“Fausto”, Aleksandr Sokurov

“Fausto”

Baseado na obra de Goethe, Aleksandr Sokurov mostra-nos o que é ter poesia num filme

Livremente inspirado na obra de Goethe, “Fausto” de Aleksandr Sokurov reinterpreta radicalmente o mito. Fausto (Johannes Zeiler) é um homem sábio que se sente frustrado com os limites do conhecimento humano: as suas experiências para transformar metais em ouro falham sucessivamente, questiona a natureza da alma humana, e está apaixonado por Margarete (Isolda Dychauk), uma mulher que não mostra o mínimo interesse por ele. Enquanto deambula por uma curiosa casa de penhores, Fausto encontra um agiota desagradável mas falador (Anton Adasinsky) que lhe propõe o amor de Margarete em troca de um documento assinado onde o cientista se compromete a ceder a sua alma.

Numa entrevista à Cahiers du Cinéma, em Janeiro de 2011, o realizador ofereceu um pouco da sua visão de Fausto, e de como construiu este mito no cinema.

“Goethe tem a capacidade única de não mencionar os detalhes: não sabemos nada sobre a vida de Fausto. E no entanto emerge uma personagem incrível, gigantesca, uma espécie de monólito”, este foi o ponto de partida para esta adaptação.  “Essa foi a minha tarefa principal: Tentar criar este homem, a minha versão. Dediquei-me a tentar aprofundar a sua biografia. É difícil, tendo em conta que se trata de uma personagem mitológica. Mas um cineasta precisa disso, porque vai mostrar um ser humano no ecrã. É um grande problema saber como ele é, qual a sua personalidade. Temos de procurar o seu pai e a sua mãe, sem os quais não é possível acreditar. Isso não interessava a Goethe; não estava interessado nas suas pernas, apenas nos seus pensamentos eruditos, na sua cabeça voadora”.

Sokurov conseguiu criar uma obra poética e esteticamente bela, com diálogos filosóficos que não são enfadonhos e com personagens que nos cativam com o decorrer do tempo. Esta parte humana no filme foi intenção do realizador, “Recusei concentrar-me em pensamentos filosóficos para que não se tornasse numa confusão. Escolhemos mostrar uma história humana, de forma a vermos um homem no ecrã. E passa-se numa época incerta”. Fausto ocupa um espaço social, ele tem a cabeça no lugar, uma boa educação. Porém, encontra-se numa posição difícil, humanamente. É precisamente isto que faz a camada superficial do filme, que não pretende uma leitura completa da obra. Eu quero sobretudo que as pessoas queiram ler as obras. Ler Goethe”. Para Sokurov, “se eu conseguir espicaçar a curiosidade de um espectador, então já cumpri o meu papel. Ao mesmo tempo, este filme é uma parte de uma tetralogia. Na sua dramaturgia e atmosfera emocional, existem ligações que eu já tinha feito nos filmes anteriores”

Uma particularidade do filme foi a tradução do Russo para o Alemão, um trabalho que o realizador pensa ser fundamental para o trabalho do actor, é uma segunda escrita que afasta o argumento da sua primeira versão. “Trabalhar numa língua estrangeira é um caso particular, porque implica encaixar o trabalho no guião literário. Contei ao argumentista a minha ideia. As personagens e as grandes linhas do tema principal eram já claras, tal como as acções e as emoções das personagens. O argumentista esboçou um rascunho geral de situações e diálogos, em russo. Depois comecei a adaptar tudo para alemão e no final restou muito pouco do guião inicial. Para o trabalho de um escritor, tal como para o de um actor, a distância entre línguas é grande, na atmosfera emocional, no temperamento”.

Isto porque “os meios para exprimir o pensamento filosófico são diferentes: em russo, ele toma uma tonalidade quase terna, suave. Na Rússia, somos apaixonados pela Filosofia, encaramo-la um pouco como a Música. Na Alemanha é o inverso. E isso acontece da mesma forma com o trabalho de um actor. Se um actor russo interpreta um alemão, mas em russo, será impossível recorrer à dobragem posteriormente – a natureza da dicção é muito diferente, a acentuação lógica e emocional é enfatuada em momentos diferentes”

O filme vai estrear-se a 11 de Abril em exclusivo no ESPAÇO NIMAS, em Lisboa, TEATRO DO CAMPO ALEGRE, no Porto. FAUSTO será ainda exibido no dia 11 de Abril, às 21h30, no CINE-TEATRO AVENIDA, em Castelo Branco.

Esta estreia é o ponto de partida para algumas iniciativas especiais no ESPAÇO NIMAS, em Lisboa.

A primeira delas é a exposição «FAUSTO, pinturas de ILDA DAVID’», que propõe uma selecção da artista das pinturas originais reproduzidas no livro “Fausto”, de Johann W. Goethe (tradução e introdução de João Barrento e imagens de Ilda David’, ed. Relógio d’Água) e que inclui ainda alguns quadros inéditos. A exposição será inaugurada no dia 10 de Abril, pelas 21h00.

O filme será também o ponto de partida para duas conversas que terão lugar no ESPAÇO NIMAS nos dias 13 e 20 de Abril, após a projecção do filme que se inicia às 15h30. João Barrento e Maria Filomena Molder (13 de Abril) e Yvette Centeno e Mário Avelar (20 de Abril) são os convidados destas sessões.



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