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“Terra Estreita”, de Mafalda Santos

A biologia como prisão

Terra Estreita de Mafalda Santos destaca-se por transformar o instinto mais básico da humanidade — o contacto físico — no seu maior inimigo. A autora utiliza esta premissa para isolar as personagens dentro da sua própria pele. É uma exploração brilhante sobre a solidão imposta pela sobrevivência.

Tecendo uma crítica ao tecido social, a autora usa a narrativa como um ensaio sobre o medo, onde analisa como as estruturas de poder que se aproveitam do pânico para implementar sistemas de vigilância, controlo e subjugação. O foco não é apenas o fenómeno externo, mas a rapidez com que a confiança entre seres humanos se desintegra, transformando a sociedade num jogo de sobrevivência onde o “outro” é sempre um perigo potencial.

O núcleo central do livro assenta numa “ironia trágica”, já que aquilo que nos torna humanos — a necessidade de proximidade, o consolo do toque e a intimidade — torna-se o agente da nossa destruição.

Ao transformar o afeto em algo letal, a autora subverte a biologia humana. O corpo deixa de ser um lugar de refúgio para se tornar uma fronteira perigosa, o que funciona como uma metáfora da alienação social e da perda de empatia que observamos no mundo digital e pós-pandémico.

Existe uma clara exploração da vulnerabilidade ao longo da narrativa, desde as novas regras da sociedade, à espionagem dos Aranhas, à perseguição e controlo do Governo são a pura representação do “lobo mau”, o Big Brother que oprime, restringe e incentiva a traição, a denúncia, explorando a fragilidade da moralidade sob pressão, sendo o “outro” visto como uma ameaça ou um degrau para a própria sobrevivência.

Mafalda Santos não poupa o leitor; ela utiliza as emoções como ferramentas para garantir que a mensagem não seja apenas lida, mas sentida fisicamente. A linguagem oscila entre o desespero da perda e a adrenalina da resistência, mantendo uma tensão constante que espelha o estado de alerta das personagens.

Com uma escrita crua e emocional, “Terra Estreita”, de Mafalda Santos (Penguin, 2026),  foca-se na tensão psicológica. A jornada das personagens serve como metáfora para a busca de sentido num mundo que perdeu a sua cor e o seu calor. É um estudo sobre a resiliência: o que acontece à alma humana quando o amor deixa de poder ser demonstrado através de gestos?



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