padura

“Morrer na Praia” de Leonardo Padura

Condenados pelo lugar da memória

As saudades de (re)ler um livro do cubano Leonardo Padura é algo que muitas vezes acontece quando tarda a surgir novidades do criador de Mario Conde. E mesmo que Padura teime, e ainda bem, por regressar incessantemente aos mesmos lugares sabemos que é aí que se escondem as grandes perguntas.

Em Morrer na Praia (Porto Editora, 2026), voltamos a mergulhar nas mesmas geografias e coordenadas onde Padura se sente literalmente em casa, e, ainda que se afaste da estrutura policial que tornou célebre a série protagonizada por Mario Conde, mantém intacta a sua maior qualidade: a capacidade de transformar uma história íntima numa reflexão sobre a memória, a culpa e a lenta erosão de um país condenado a viver longe da esperança.

Falamos de um romance que parte de uma simples equação, mas carregada de tensão. Rodolfo, já reformado e preso na rotina de fumar 10 cigarros por dia, prepara-se para receber em casa o irmão, Geni Eugenio Bermúdez, que cumpriu décadas de prisão pelo homicídio do pai de ambos. Gravemente doente e prestes a morrer, Geni vai regressar ao seio da família, obrigando todos a confrontarem-se com um passado que nunca deixou verdadeiramente de existir.

É nessa espera que Padura constrói uma avassaladora narrativa emersa nas várias dimensões de uma mesma tragédia e que deixa no ar várias perguntas: o que acontece às pessoas depois da violência?; como se vive durante décadas à sombra de um crime que destruiu uma família? e será possível encontrar alguma forma de reconciliação quando o tempo já parece ter esgotado todas as oportunidades?

À medida que a narrativa avança, percebe-se que o brutal homicídio (Geri desferiu oito marteladas na cabeça do pai depois de mais um dia mau…) é apenas o detonador de uma história muito mais ampla. As relações familiares, os silêncios acumulados, os ressentimentos nunca verbalizados e a impossibilidade de reparar certas escolhas torna-se o verdadeiro centro da obra, com Padura a escrever sobre personagens marcadas pelo peso da memória, incapazes de se libertarem de um acontecimento que continua a definir o presente, em especial Rodolfo e Nora, mulher de Geni, cunhada de Rodolfo e a paixão de vida dos irmãos, mas também Fermín, a vítima cujo hábito era beber álcool de péssima qualidade à beira de uma lendária mangueira.

Mas, como acontece na melhor literatura de Leonardo Padura, nenhuma história é apenas individual. Cuba, país onde se fuma para esquecer a fome, surge como uma presença constante, não apenas como cenário, mas como uma força que molda o destino das personagens.

Por isso, em Morrer na Praia, Padura vai além de contar a história de uma família, traçando o retrato de uma sociedade que envelheceu com as promessas da Revolução. Ao longo do romance, as personagens atravessam algumas das fases mais marcantes da história recente de Cuba: o entusiasmo dos primeiros anos do regime, a participação na guerra de Angola, o colapso da União Soviética e o devastador Período Especial, que mergulhou a ilha numa profunda crise económica e social. A escassez de alimentos, os cortes de eletricidade, a dificuldade no acesso a medicamentos, a degradação dos serviços públicos e a crescente dependência das remessas enviadas pelos familiares emigrados deixaram marcas profundas na sociedade cubana, e Padura incorpora essa realidade na narrativa com uma naturalidade impressionante.

Essa dimensão económica nunca surge como mero pano de fundo. É uma força que condiciona decisões, desgasta relações e redefine valores. A necessidade de sobreviver leva muitas personagens a abdicar de princípios, a aceitar pequenos compromissos morais ou simplesmente a resignar-se perante um futuro que tarda em cumprir as promessas de uma geração que acreditou na Revolução.

Também por isso, Padura mostra, mais uma vez, como a pobreza prolongada produz não apenas carências materiais, mas também um profundo desgaste emocional, alimentando a desilusão, o isolamento e a sensação de que o tempo ficou suspenso. O resultado é o retrato de um país que envelhece ao mesmo ritmo que as suas personagens.

É precisamente essa discrição que distingue Padura. Não há panfletos nem julgamentos simplistas. A crítica social nunca se impõe ao romance. Pelo contrário, nasce das pequenas coisas: das conversas à mesa, das casas que se degradam, das dificuldades em garantir o essencial, dos filhos que partem em busca de melhores oportunidades e dos projetos de vida constantemente adiados. Cuba transforma-se, assim, numa personagem invisível, mas omnipresente, cuja história se confunde com a história desta família.

Os leitores habituados às aventuras de Mario Conde reconhecerão muitos dos temas que fizeram de Padura uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea, seja isso a memória, o desencanto, a amizade, a fidelidade às origens e a reflexão sobre o fracasso das utopias continuam presentes. No entanto, Morrer na Praia representa um desvio interessante na sua obra. Sem a investigação policial a conduzir a narrativa, a atenção concentra-se quase exclusivamente na dimensão psicológica das personagens e na forma como estas enfrentam o peso das suas escolhas.

O ritmo é, tal qual o quotidiano cubano, pausado, por vezes contemplativo, mas essa lentidão funciona como um convite à introspeção. Padura concede tempo às personagens para respirarem, hesitarem e recordarem. É nesses momentos de aparente quietude que o romance ganha maior profundidade, e muito graças a uma escrita sóbria, elegante e desprovida de excessos, que recusa o dramatismo fácil, preferindo construir, com subtileza, uma atmosfera de melancolia que acompanha o leitor até às últimas páginas.

Enquanto as páginas avançam, vamos percebendo que Morrer na Praia não é um romance sobre um homicídio nem sobre o regresso de um homem condenado. É antes um exercício literário sobre o que permanece quando tudo o resto parece ter terminado. Sobre a família, sobre o tempo e sobre um país que continua a procurar respostas para as perguntas que a História deixou por resolver.

Leonardo Padura demonstra, uma vez mais, que a grande literatura não vive apenas da invenção de enredos memoráveis. Vive, sobretudo, da capacidade de olhar para as fragilidades humanas sem complacência, mas também sem perder a compaixão, lucidez, memória e humanidade.

E quando o livro termina, percebemos como o olhar do homem que nasceu em Havana há 70 anos continua a ser uma das formas mais esclarecedoras de compreender Cuba. Não através dos discursos oficiais ou das análises políticas, mas através da literatura, esse lugar onde a História deixa finalmente de ser abstrata para ganhar o rosto, as dúvidas e as fragilidades das pessoas.

 



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This