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Cadernos RDB em Almada #3 | E agora? O que fica em nós desta viagem?

Terminou no domingo o Festival de Almada, uma maratona de vinte e quatro dias e vinte e um espectáculos, fora os actos complementares, quinze conversas, quatro colóquios, uma exposição que a Rua de Baixo acompanhou de perto. Para o ano, por escolha do público, regressa o Quem matou o meu pai?, a partir do texto de Edouard Louis, encenado por Ivo Van Hove e protagonizado por Hans Kesting.

Noutras edições a programação sendo muito mais concentrada temporalmente e sobrepondo alguns espectáculos tornaria impossível termos feito a cobertura que fizemos nesta edição.

Na última semana vimos os espectáculos Fake, Discurso do Filho da Puta,  Molly Bloom, Viagem a Portugal, Lorenzacio, Miguel Molina al desnudo e Um gajo nunca mais é a mesma coisa. Assistimos também às conversas entre Maria João Brilhante e Rodrigo Francisco, de Joana Craveiro com Rui Pina Coelho, uma parceria com a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Entrevistámos Luis Vicente e Rodrigo Francisco ( respectivamente o actor e o encenador  de Um gajo nunca mais é a mesma coisa), e estivemos no Seminário de São Paulo para a conclusão da série de quatro colóquios sobre os cinquenta anos da Companhia de Teatro de Almada.

O discurso sobre o Filho-da-Puta

O texto de Alberto Pimenta, escritor e professor e performer com um percurso singularíssimo, foi publicado a primeira vez em 1977, e tem sido editado em muitos países (tendo tido novos desenvolvimentos com o Discurso do Filho de Deus). É um texto fascinante que o leitor/espectador pode actualizar muito facilmente, fazendo-lhe corresponder imagens, situações ou até generalidades, que para alguns terão certamente uma consequência benéfica para alívio do espírito. E digo benéfica para alguns porque eu, que me gabava de à custa de muito relaxamento, de muita focalização interna, de muito plexus solar, ter sepultado em campa rasa a galeria de todos os meus filhos e filhas da puta, vi-me durante aquela hora e meia numa catarse atormentada pelo regresso, quase fantasmático, de todas aquelas figuras de fino recorte de filha da putice com as quais me cruzei na vida. Ou na morte, que muitas vezes já nem percebo bem a diferença. E pelo arfar, entre risos abundantes claro, que senti na plateia, talvez não tenha sido o único a passar por tal experiência.

O espectáculo que o Teatro da Rainha e a Miso Music trouxeram é muito simples e eficaz do ponto de vista cénico:  um morto a ser velado na boca de cena e uma plataforma com dois degraus, onde estão algumas estantes de música e umas tantas cadeiras para os intérpretes, vive essencialmente de um estimulante e rigoroso jogo coral a quatro vozes.

Através de jogos muito variados, elipses, repetições de diferentes modos e feitios, entoações, até brincadeiras entre eles, criam um efeito muito curioso de uma camada sonora que parece estar lá sempre em paralelo com a enunciação discursiva e que para além de transmitir o conteúdo do discurso, dá também um material sonoro autónomo. Como diz Herberto Hélder no seu célebre Poemacto, amplifica o texto.

Aliás, ao procurarmos informação sobre o compositor, performer e poeta Miguel Azguime, que faz a direcçáo musical deste espectáculo, encontramos esta ideia de que a multiplicidade do seu trabalho de criação para ópera, música de câmara, instrumental e electroacústica, deu “ origem ao seu interesse pelo domínio que o próprio artista designa por “palavra-sentido / palavra-som”, numa tentativa de aproximação entre a componente semântica e metafórica da palavra e os seus parâmetros sonoros.

