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Duas personagens

Tennnesse Williams à procura de Godot.

Duas personagens, o espectáculo de Carla Galvão e Sara Castro, trouxe-nos uma faceta quase irreconhecível do afamado dramaturgo americano, cujo reconhecimento mundial muito deve às adaptações cinematográficas que fizeram das suas obras, como o icónico Eléctrico chamado Desejo de Elias Kazan.  

Na conversa tida na esplanada da Escola António da Costa entre as actrizes e Francisco Luís Parreira, dramaturgo e professor na ESTC, e vamos servir-nos amiúde dela, Sara Castro (Clare) disse que tanto ela como a Carla Galvão (Felice), ficaram surpreendidas por neste texto não encontrarem aquelas características, uma escrita realista, uma interação entre os personagens mais articulada e concreta, que estamos habituados a encontrar na obra deste autor americano. Havia aqui um lado absurdo que as inquietou e fascinou. Parecia um “Tennessee Williams à procura de Godot”, disse Sara. 

“Felice – Nem tu nem eu conseguíamos parar, Clare. 

Clare  – Se tivesses parado comigo, eu tinha conseguido. 

Felice –  Sem um sítio para regressar, temos de continuar, tu sabes.”

Que procurava alguma coisa isso parece certo. Duas personagens, texto escrito em 1969 foi alvo de muitas reescritas pelo autor, e por isso foi estreada muitas vezes também, e que o considerou o seu melhor texto.  Não foi muito bem sucedido nos palcos ingleses e americanos e não ganhou um lugar no repertório clássico contemporâneo. Em Portugal teve duas apresentações, uma encenada por Rita Lello em 2009 e 2010 (duas versões do mesmo texto) com ela e com Pedro Giestas, e, uns vinte anos antes, em 1987, no Teatro da Trindade, com o título Peça para dois Actores, uma encenação de Osório Mateus com Ana Jota e António Caldeira Pires. 

O texto, e estamos novamente a socorrer-nos de Parreira na conversa com o público, “inscreve-se numa longa tradição que existe no teatro ocidental e vem do Renascimento (um dos casos mais paradigmáticos é o Hamlet de Shakespeare) dos textos teatrais que versam sobre os actores, sobre os seus problemas e situações”. O teatro dentro do teatro, para usar uma expressão muito comum, e que de certa forma dá conta também de um fascínio por essa circunstância muito própria do lugar teatral, como um lugar entre o real e o imaginário.

“Clare – Quando é que vamos para casa? 

Felice   Clare, a nossa casa é um teatro, onde quer que ele esteja.”

O enclausuramento, o confinamento, o cerco e a ideia de comunidade

Sara e Carla, que tinham uma grande vontade de trabalhar juntas, mesmo sem saberem ainda sobre o quê, encontraram este texto quando estavam em pleno confinamento e logo aí estabeleceram ligações, conexões, entre os tempos estranhos que agora vivemos e este enclausuramento das duas personagens. 

Como escrevem na folha de sala: “ É evidente a nossa identificação com a realidade vivida pelas duas personagens. A peça é atravessada por uma ideia que nos toca particularmente hoje: a fatalidade necessária ( ou a necessidade fatal). Por um lado, os dois irmãos ( no texto original) necessitam de fazer espectáculos para sobreviver, não têm outra opção. Por outro lado não sabem que outra coisa fazer. A dimensão da fatalidade aparece também nesta incapacidade de “sair” do teatro. A nossa proposta foi levar esta necessidade-fatalidade ao limite.”.

Abandonadas pelo resto da companhia, as duas irmãs que ficam sozinhas têm de continuar, de montar um espetáculo sozinhas, e aí mais uma vez as actrizes encontram um paralelismo com os nossos tempos “esta pandemia veio provar de que é fundamental criar comunidade para se viver em sociedade.”

