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“Para quem é o cinema português?”

O realizador Vicente Alves do Ó, a actriz Maria Leite e o argumentista Tiago R. Santos foram os convidados de João Lameira no 2º dia de debates sobre cinema do mês RDB na Baixa-Chiado PT Bluestation

“Para quem é o cinema português” foi a pergunta que João Lameira fez, na Baixa-Chiado PT Bluestation, a três nomes muito importantes do panorama actual do cinema português: Vicente Alves do Ó, realizador do filme “Florbela”, sobre a vida de Florbela Espanca, a jovem actriz Maria Leite, protagonista de vários filmes recentes como “Guerra Civil”, de Pedro Caldas, melhor filme português do IndieLisboa 2010; e Tiago R. Santos, presidente da APAD e argumentista de filmes como “Call Girl” e “A Bela e o Paparazzo”.

O debate teve como objectivo perceber se será possível produzir um cinema que comunique as ideias dos seus autores a um grande número de pessoas em Portugal. Começou-se por mostrar e comentar, para a audiência presente, vários excertos que exemplificaram alguns trabalhos dos três convidados. Os três falaram dos processos e das ferramentas de construção dos filmes que realizaram, escreveram ou interpretaram.

Vicente Alves do Ó partilhou o objetivo de mostrar, neste seu último filme, uma Florbela Espanca humana, diferente das ideias melancólicas que normalmente identificamos com esta personagem. Porque, segundo Alves do Ó, os filmes devem ter uma dimensão humana rica, que lhes permita, mais do que serem entendidos, serem amados. “Um filme-obra-prima tem de ser tão amado por um intelectual impedernido como por uma senhora de Alfama”, comentou. “A ditadura do gosto dos últimos anos esqueceu-se de produzir filmes para crianças e jovens, impondo apenas os projectos que se impõem com ideias de mal de viver e que têm temas como o autismo social ou a semiótica do ser. O nosso cinema sonha muito pouco, os portugueses não gostam do trabalho da imaginação, e os filmes portugueses parece que têm vergonha de mostrar pessoas a sentirem coisas. Os grandes filmes emocionam-nos. Um filme só é bom se nos apetecer revê-lo uma e outra vez, mostrá-lo aos nossos filhos e mantê-lo assim na nossa memória colectiva”, acrescentou.

Maria Leite falou da sua experiência, curta mas já muito variada, do ponto de vista da interpretação das histórias e ideias de um filme. Contou até como brincam com ela por não a reconhecerem da televisão e assim não a considerarem actriz (apesar de várias presenças e prémios em festivais de cinema). Concordou com a ideia de que “o cinema pode morrer por excesso de forma” e que “mesmo um filme bonito, pode apenas ser um lixo bonito”. Acrescentou que “mais importante do que o argumento, é a ideia que o sustenta, a criatividade que revela, as referências que todos temos, para que não estejamos sempre a fazer o mesmo filme, uma e outra vez”. Sobre a sua própria entrega emocional, Maria diz que quando se acredita num projecto, até nas cenas mais simples e mais funcionais se entrega a 100%.

Tiago R. Santos defendeu que “um bom argumento é muito difícil e moroso de escrever. Implica muitas horas e muitas versões para que se descubra a melhor forma de contar uma boa ideia. Escolhendo a forma que se escolher, todos os argumentos, mesmo as comédias românticas, revelam os valores de quem os escreve. E no meio de muito humor estarão sempre críticas sociais e visões pessoais sobre o mundo que nos rodeia”. Alertou ainda para a falta de interesse que o cinema português demonstra, em geral, para com o público português. “Temos de fazer com que as pessoas se identifiquem com as personagens que vêem na tela, com aquilo que elas sentem e dizem. O objectivo é fazer com que as pessoas saiam do filme e que vão a pensar sobre o que viram até casa. Não é uma questão de forma, mas de talento de quem escreve, realiza e interpreta os filmes. Uma boa metáfora é a de tentar contar uma história num bar. Se ficarmos a falar sozinhos é sinal que a história não tinha nenhum interesse”, exemplifica. Depois, Tiago R. Santos, falou na perspectiva comercial. Todos os filmes têm de ser comercializados, mas “há preconceitos como a visão de um crítico que vai ver um filme, que se ri e comove, mas que ao chegar ao jornal dá a esse filme uma bola negra só porque é comercial. A política do gosto em que poucos escolhem os filmes que se devem ou não ver pelo público, em geral, é perniciosa”, concluiu.



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