 

Discurso do filho da puta – e não discurso de um filho da puta – é, como já referimos, de uma actualidade impressionante e reutilizável nos mais diversos contextos. No entanto á medida que o texto avança vamos percebendo que afinal o que o ele opera é a construção de um jogo reflexo em direção à plateia, ao público, a comunidade, não, não será assim tanto aquela exaltação de natureza poética que sublinha a eterna criança que existe dentro de cada um, é mais um lembrar-nos da nossa enorme vocação, o Sttau Monteiro dizia para polícias sinaleiros, Alberto Pimenta, por extenso, contrapõe, filhos da puta.

Intencionalidade que não é estranha a este objecto teatral. Numa entrevista relativamente recente ao Sinal Aberto (www.sinalaberto.pt) Fernando Mora Ramos, que assina a encenação, dá conta de uma pandemia deste discurso na sociedade “com a agravante de que não vale a pena ter a ilusão de que há uma vacina possível, pois o arrivismo, o nepotismo, o modismo, o carreirismo, o militantismo acéfalo, o corporativismo, são doenças sócio-tribais”.

Nesta produção do Teatro da Rainha e do Miso Music, a direcção é partilhada entre o encenador Fernando Mora Ramos e o compositor Miguel Azguime  que dirigem o quarteto de cordas vocais constituído por  Cibele Maçãs, Fábio Costa,  Marta Taveira e Nuno Machado. Os actores e actrizes, com grande versatilidade, desdobram-se muitas vezes em duetos, ou em trios com um solista,  demonstram grande entrosamento entre si, transmitindo uma grande alegria, grande gozo, como se aquelas palavras fossem comestíveis. Não foi condescendente com os intérpretes o compositor Miguel Azguime, criando uma partitura com um acentuado grau de dificuldade de execução, que ajuda a este efeito de multiplicação do espaço sonoro, uma espécie de ressonância interna ao discurso.

Uma palavra final para o Teatro da Rainha, estrutura que já atingiu uma ampla maioridade, trinta e seis anos, e que situada nas Caldas da Rainha dá copo a um trabalho muito encorpado de descentralização teatral, de que tanto se tem falado neste festival, na linha de uma marca deixada por Mário Barradas com quem o principal mentor do grupo, Fernando Mora Ramos teve uma profunda relação artística.  Seja na adoção do repertório clássico, principalmente o clássico de natureza popular, seja na criação dramatúrgica contemporânea, O Teatro da Rainda, graças à dupla Fernando Mora Ramos e Isabel Lopes (que nos idos do final do milénio concebeu e dirigiu o DRAMAT, no TNSJ do Porto) , tem um labor muito dedicado e aprofundado à dramaturgia enquanto pensamento que orienta a passagem do texto á cena.

FAKE, o cinema dentro do teatro

Mais um exemplo de uma dramaturgia em cima do vulcão, que se debruça sobre a actualidade mais recente, as fake news, fenómeno que coloca questões vitais para uma sociedade que é apresentada quer como sociedade da informação, quer como do conhecimento, e dá conta de uma dimensão manipuladora sempre presente na comunicação que assume contornos novos, e incontroláveis, porque há um vaivém entre sujeito manipulado e sujeito manipulador.

É um trabalho extraordinariamente bem concebido e realizado na sua componente cinematográfica, o filme é de Tiago Guedes, e tem interpretações em cena de Anabela Almeida, Carla Galvão, Duarte Guimarães, João Nunes, e de um trio de actrizes que, à vez, protagonizam o papel da personagem Norma B.  como Isabel Abreu, Sandra Faleiro e Beatriz Batarda. O espaço cénico é dividido em vários plateaus, correspondentes a espaços de ação diferenciados, e através da articulação entre planos muito próximos, os close-ups,  cria-se uma dinâmica muito atractiva para o espectador.

Esta abordagem, cruzando a linguagem cinematográfica não é muito comum embora haja alguns colectivos, como o Teatro Pogo, o cineasta André Godinho com a Cão Solteiro e os Silly Season ( para só referir os casos que conhecemos melhor, todos na zona de Lisboa) que a têm vindo a trabalhar com alguma regularidade. E de uma forma mais esporádica também têm surgido espectáculos que exploram esta relação entre a imagem, quer a imagem em diferido, quer a imagem em directo, com a representação, como foi o caso de um espectáculo que já apresentámos aqui, Hannah e Martin, no Teatro Aberto (2009).