Duas personagens, o texto em que Tennessee Williams procurou fugir de si próprio

O texto original tem dificuldade em tornar-se interessante para grande parte do público, se o virmos, como é quase inevitável, à luz das outras obras do autor. Já o referimos, é dos seus textos menos aclamados e menos representados. O que é natural, já que sendo um texto de Tennessee Williams, é também um texto em que o autor, em busca de si próprio, tenta fugir daquilo que ele sempre fez.  Parreira na conversa chamou a atenção para essa circunstância que acontece com alguns criadores, e que, no seu desejo de saírem do que já fizeram, constroem objectos com os quais o público tem dificuldade em reconhecer-se.  Mas que,  mesmo tendo menos aplauso deste, são aqueles onde eles são mais inquietantes, mais interpelativos.  

“Clare: – Mas com o palco tão sombrio… 

Felice: – Se conseguimos imaginar o verão, conseguimos imaginar mais luz…”

É claro que, e estamos já a passar do texto para o Tennessee Williams para o espectáculo criado por Sara Castro e Carla Galvão, o público de Almada, do Festival de Almada, é constituído por espectadores com um desejo de teatro muito próprio, muito ávido de ligações, de correlações entre o que vê e a realidade, e estando muito menos preocupado com as correspondências ou não deste texto com aquilo que é habitual neste autor, esteve muito mais disponível para se entregar à cena, àquilo que ela traz.

Duas actrizes à procura de textos para duas mulheres

E aquilo que ela nos traz são duas actrizes que, estranhamente para mim que as tenho acompanhado como espectador em registos muito diferentes, tem afinal tanto em comum na forma como jogam com o olhar, com o tempo, com o silêncio, até com o movimento. 

Sara Castro, no teatro desde 1998, trabalhou no Útero e tem uma parte significativa do seu percurso no Bando, onde desempenhou um papel importante, quer como actriz, como encenadora, com funções de coordenação em diferentes planos da actividade deste tão singular colectivo teatral. Carla Galvão, que começou no princípio do milénio, tem já um trabalho muito vasto em teatro e cinema e televisão, sendo com alguma frequência nomeada ou distinguida com prémios de interpretação. Em teatro, para além das produções independentes trabalhou em companhias como o Teatro dos Aloés, os Artistas Unidos e o Teatro Meridional (onde é antológico o espectáculo Contos em Viagem- Cabo Verde que protagonizou). 

É como se também se tivessem a si próprias encontrado neste teatro do absurdo.  

Há um acontecimento muito curioso, porque da ordem da transcendência neste espectáculo, na forma como ele é constituído por camadas que se escondem umas atrás das outras e que parecendo que são o motivo do espectáculo, vão sempre apontar para outras, que se tornam essenciais, como naquele conhecido poema Inquietação de José Mário Branco. 

“Felice:  – Não devemos começar a contar coisas com as quais não podemos contar, Clare. 

Clare:  – Temos de confiar que as coisas… 

Felice:  – Vão continuar como… 

Clare:  Continuar? 

Felice:  – Sim, vão continuar como sempre, por tanto tempo que parecem… 

Assim,  um texto de Tennessee Williams que não é dele mas de um outro que ele procurou, vai parar às mãos de Sara Castro e Carla Galvão que vêm nelas um passaporte para compreenderem o confinamento em que estão envolvidas, e que quando chega a cena – uma cena devorada pela riqueza e intensidade cenográfica do trabalho de Eric da Costa – se transforma numa outra coisa, nesse jogo de inquietação de duas actrizes, e que actrizes!, que o adaptam para duas mulheres, e com isso nos dizem de uma assentada duas coisas diferentemente inquietantes:  a primeira de que não há muitos textos teatrais escritos para duas mulheres ( Eugénia Vasques fez há uns anos um estudo onde também descobriu que na nossa dramaturgia não há muitas dramaturgas e que as que há, muito silenciadas foram);  a segunda é de que a convenção do género não é tão decisiva como parece.

