demora todo o filme a aceitar: não há aqui um paciente, há dois. O corpo frágil de Adam é o sintoma visível; a relação entre mãe e filho, o nó que nenhum protocolo hospitalar consegue desatar. É neste desnível — entre o que a medicina consegue tratar e o que apenas o cuidado humano pode alcançar — que «Pelo Adam» constrói a sua tensão, sem nunca precisar de um vilão. O cinema independente europeu tem revisitado com frequência o drama institucional, mas raramente com esta economia: tudo se joga em corredores, quartos e refeições vigiadas.
A linguagem do filme: a câmara que nunca larga quem cuida

Quem viu «Recreio» reconhece imediatamente o método. Em 2021, Wandel colava a câmara à altura dos olhos de uma criança de sete anos e recusava-se a mostrar o que ela não via; o pátio da escola tornava-se um território opressivo precisamente porque o espectador partilhava a sua escala. Em «Pelo Adam», o dispositivo repete-se com outro corpo: é a Lucy que a câmara persegue, em planos cerrados e contínuos, pelos corredores do hospital, e é através do seu olhar — parcial, cansado, comprometido — que tudo nos chega.
O resultado é um filme de uma fisicalidade rara. A mise-en-scène de Wandel não embeleza nem dramatiza: observa. Os gestos do cuidado — segurar, alimentar, medir, conter — são filmados com a atenção que outros cineastas reservam a cenas de ação. E a duração enxuta, 78 minutos sem gordura, funciona como princípio ético: nada de subtramas, nada de respiros decorativos. O tempo do filme é o tempo de um turno que não acaba.
As personagens e o que carregam

Léa Drucker, que o público português conhece de «Custódia Partilhada» e «O Verão Passado», compõe Lucy sem um único gesto a mais: uma mulher treinada para gerir crises que descobre os limites da sua própria capacidade de ajudar. É um trabalho de contenção absoluta, em que a empatia se lê nos ombros, no passo apressado, na voz que baixa de tom quando fala com Adam.
Do outro lado, Anamaria Vartolomei — revelada em «O Acontecimento», de Audrey Diwan — dá a Rebecca uma opacidade essencial. O filme recusa-se a julgá-la e recusa-se, com igual firmeza, a absolvê-la: a sua maternidade é ao mesmo tempo amor evidente e perigo objetivo, e é essa simultaneidade que desarma o espectador. Entre as duas mulheres instala-se uma relação que não é de antagonismo nem de aliança, mas de negociação permanente — cada cedência de uma é lida pela outra como ameaça ou como promessa. Adam, no meio, é filmado com o pudor que a idade exige: nunca objeto de chantagem emocional, sempre criança concreta.
O que o filme diz (e o que cala)

Por baixo do drama íntimo, «Pelo Adam» é um filme sobre instituições — sobre o que elas conseguem e não conseguem fazer pelas pessoas que lhes são confiadas. Wandel filma o hospital como filmou a escola: um sistema cheio de gente de boa vontade, esmagado entre protocolos, hierarquias e recursos finitos. Quando Lucy desafia os superiores, o filme não lhe oferece a recompensa do heroísmo; oferece-lhe consequências. É aí que a crítica social se torna adulta: o problema não são os indivíduos, é a máquina que os obriga a escolher entre a regra e o cuidado.
E há o que o filme cala, com uma disciplina admirável. Não sabemos quase nada do passado de Rebecca, das causas, dos diagnósticos que outros filmes exibiriam em cena de tribunal. Wandel corta o contexto como quem corta gordura, e esse silêncio é a sua declaração mais política: perante o sofrimento de uma criança, a genealogia da culpa importa menos do que a urgência do gesto. Num panorama de cinema de autor cada vez mais explicativo, esta confiança no espectador é quase um manifesto.
Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal

«Pelo Adam» não é um filme de conforto — é um filme de precisão. Quem procura o grande arco emocional com catarse garantida ficará desarmado pela secura do dispositivo; quem admira o cinema dos irmãos Dardenne, de Cristian Mungiu ou o «Recreio» da própria Wandel encontra aqui uma obra que joga nessa liga, com uma dupla de atrizes em estado de graça. É também uma porta de entrada exemplar para as estreias de cinema independente em Portugal neste verão: curto, intenso, impossível de sacudir à saída da sala.
O filme está em exibição a partir desta quinta-feira, 9 de julho, no Cinema Ideal, ao Chiado, em Lisboa — a sala da Alambique que se tem afirmado como casa natural do circuito de autor — com sessões regulares ao longo da semana. Ver um filme como este numa sala assim, sem intervalo nem distração, é metade da experiência.
Cinco anos depois de «Recreio», Laura Wandel confirma que o seu primeiro filme não era um golpe de sorte, mas um programa estético: filmar as instituições à escala dos corpos que as habitam. «Pelo Adam» é mais despido, mais adulto e porventura mais duro — um drama que não pede lágrimas, pede atenção. Na semana em que as salas portuguesas se enchem de remakes e franchises, esta é a estreia que justifica o gesto de ir ao cinema: 78 minutos que tratam o espectador como ser pensante e o cuidado — esse trabalho invisível, feminino, mal pago — como a matéria mais cinematográfica que há.
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