Fake, de Miguel Fragata e Inês Barahona, constrói-se à volta da figura de Norma B., uma famosa escritora de romances policiais, cujo Como Assassinar O Seu Marido a tornou famosa.  Alguns anos depois, Norma é detida, acusada pela misteriosa morte do seu próprio marido – um famoso professor de culinária. Antes mesmo de poder pronunciar-se, Norma é julgada publicamente. A sua obra é a prova irrefutável da sua culpa.

Do ponto de vista narrativo a história é esta: um conjunto de pessoas decidem produzir toda a história de Norma B. de forma a poderem coloca-la na internet, quer com vídeos, quer com textos. Estas pessoas vão fazer as personagens centrais da história. Carla Galvão faz a amante do marido assassinado, de quem tem um filho, Anabela Almeida faz a protagonista da série feita a partir da obra de Norma B., Duarte Guimarães faz de irmão da Norma B. e João Nunes Monteiro faz de um discípulo do marido de Norma B. com o qual tem um programa de culinária na televisão. 

Ao mesmo tempo estão a fazer um casting para recrutarem a actriz que irá fazer de Norma B., casting que só vemos em vídeo,  e onde participam  Cirila Bossuet, Márcia Breia, Sílvia Filipe e Teresa Madruga ( tão fugaz mas tão bom este regresso) para além das que vão ser escolhidas como Isabel Abreu, Sandra Faleiro e Beatriz Batarda (no dia em que assisti foi ela). 

E é aqui que me pareceu haver um problema narrativo que, no final,  atrasou a minha relação com a história: a actriz é convidada para fazer a cena final, em que ela própria, enquanto Norma B. vai lançar um conjunto de suspeitas sobre todos os outros intervenientes. Ela é filmada, são feitas promos para os textos que vão ser lançados na internet, mas depois o argumento tenta fazer passar a ideia de que ela terá de fazer passar-se por Norma B. na sua vida real, quando ela nitidamente não o aceita. Ora não se percebe porquê, não tem base real, condição necessária para que qualquer mentira, fake, se realize é que ela tenha algumas condições de verdade. Não me apercebi de nada que justifique que a actriz tenha forçosamente de aceitar transportar para a sua vida pessoal essa condição ficcional.  Ela própria reitera a sua condição de actriz. Ou seja, a Norma B realmente será prejudicada pela história, mas não a actriz contratada para o fazer.

De referir que a Formiga Atómica é uma companhia de teatro fundada e dirigida por Miguel Fragata e Inês Barahona, o seu primeiro trabalho data de 2013, “A Caminhada dos Elefantes”, e as suas criações debatem questões contemporâneas e relacionadas com o público. Entre estas destacam-se “The Wall” (2015), “A Visita Escocesa” (2016), “Do Bosque para o Mundo” (2016), “Montanha-Russa” (2018) e “Fake” (2020). A companhia circula regularmente pelo território português, mas também francês e belga, tendo concebido versões francesas de dois dos seus espetáculos, “La Marche des Éléphants” (2016) e “Au-Delà de la Forêt, Le Monde” (2017) que abriu o Festival de Avignon 2018)e que ao longo do seu projecto tem feito diversas co-produções com teatros institucionais como Maria Matos, Viriato, São Luiz e TNDM II, tendo um trabalho muito consistente com os públicos mais jovens.

MOLLY BLOOM, a força e o talento de  Viviane De Muynck

Com o mesmo estilo narrativo a que já nos habituou em Guerra e Terebentina, Viviane De Muynck narra e dá vida ao último capítulo de Ulisses, de James Joyce que nos traz o monólogo interior da mulher de Leopold Bloom que nos traz a  relação com os homens da sua vida, sobre as suas recordações, sobre a sua alegria de viver.