E o facto de serem duas mulheres, duas mulheres donas de uma companhia abandonada, intensifica ainda mais esta busca, feita de muitas buscas, onde as personagens e actrizes se misturam e o que dá, bruscamente, uma estranha felicidade a este trabalho em que as intépretes assumiram o lado mais difícil do texto, não o suavizando. 

Como disse Carla Galvão, “ a dramaturgia começou quando escolhemos este texto”. E Sara Castro complementa: “ o serem duas mulheres dá-nos outra leitura que nos interessa, elas têm outros códigos, pareceu-nos uma provocação interessante e por isso não fizemos alterações ao texto”. 

Não alteraram o texto mas mudaram as disdascálias, claro, tiraram as referências espaciais. Como disse, com humor Sara Castro: “- Querido Tennessee, para te sermos fiéis hoje tivemos que fazer algumas alterações”,  numa brincadeira que me levou como um fósforo para Valência, há muitos anos, num encontro de autores, Jaime Salazar Sampaio explicou: “ só me senti traído uma vez por uma representação de um texto meu. Quando o representaram ipsis verbis.”

E se, agora que já tanto andámos às voltas com o texto, com a relação que com eles estabelecem autor, actrizes e público se falássemos agora um bocadinho do que se passou naquela cerca de hora e meia que passámos juntos no Teatro António Assunção? A primeira coisa que se impõe é o espaço cénico. É o terceiro espectáculo ( os outros foram Hipólito e Quem matou o meu pai?) que vejo neste Festival em que a cenografia, estabelecendo um discurso total, com o texto, com os actores, com o público, é absolutamente decisiva para guiar a minha relação com a cena. 

Tudo é negro, quase negro, a luz liberta a cena da escuridão. O espaço é fechado, tanto na parte superior, como no fundo. Quase fechado: a parede do fundo tem um corte vertical ondulado, e as duas peças estão ligeiramente afastadas, deixando que a luz venha do exterior, de dentro do palco (curiosamente como em “Quem matou o meu pai?”). Esse rasganço de luz, que vai variando, dá uma força incrível aquela clausura. Há também uma máquina de cena, grande, com um diâmetro um pouco mais pequeno que o palco, que  manipulada pelas actrizes/personagens se desloca e gira. Há um outro elemento, o som de um piano, que Clare toca de uma forma abrupta que reforça a estranheza.   

 

É este o ambiente do espectáculo. Felice e Clara viram-se abandonadas pela companhia, que desesperada com a falta de pagamento vai embora, perderam os seus pais em circunstâncias obscuras, supostamente o pai matou-se depois de ter morto a mãe, já não têm dinheiro e por isso têm de continuar, recusam a assistência social também, estão penduradas por um seguro de vida que a seguradora recusa atribuir-lhes dadas as circunstâncias. A ação é esse entre dois, o antes e o durante a representação, o que só reforça a sensação de fechamento. As personagens estão, labirinticamente, condenadas a estarem fechadas sobre si mesmas, tanto a casa como o teatro são uma prisão. 

“ Felice – Nenhuma pedra atinge a casa. Nenhum insulto ou obscenidade é gritado. 

Clare –  A luz da tarde. 

Felice: – Sim, a luz da tarde é incrivelmente dourada na… 

Clare: –  Mobília que é tão mais velha do que nós… 

Felice: – Apercebo-me, agora, que a casa se transformou numa prisão. 

Clare:-  Eu também sei que é uma prisão, mas é uma prisão que não nos é estranha…

DUAS PERSONAGENS

CRIAÇÃO , DIRECÇÃO ARTÍSTICA E INTERPRETAÇÃO:  Carla Galvão e Sara de Castro TRADUÇÃO Diana V. Almeida CONSULTORIA DRAMATÚRGICA Ana Pais, Ana Tamen ACOMPANHAMENTO ARTÍSTICO Rui M. Silva, Luna Rebelo CONCEPÇÃO PLÁSTICA Eric da Costa LUZ Teresa Antunes SOM Sérgio Milhano Duarte Moreira PRODUÇÃO EXECUTIVA Raquel Sousa 



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