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O belo do cinema português

Aviso: este texto contém diversos desmancha-prazeres para quem não viu o filme "A Bela e o Paparazzo".

O cinema português é tão frágil que criou vários mecanismos de defesa à crítica, seja ela a dos jornais ou a da pessoa que passa na rua. Se por um lado são os críticos de cinema pseudo-intelectuais que não “gostam” de filmes “comerciais”, do outro são os cidadãos energúmenos que não “percebem” os filmes “artísticos”. Quase dá vontade de satisfazer a vontade ao cinema português, escrever que está tudo bem, que nunca esteve melhor, etc. e tal. Mas é complicado, se formos a ver (os filmes). E se calhar nunca esteve mesmo melhor, o cinema português está sempre nas lonas.

O cinema em Portugal divide-se pelo campo dos autorzinhos (há poucos autores em Portugal) e pelo campo do cinema norte-americano em terceira mão. Divide-se quer dizer, vendo os genéricos dos diferentes filmes, as pessoas são quase todas as mesmas em qualquer um, menos os realizadores, que entram a jogo de três em três anos com sorte.

De qualquer forma, o cinema comercial em Portugal é um logro. Nenhum filme se paga a si mesmo neste país, o mercado é demasiado pequeno, quase todos os filmes são subsidiados, mesmo os ditos comerciais. Por isso, quem protesta da subsidio-dependência do cinema dos autorzinhos, é igualmente dependente. Isto não é propriamente Hollywood, nem sequer Espanha, infelizmente. Num bom ano fazem-se dez filmes em Portugal. Dez filmes.

Ora agora, “A Bela e o Paparazzo” é a grande aposta comercial do início do ano, e provavelmente do resto do ano, com extensa publicidade e programas da RTP quase reservados à sua promoção.

Eu queria gostar do filme, queria mesmo, não precisa de ser uma obra-prima, a sério, bastava ser um filme modestamente aprazível, bem feitinho. Mas não é. Aquele guião não teria passado das mãos de um estagiário de um estúdio norte-americano (exagero talvez, mas não acredito que chegasse alguma vez a ser produzido), consigo ver aquela mesma história a ser interessante, consigo ver aquelas personagens a resultar. Mas só com um grande esforço de imaginação.

O que está lá, no filme, é uma salganhada de situações sem pés nem cabeça, diálogos risíveis, interpretações histriónicas, banda-sonora rasteira (não falo da canção do Jorge Palma, que até se come) e realização inacreditável (no sentido de como é que é possível que este gajo, com filmes bons, com anos de experiência, um dos fundadores do Cinema Novo, o Truffaut português, consiga fazer esta merda?). Já não tinha ido muito à bola com o “Call Girl”, que sofria de muito dos mesmos problemas, mas este “A Bela e o Paparazzo” vai bem mais longe; a quantidade de gargalhadas e risos não intencionais provocadas está ao nível da de um filme de ficção científica norte-americano série B dos anos 50. E não é aquele tipo de gargalhada desconfortável que um filme de esdrúxula beleza como o “Johnny Guitar” ou o “Les Demoiselles de Rochefort” provoca.

Não é pelo facto dos protagonistas dançarem a meio da noite descalços pelo Rossio, isso até podia ser giro, é aquela música, é a absoluta falta de química entre os actores principais, é aquele senhor a sorrir no carro (que editor no seu perfeito juízo deixaria passar uma coisa daquelas é o que eu me pergunto) a lembrar-se que devia era estar num anúncio mau dos anos 80 e não a sorrir para dois parvos no meio da estrada. Nem vou pelo armadilha do realismo, que foi coisa que eu nunca achei que o cinema devesse ter. Mas Tiago R. Santos, o argumentista, vai. Lá pelo meio a personagem interpretada por Soraia Chaves, actriz de novela (a personagem, não a Soraia Chaves), rebela-se contra o artificialismo e falta de verdade dos diálogos que tem de dizer, a falsidade das situações. Se não for um refinado pós-modernismo de termos a actriz principal a fazer uma crítica feroz ao filme através da sua personagem, é só um tiro no pé. Aquelas palavras são a crítica mais justa ao próprio filme. As novelas são alvos fáceis, filmes como este ainda mais, porque se levam mais a sério.