Trata-se de uma criação da bela Needcompany, assinada pela actriz e por Jan Lauwers ( encenação de Guerra e Terebentina e Quarto de Isabella)

Não creio que consiga dar uma ideia da força, do talento, da coragem, desta actriz por quem o público do Festival de Almada já tem uma veneração muito especial. É única, absolutamente única.

LORENZACCIO pelo Teatro do Bolhão

Na apresentação do festival quando Lorenzaccio foi anunciado Inês de Medeiros suspirou, confessando a sua admiração pelo texto de Alfred de Musset.  E o mesmo escutámos a muitos actores e atrizes, o que se compreende, já que se trata de uma obra de referência do cânone teatral ocidental, sobre a corrupção que destrói a cidade, onde a dimensão colectiva se opõe à figura de Lorenzaccio, interpretada por Cláudio da Silva, um actor com o qual Rogério de Carvalho voltou a trabalhar ( e que está nomeado para os Globos de Ouro pela representação de Se isto é um homem, apresentado pela Companhia de Teatro de Almada há dois anos). É uma co-produção do Teatro do Bolhão com o Teatro Nacional São João e  tem dezassete actores em palco. Estreado numa versão mais intimista, no Teatro do Bolhão, a sua deslocação até Almada mereceu uma demorada ovação por parte do público. 

MIGUEL DE MOLINA AL DESNUDO de e Ángel Ruiz 

Foi o último espectáculo que vimos, domingo à tarde. Talvez o espectáculo mais minimalista que vimos em todo o Festival, apenas um piano e uns adereços como um cabide serviram para um engenhoso entrançado narrativo em que se conta, por voz própria, a vida de Miguel de Molina, génio do flamenco, perseguido pela Espanha de Franco, enredado numa onda de calúnias cuja finalidade era denegri-lo, em razão, também, da sua homossexualidade . A interpretação é de Ángel Ruiz e o piano ao vivo é tocado por César Belda. 

O espetáculo tem encenação, felizmente pouco exuberante, de Félix Estaire, já que consegue destacar o virtuosismo interpretativo de Ángel Ruiz, e a contracena quase nada, um fiozinho de presença, de César Balda que inspiradamente assina também a direção musical. O resto é jogo de luz e escuridão a ajudar a criar um ambiente de uma grande intensidade dramática. Quando acabou o público que ovacionou durante largos minutos teve direito a um encore e percebia-se, percebia-o em mim, íamos tocados pela magia do flamenco. 

Rodrigo Francisco e Joana Craveiro nas conversas

Das várias conversas tidas houve duas que, até por caso do impacto que os espectáculos tinham tido, foram momentos muito fortes. O primeiro a conversa tida entre Maria João Brilhante e Rodrigo Francisco que encenou e escreveu “Um gajo nunca mais é a mesma coisa” ( iremos publicar em breve uma entrevista com ele)  não só por causa do espectáculo, também por algo que já tinha acontecido no Corpo Suspenso, o espectáculo de Rita Neves e Patricia Couveiro: o espectáculo prolonga-se do palco para a plateia e provoca memórias, acertos de conta com o passado, irrupções de camadas não controláveis das experiências tidas na guerra colonial. E é também muito curioso que na esplanada o fio de conversa ligava não só ex-combatentes. Como disse alguém muito inspiradamente, esta guerra, que foi uma longa guerra, tinha repercussões em todo o país. 

