“Dois dias, Uma Noite” de Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Dois dias, Uma Noite”

A Provação de Sandra

O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.

É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.

O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.

Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.

Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.

Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.

A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?

Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.

Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.

É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.

A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.

Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.

 

Estreia a 20 de Novembro



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