Ensaio sobre a cegueira – edição ilustrada” de José Saramago e Pablo Auladell
Fragilidade humana em traços e sombras
A leitura de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, é sempre uma experiência perturbadora, e a recente edição ilustrada por Pablo Auladell, comemorativa dos 30 anos da obra seminal do Nobel da Literatura, lançada pela Porto Editora, potencia esse impacto de forma singular.
Assim, e ao pegar neste clássico do século XX, os traços em grafite reconfiguram a alegoria social em prosa densa e hipnótica, encontrando na arte de Auladell uma tradução visual tão poderosa quanto inquietante.

E se o livro original de Saramago confronta o leitor com uma epidemia de cegueira súbita e inexplicável que se alastra numa cidade sem nome, numa narrativa (quase) cinematográfica, os desenhos desta edição sublinham a sensação de caos, medo e solidariedade, enquanto interrogam as fragilidades éticas de uma sociedade que perde a visão, e, metaforicamente, a humanidade.
A responsabilidade e desafio de Auladell não se limita a uma “simples” ilustração de momentos chave da narrativa, levando o artista gráfico espanhol a amplificar a atmosfera do romance, com a ajuda de traços ásperos, composições expressivas e o uso dramático da dicotomia claro vs. escuro/luz vs. trevas, criando um contraponto visual à escrita fluida e contínua de Saramago. O resultado é um diálogo entre palavra e imagem que enriquece a experiência de leitura, sem a diluir.

Numa análise mais atenta, verificamos que algumas ilustrações capturam memoravelmente os momentos de rutura – a cegueira branca que se espalha, as filas intermináveis de pessoas com vendas nos olhos, a escalada do desespero… – enquanto outras sugerem, através de um traço simples que evita excessos expressivos, a solidão e a fragilidade dos personagens. Isso porque Auladell trabalha com uma notável sobriedade ao concentrar-se no impacto emocional, criando um ritmo visual que acompanha a cadência da prosa saramaguiana.
Ao folhear esta delicada edição embatemos de frente com uma tensão crescente, pois a cegueira aqui não é apenas uma metáfora social, mas um acontecimento visceral que as ilustrações tornam ainda mais imediatas. E, por exemplo, em páginas e passagens onde a palavra se densifica em longas frases contínuas, as imagens fornecem ao leitor o escape na figura de pausa ou pontos de respiração que reforçam o ritmo dramático.

Também parece importante alertar o leitor que terá nas mãos uma adaptação gráfica pouco convencional, sendo isso, acreditem, um elogio, quando vemos que a obra não se transforma em banda desenhada nem perde a sua complexidade literária, já que as imagens acompanham e enriquecem o texto, sem o substituir.
Contas feitas, esta edição assume-se, assim, como uma das mais interessantes formas de revisitar um clássico contemporâneo. Não se trata apenas de um objeto editorial atrativo, mas de uma proposta estética que reforça a potência crítica de Ensaio sobre a Cegueira: a lente eterna através da qual observamos as nossas próprias cegueiras – morais, sociais e individuais. Por outro lado, é uma oportunidade de redescobrir um texto que nos confronta com o melhor e o pior da condição humana, espelhado em palavras e imagens que se cruzam e intensificam mutuamente.
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