As perguntas de Joana e a pergunta de Rodrigo Francisco

Por outro lado a conversa entre o dramaturgo, critico e professor Rui Pina Coelho e Joana Craveiro foi também intensa. Pina Coelho, que se confessou desde logo um admirador do percurso que o Teatro do Vestido e Joana Craveiro têm feito , não poupando adjectivos para assinalar a originalidade deste trabalho de escavação e memória, de arqueologia e reinvenção do Teatro do Vestido. De uma forma muito curiosa, e muito bem documentada, estabeleceu uma cronologia através das perguntas antigas dos espectáculos, começando pelo Mini Museu das Memórias Esquecidas que viu em 2017 com os seus filhos e que tinha a pergunta “ Quanto tempo tem de passar sobre um acontecimento para que se possa falar sobre ele?”. Depois na Trilogia Monstro, entre 2012 e 2013, havia outras perguntas: “ Como chegámos até aqui?”, “De onde viemos?”,  E como viemos aqui parar?. São questões que são refrão, a serem colocados em vários espectáculos e que dão conta de duas fases, um trabalho muito pausado por uma introspeção afectiva pela memória interior, privada, onde se juntam preocupações mais preocupadas com o expandir este teatro sobre a memória para um teatro documental que se alarga ao imaginário politico e colectivo.  

A conversa, muito rica, havia ali espectadores que já são fiéis ao Teatro do Vestido, ao trabalho da Joana Craveiro, acabou com uma pergunta, de Rodrigo Francisco, neste caso dirigida à mãe da encenadora, que se encontrava na assistência, a de como é que veria a situação se a Joana Craveiro viesse a ser a futura directora do Teatro Nacional. Por entre os protestos da filha, que tentou mostrar que a ideia não lhe fazia sentido nenhum, a mãe teve um momento muito feliz no qual, elogiando o trabalho de Tiago Rodrigues, disse que esta geração tem mostrado que tem capacidade para traçar caminhos novos para o teatro português. O que é certo é que a pergunta do Rodrigo nos pôs a pensar em como seria se o Teatro Nacional, para além daquele trabalho que decorre estatutariamente da sua missão, viesse a dedicar uma enorme atenção à criação sobre a memória, à discussão criativa e expressiva sobre a(s) ideologia (s) da identidade. E confesso, por breves momentos fui um pouco mais otimista.

O Teatro Azul na história da Companhia de Teatro de Almada

O último debate no Seminário de São Paulo foi moderado por Carlos Vargas e contou com a participação de Domingos Rasteiro e Américo Jones. Carlos Vargas fez um excurso pelo que tem sido a governança da Cultura desde os anos da Troika, a forma como ainda hoje continua a não haver Ministério da Cultura ( temos um Gabinete da Ministra ligado ao Conselho de Ministros) e de como em 2017 a companhia tem os valores da subvenção actualizados aos de 1997, vinte anos antes. Foi uma intervenção muito robusta do ponto de vista da informação, passando depois a palavra a Domngos Rasteiro que enquanto director das áreas da educação e da cultura acompanhou bem de perto a construção do Teatro Azul  que com o seu custo de cerca de doze milhões de euros é um dos mais fortes, senão o mais forte investimento municipal feito num equipamento cultural e que, para ele, decorreu da conjugação e da convergência feliz da ideia da Companhia com o projecto politico municipal para a Cultura e para o Teatro. Américo Jones, o terceiro interveniente, um professor que é um entusiasta do teatro na relação pedagógica, foi a oportunidade também para se voltar à reflexão sobre o modo como em Almada se trabalha o público, neste caso o escolar.  

Um absurdo burocrático mancha a relação do Estado com o Festival 

Acabaram-se assim, pelo menos fisicamente, os vinte e quatro dias de Almada, do Festival de Teatro de Almada, um festival que incompreensivelmente ainda não tem uma dotação própria pelo Ministério da Cultura. Esta era uma das questão de sempre que Joaquim Benite trazia, tendo conseguido nos tempos de Manuel Maria Carrilho, que tal fosse feito. Vigorou muito pouco tempo viemos a descobrir nestes debates. O afã do procedimento, do regulamento, da burocracia com pernas, e sem cabeça, lá descobriu uma alínea que impossibilitava que a Companhia pudesse receber um apoio para a sua actividade regular e outro para o Festival. Ou que possibilitava que a Companhia não pudesse receber um apoio autónomo para o Festival (neste jogo de possíveis a patologia burocrática esgadanha-se de fulgor e excitação com a possibilidade da impossibilidade). 

