NOS Alive’26 | Dia 3 (11.07.2026)
Texto por Miguel Barba e fotografia por Graziela Costa.
Os 10 minutos de atraso com que chegamos ao recinto pagam-se caro. Foram 10 minutos a menos que não vimos de Rita Cortezão, que está a terminar «dia após outro» e a começar «Lisbolha» nessa altura. Em palco apenas ela e o seu teclado que tanto nos dá. O Festival Termómetro limitou-se a constatar o óbvio; Rita Cortezão tem uma belíssima voz, e um álbum, “tudo, um pouco”, cheio de canções bonitas. Temos tempo ainda para escutar, com um sorriso tonto, «o tempo que fica» e «só para mim». Soube a pouco, muito, muito pouco.
Pouco tempo depois tivemos a oportunidade conversar um pouco com Rita Cortezão, que estará disponível brevemente aqui, na Rua de Baixo.
Quem não conhece ou nunca viu Don West ficará sempre surpreendido com a figura, que pega no funk e na soul dos 70 e os recicla com subtis elementos actuais. Tudo soa verdadeiramente natural e orgânico, com uma numerosa e generosa banda a acompanhá-lo em palco.
Lorde começa com uma ocupação de palco peculiar, para o lado direito. Há um bebedouro de água no extremo oposto. Uma noção diferente de espectáculo, com o registo dos batimentos cardíacos a ser medido em tempo real. Se o aspecto cénico cativa, musicalmente estamos perante uma pop daquelas que procura encher as medidas, mas parece que estamos num videoclip em tempo real, em que o ecrã gigante é mais importante que o seu espaço em palco e isso é estranho.
Há muita gente no Palco Heineken para receber os Pixies que, tal como se esperava será pequeno para Black e companhia. David Lynch, volta a ser homenageado, depois de Jehnny Beth o ter feito no dia anterior, e também com «In Heaven». Segue-se «Here Comes Your Man»; sem rodeios, vamos directos ao assunto.
As guitarras nos Pixies sempre foram rebuçados, em especial como a eléctrica e a acústica se combinam. «Hey», «Mr. Grieves», «Bone Machine», «Cactus», «Monkey Gone to Heaven», «Debaser», «Wave of Mutilation» e «Caribou», sucedem-se, cantadas em coro, por fãs de longa data, e por um Frank Black em boa forma
«Where Is My Mind» surgiu exactamente no momento em que todos esperávamos que surgisse e foi recebida em êxtase, num concerto que naõ terá grangeado muitos novos fãs ao Pixies, mas de certeza absoluta que também não alienou.
Florence Welsh continua senhora de uma voz portentosa. Isso fica claro desde o primeiro momento, quando «Everybody Scream» se faz ouvir. É um mar de gente que ali está para a ver, que venera a sua presença, e que vai entoando as letras, canção, após canção; «Which Witch», «Spectrum», «Rabbit Heart (Raise It Up)» ou «You Got the Love». O termo “antémico” não existe na língua portuguesa mas a seu congénere inglesa, anthemic, encaixa aqui na perfeição. Todas as canções o são.
A leveza com que se move em palco, como gesticula e como entoa cada palavra. Nada é deixado ao acaso. Aqui a voz de Welsh é que comanda e nós somos uns privilegiados por podermos presenciar esta sucessão de momentos que atingem a ebulição absoluta, quando, já perto do final, «Dog Days Are Over» se anúncia.
Longo foi o caminho percorrido por Noiserv, desde aquele concerto na Aula Magna, em Lisboa. Foram 7305 dias desde o dia 19 de março de 2005, data do primeiro concerto de Noiserv, e 19 de março de 2025, quando assinalou 20 anos de carreira. Um marco que ali é assinalado com duas canções que integram o álbum com o mesmo número no seu título. Primeiro com «A long journey in alittle train to poland» e depois por «Resumidamente». Noiserv tem um percurso ímpar na nossa música. Sempre a pulso e a levar mais além a definição de one man band, construindo sempre de forma exímia as suas canções, camada após camada. Ao terceiro concerto no NOS Alive, tem finalmente um slot horário apelativo, mas que os nomes de Florence + The Machine e dos Buraka Som Sistema, acabam por roubar público, porém quem se deslocou até ao Palco Heineken teve uma hora da sua vida muito empregue.
É verdade que em «Um dia como tantos outros», não houve A garota não a acompanhar, mas esteve presente em espírito, na canção que versa sobre como perdemos a capacidade de sentir empatia. Depois de «I Was Trying to Sleep When Everyone Woke Up», a despedida fez-se ao som de «One hundred is much more than ten times ten» e com um agradecimento por mostrarmos que música mais contemplativa tem espaço num horário como este.
Os Buraka Som Sistema tiveram um regresso triunfante ao NOS Alive, perante um pouco mais de 55000 pessoas. Quando «Hangover (BaBaBa)» abre fogo, o corpo lembra de imediato porque é que este colectivo de Lisboa redefiniu a forma como se ouve kuduro electrónico. De «Stoopid» a «(We Stay) Up All Night», não há tempo para aquecer, só para entrar de cabeça no turbilhão rítmico.
«Parede» aproxima o alinhamento da rua, antes de Petty, a primeira vocalista da banda, se juntar em «Yah!», «Wawaba» e «D…D…D…D..Jay», como se uma festa de bairro tivesse sido ampliada até ao tamanho de um festival inteiro. Com «Komba», «Eskeleto» e «Vuvuzela (Carnaval)», regressam memórias de grandes palcos e da descoberta global daquele som que ligava Lisboa a Luanda.
«Sound of Kuduro» e «Aqui para vocês», com Deize Tigrona (que tinha actuado no WTF um pouco antes), reforçam a ponte para Brasil e Angola, enquanto «Puro Mambo» é uma estreia ao vivo e «Tira o Pé» volta a colar o chão ao corpo. Em «Voodoo Love», a homenagem a Sara Tavares enche o recinto, antes de Ricardo Araújo Pereira declamar «Kalemba (Wegue Wegue)» em vídeo e de a versão “normal” fazer explodir o hino mais amado da noite. «Lights Off» e «Zouk Flute» fecham o círculo com uma última dança, deixando a sensação de que este reencontro foi menos nostalgia e mais prova de vida.
Ofegantes.
O NOS Alive já tem datas para regressar em 2027: 8, 9 e 10 de Julho.
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Leiam aqui as reportagens do primeiro e segundo dia do festival.
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