Li algumas entrevistas a António-Pedro Vasconcelos e a Tiago R. Santos em que estes citam os filmes de Billy Wilder como influência para esta comédia romântica. Até há uma cena que faz referência a uma d”O Apartamento”, do argumentista e realizador vienense. A personagem do Nuno Markl passa o esparguete com uma raquete de ténis, eu até nem levo mal, percebi a referência e senti-me mais inteligente por isso. Mas é um novo tiro no pé, não é? Foda-se, comparar “A Bela e o Paparazzo” com uma das comédias mais bem escritas de sempre só pode colocar o filme português a uma luz ainda pior. Um gajo pode pensar que a personagem do Nuno Markl ainda é o que vai salvando o filme, mas não salva nada, o resto é que é tão mau, que aquilo, que é fraquito, parece bom. Mas quando o Markl faz a referência a Wilder, aí é que a gente percebe que aquilo não é lá grande coisa.

Isto tudo causa pena, porque o filme até tem uma ou outra coisa engraçada, não desgostei da personagem do Ivo Canelas (e das quatro vezes que o Marco D’Almeida tem de ir ao hospital) e a personagem da Maria João Luís chega a ser muito boa, e não é só da actriz ser muito boa. Há ali pormenores fantásticos, como o apagar de um cigarro num pastel-de-nata, cujo recheio foi comido à colher. Os diálogos dela são bons, e são escritos pela mesma pessoa que escreveu os outros, péssimos. Pode pensar-se que é dos actores, mas o Marco Almeida não é um mau actor, o Virgílio Castelo faz bem o seu papel (que é uma caricatura grotesca e sem piada do José Eduardo Moniz), a Soraia Chaves pode não ser grande coisa, mas tem alguma presença à maneira das estrelas norte-americanas do passado (alguma, atente-se). Para mim, são todos pessimamente dirigidos, o que é estranho mais uma vez.

Fica a dúvida. Será que este filme foi feito à pressa, que o argumentista não teve tempo de rever pelo menos mais umas duas vezes o seu guião (tenho a certeza que ficaria incomensuravelmente melhor), que os actores não tiveram tempo para lê-lo, que o autor da música ainda estava a fazer um esboço (bastante mau, diga-se) e que o realizador não teve tempo de planear o filme devidamente? O curto tempo de rodagem não explica tudo. Há grandes filmes feitos no mesmo tempo.

Não explica as pontas soltas no argumento, as intrigas que nunca chegam a ser concluídas, o execrável terceiro acto do argumento, que vai contra tudo que é ensinado pelos gurus do guionismo (de que não sou propriamente um fã acérrimo) sem propósito algum que se veja. Porque é que a personagem da Soraia Chaves aceita a personagem do Marco D’Almeida de volta? Porque viu umas fotografias dela por ele tiradas numa tarde em que passaram juntos um pouco por toda a Lisboa (afinal aquela montagem preguiçosa não serviu só para enfiar a canção do Jorge Palma lá pelo meio). E assim se resolve o filme. Ela olha para as fotografias e perdoa-lhe as mentiras, o facto de ele ajudar a destruir-lhe a vida? A sério? E ele nem lhe pergunta o que o José Eduard… o Virgílio Castelo (ex-amante dela) estava a fazer em casa dela da última vez que se viram? Hmm… Lá foi a verdade por que a Mariana (a actriz de novela que a Soraia Chaves interpreta) gritava como o caralho. Será mesmo pós-modernismo ou será que “A Bela e o Paparazzo” é uma compilação de como não se deve fazer cinema em Portugal (ou em qualquer parte do mundo). Fosse essa a intenção dos autores já sentia algum alívio. Porque sendo esse o objectivo, foi largamente atingido.

Comparei este filme às comédias do Billy Wilder. Podia comparar à pior comédia com a Meg Ryan (às boas não, que isso seria demasiado doloroso) que ficava a perder ainda. Podia comparar com a comédia mais fraquita saída de um estúdio de Hollywood e continuava a perder.

É triste tudo isto. Vasconcelos está entre os cinco melhores realizadores portugueses ou pelo menos entre os dez. Tiago R. Santos será dos melhores argumentistas que temos.

A única coisa que pode salvar o cinema português é o vídeo. Só quando os meios de produção forem mais baratos é que poderemos esperar alguma coisa de novo no panorama nacional. Bruno de Almeida não sendo um grande artista é mais interessante que a maioria do resto dos autorzinhos portugueses, de qualquer dos campos. Haja outros como ele.

(Este texto não é um ataque pessoal nem a Tiago R. Santos nem a António-Pedro Vasconcelos, pessoas por quem nutro simpatia e de quem esperava bem mais, daí esta diatribe.)



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