É claro que a Companhia de Teatro já podia ter resolvido o assunto com uma esperteza burocrática, como nos disse Rodrigo Francisco na entrevista que nos deu: criava uma associação para o Festival de Teatro de Almada. No entanto tal nunca lhes pareceu correto por desvirtuar uma das características do Festival e que tem tantos efeitos positivos nas relações com criadores nacionais e estrangeiros: ser uma companhia de teatro a receber outras companhias e criadores teatrais. 

Gonçalo Frota é um dos vencedores do Prémio Carlos Porto, 

Como já é tradição, no domingo é o jornalismo, os jornalistas que são notícia com a entrega dos prémios Carlos Porto, que homenageiam este importante critico de teatro que nos deixou em Outubro de 2008. 

O prémio com o patrocinio da Câmara Municipal de Almada, tem três modalidades, o Grande Prémio Carlos Porto, que foi entregue a Manuel Xetoso Nòs Diario com o título “Festival de Almada: o público é quen máis ordena”, Prémio Carlos Porto imprensa especializada ganho por Tommaso Chimenti pelo artigo publicado no Il Recensito com o título “Neache il covid ferma il festival de Almada che, coraggioso, rilancia” e o Prémio Carlos Porto imprensa generalista foi entregue a Gonçalo Frota pelo artigo publicado no Público com o título “Não há medo, só vontade de teatro no Festival de Almada” e que já tinha ganho, em 2016, o Grande Prémio Carlos Porto. Gonçalo Frota, jornalista do Público que escreve sobre dança, teatro e música e que há muito se vem distinguido pelo seu trabalho de jornalismo iniciou-se no jornalismo em 1999 no Blitz, onde escreveu sobre música, tendo passado pelo semanário Sol e pela Revista Time Out. 

Olhar de frente o colonialismo português 

Foi este o primeiro título do texto com que iniciámos este trabalho. Olhar de frente o colonialismo português. E ficámos surpreendidos com a repercussão que este tema teve, tem, saltando, num vaivém, do palco para a esplanada, e já demos conta de como a edição de este ano, que já não teve acontecimentos online, teve de procurar a sua alma, a sua essencialidade, noutros caminhos que não a dimensão festiva, de encontro, que sempre, desde que nasceu na Rua dos Tanoeiros. E ao mesmo tempo, este diálogo entre o teatro e a vida deu-nos uma medida muito importante de como para muitas pessoas, pessoas que foram sendo estimuladas a fazê-lo, aquilo que acontece naquele lugar incrível que é o palco, o teatro, conversa com as suas vidas. Não foi assim porque a programação o tivesse imposto, ou sublinhado, que a presença do olhar sobre a nossa experiência colonial se tornou tão intenso neste Festival. Foi porque há qualquer coisa de inadiável de nós próprios connosco mesmos, de nós com a reconstrução identitária em comum, numa comunidade que integra pessoas e os seus descendentes que estiveram em dois lados diferentes de uma guerra.

DOSSIER FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA 2021

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Concluiremos o dossier até ao final da primeira semana de Agosto,  com textos sobre os espectáculos Corpo Suspenso,  Viagem a Portugal e Um Gajo nunca mais é a mesma coisa (além das entrevistas a Luis Vicente e Rodrigo Francisco, o protagonista e o encenador). E ainda com uma discussão em torno da conversa com o público no espetáculo Aurora Negra e uma conversa com Maria José Lobo Antunes (autora do livro Regressos Quase Perfeitos, memórias da guerra em Angola). Temos também uma entrevista com Josef Nadj onde ele a propósito do Omma que trouxe ao Festival fala do seu trabalho, da sua infância, do mundo pelos seus olhos.  



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