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Fantasmas de Julho: a fábula que o MUBI guardou para este verão

Julian Radlmaier transforma uma pequena cidade da antiga RDA num conto de fantasmas, camelos e desejos por cumprir — em estreia exclusiva no MUBI.

Chama-se Fantasmas de Julho (Phantoms of July, no título internacional) e é a nova longa-metragem do alemão Julian Radlmaier, um dos nomes mais singulares do cinema de autor europeu da última década. Depois da estreia mundial na competição principal de Locarno, o filme chega agora ao MUBI em estreia exclusiva de streaming, disponível em Portugal desde 3 de julho. É uma fábula agridoce sobre duas mulheres perdidas numa pequena cidade da antiga RDA — e a desculpa perfeita para redescobrir porque é que o streaming alternativo continua a ser o melhor amigo de quem ama cinema.

O que é Fantasmas de Julho: a premissa

Em Sangerhausen, uma cidade de província na Alemanha de Leste, Ursula (Clara Schwinning) é uma empregada de mesa de coração partido que sente a vida a escapar-lhe por entre os dedos. Neda (Maral Keshavarz) é uma youtuber iraniana solitária, a recuperar de um braço partido e de uma solidão que nenhum vídeo consegue preencher. Numa noite de verão, o acaso — e uma série de encontros fortuitos e identidades trocadas — empurra as duas para uma inesperada caça aos fantasmas nas montanhas.

Mas esta é apenas a superfície. Fantasmas de Julho entrelaça quatro histórias que atravessam séculos na mesma paisagem, das pedras turquesa que cintilam no subsolo da região ao sonho de uma comunidade improvável. É comédia, é drama, é conto romântico e é aventura fantasmagórica — tudo em uns concentrados 90 minutos, falados em alemão e farsi.

A linguagem e o estilo

Radlmaier filma como quem escreve uma fábula: com ironia, anacronismos deliberados e uma ternura desarmante pelas suas personagens. Em Fantasmas de Julho, uma manada de camelos pode atravessar a planície alemã, caminhantes nus podem cruzar-se com fantasmas do século XVIII, e nada disto parece gratuito — tudo serve o mesmo gesto poético e melancólico.

A fotografia de Faraz Fesharaki, rodada em Super 16mm, dá ao filme uma textura granulada e luminosa que nenhum algoritmo de plataforma mainstream reproduziria. É exatamente o tipo de escolha formal que distingue este cinema: o grão da película, o ritmo contemplativo mas nunca aborrecido, o humor seco que aparece quando menos se espera. A crítica internacional percebeu-o bem — Joseph Jenner, da International Cinephile Society, atribuiu-lhe quatro estrelas em cinco e chamou a Radlmaier o «herdeiro aparente de Peter Greenaway».

O que o filme tem a dizer

Por baixo da comédia, Fantasmas de Julho é um filme sobre a Sehnsucht — essa palavra alemã intraduzível que designa um anseio profundo por outra vida, outro lugar, outra possibilidade. O título original, Sehnsucht in Sangerhausen, não podia ser mais claro. Radlmaier filma a Alemanha de Leste pós-reunificação como um território assombrado, onde os fantasmas não são apenas figuras espectrais, mas também as utopias falhadas, as comunidades desfeitas e os futuros que nunca chegaram a acontecer.

Como nos seus filmes anteriores, o realizador cruza classe social, ideologia e quotidiano com uma leveza invulgar. A amizade entre uma empregada de mesa alemã e uma imigrante iraniana torna-se o coração de uma reflexão sobre pertença e desenraizamento na Europa de hoje — sem nunca cair no panfleto, sempre pelo desvio do humor e da fantasia.

Quem o fez e de onde vem

Julian Radlmaier construiu uma das filmografias mais coerentes e originais do novo cinema alemão. Depois de Self-Criticism of a Bourgeois Dog (2017) e da comédia vampírica marxista Bloodsuckers (2021), esta quarta longa-metragem confirma um autor que ninguém mais consegue imitar. Produzido por Kirill Krasovski para a Blue Monticola Film, Fantasmas de Julho teve estreia mundial a 7 de agosto de 2025 na competição principal do 78.º Festival de Locarno, onde disputou o Leopardo de Ouro.

Seguiu-se um percurso invejável: Sarajevo (secção Kinoscope), Busan (World Cinema), Valladolid (Meeting Point), a Mostra de São Paulo e o Festival de Adelaide. O MUBI garantiu os direitos de streaming e escolheu-o como estreia exclusiva de julho — precisamente o mês do título. Coincidência? Duvidamos.

Vale as duas horas? (Neste caso, hora e meia)

Vale — e com margem. Fantasmas de Julho pede alguma paciência ao espectador habituado ao ritmo das séries de consumo rápido: é um filme de desvios, de tempos mortos que afinal estão vivos, de piadas que só revelam o alcance dez minutos depois. Mas quem aceitar o convite encontra uma das experiências mais encantatórias do cinema europeu recente. Como escreveu a International Cinephile Society, exige «atenção e paciência», mas «a recompensa vale absolutamente cada minuto».

O espectador ideal? Quem gosta de Wes Anderson mas desconfia do excesso de açúcar; quem guarda memória de Aki Kaurismäki e do primeiro Miguel Gomes. Está disponível no MUBI em Portugal, com o trailer acima para confirmar a sintonia antes de carregar no play.

Conclusão

Fantasmas de Julho é a razão pela qual plataformas como o MUBI existem: um filme premiado em festivais, formalmente arrojado e profundamente humano, que nunca chegaria ao topo de nenhum top 10 algorítmico — e que, ainda assim, é capaz de ficar na memória muito depois do genérico final. Numa semana em que o streaming mainstream aposta em sequelas e fórmulas, o cinema de autor responde com camelos, fantasmas românticos e duas mulheres à procura de outra vida em Sangerhausen. O streaming alternativo continua a ser onde o cinema respira. Este julho, os fantasmas são bem-vindos.



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