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Vodafone Paredes de Coura | Dia 3 (14.08.2026)

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Texto por Beatriz Veloso e fotografia por Rui de Freitas.

O dia no Couraíso começou enérgico e rebelde com Carolina Durante, a última confirmação do cartaz desta edição. O Punk inquieto da banda indie rock espanhola acordou quem ainda podia estar adormecido da tarde passada no rio e obrigou a que cedo começassem a levantar-se nuvens de pó.

No palco montou-se uma espécie de escritório dos anos 2000, onde a energia que daquelas guitarras emana é vibrante e contagiante, um contraste agudo mas simultaneamente sublime com os momentos mais leves dos refrões. 

No palco secundário chegamos ao som de «I need an angel» de Strawberry Guy. Aqui o som parece expandir-se infinitamente ao mesmo tempo que as cores quentes pintam o palco e acalmam o frenesim que se acabou de passar com os punks espanhóis, adocicando os ouvidos — em tom de referência, arrisco dizer que é como colocar os pés em água gelada no fim de um dia duro. É talvez por esta envolvência introspectiva e postura descontraída que propõem que o contraste no alinhamento funcione tão bem.

Gira o disco e toca português, é a ronda de Sérgio Godinho, os Assessores e mais uns quantos amigos: Samuel Úria, Manuela Azevedo, Ana Lua Caiano, Milhanas e A Garota Não (as duas últimas artistas já se haviam apresentado nos dias anteriores).

É alegre, é bonito e é português, é um concerto de cumplicidade entre os convidados, o palco e quem assiste, são momentos como este num festival da dimensão de Paredes de Coura que trazem sabor a casa. O país que nos ouve hoje é o alvo das muitas letras do “mestre”, essas tantas que atravessaram o tempo sem envelhecer, para o bem ou para o mal. “Paz, pão e Sérgio Godinho no Coração”, focam nas câmaras os cartazes que se ergueram no ar acompanhados dos punhos de quem grita a liberdade.

O vale ficou repleto de gente neste entardecer brilhante, todas estas vozes que cantavam com Sérgio uniram-se num apelo ao seu nome de quem pedia que não se acabasse a música naquele instante.

Entre idas e voltas ao acampamento preparam-se as marmitas, tomam-se os banhos e descansam-se os pês, que bem precisam de tanto caminhar, de um lado para o outro, naquele chão irregular e desnivelado de que vamos ter saudades. Entretanto, Benjamim Clementine protagonizou um dos momentos mais ternurentos no Vodafone com o abraço dado ao pequeno Benjamim que assistia na frontline com os pais — grandes fãs do artista que em homenagem batizaram o filho com o mesmo nome.

O recinto lotadíssimo está agora à espera de Bloc Party, um dos maiores nomes da programação do festival e, naturalmente, do dia. No palco secundário estão a terminar os Terraplana, a banda brasileira que ficou surpreendida com a quantidade arrasadora de pessoas que encheu o curto espaço dedicado ao Coura Sem Paredes: “Portugal é foda, vocês são todos muito foda”, agradeceram ao finalizar a atuação. 

As camadas de som começam a desdobrar-se, multiplicam-se e fundem-se com a voz de Kele Okereke. Não está apenas a fazer espetáculo, mas verdadeira música ao vivo com o looper a seus pés. Estamos a receber Bloc Party (novamente)! 

Harry Deacon, o baixista responsável pelo sintetizador, acompanha Kele (o vocalista) no exercício das camadas sonoras. Abaixado monta a sonoridade da próxima música, é a vez da bateria entrar em ação na máxima energia com acompanhamento de Russell, o responsável da guitarra principal. 

E vão-se os copos reutilizáveis ao ar, faz-se chuva de cerveja e abre-se mais uma mosh. As luzes irrequietas, aceleradas e rebeldes criam o cenário deste que é o segundo gig da banda neste palco — ao fim de 20 anos. O crowd surf está ao rubro e assim se manteve até ao último segundo, ninguém escapa: lá vai o fotógrafo erguido sob as cabeças daquela imensa multidão em direção aos seguranças que, incansavelmente, resgatam as ondas humanas que Bloc Party provocam. Posta esta descrição, podemos afirmar que se tratou de um concerto que entregou o que prometia, com uma dose extra de adrenalina.

Seguem então os festivaleiros, trêmulos de tanto grave, para o palco secundário que dá para arrefecer com Vendredi Sur Mer, um pop calmo que não adormece.

“Aviso: a próxima artista é considerada extremamente ofensiva! Veja por sua conta e risco”, é o alarme que parece piada, tendo em conta que já sabemos o que se seguiu.

Bem que avisou, entrou com assobios de repúdio ao trocar Coura por Porto nas boas vindas. Os capacetes metálicos, que devem ter acabado com muitos rolos de papel de alumínio, estão todos lá à frente colados à grade. As luzes são psicóticas, os robôs lançam lasers e os efeitos atrás da voz de M.I.A seguem a mesma linha enquanto no palco acompanham duas bailarinas que partilham da mesma energia. 

Vão soltando-se gritos tribais à mistura com sonoridades indianas e um grupo coral. Uma confusão agradável de estilos que não deixa escapar a eletrónica e o reggie. Contudo, quando começaram os cânticos espirituais a coisa amornou. Trata-se de uma fase do concerto em que M.I.A. apresenta a própria vivência espiritual — concretamente em 2017, quando falou com o Senhor — com temas do novo álbum “M.I.7”. O disco foi construído em volta do Livro do Apocalipse, recorrendo à simbologia dos sete selos e sete trombetas, como se pode imaginar é uma temática bastante diferente apresentada em Coura que não conquistou toda a gente. 

Neste registo mais evangélico, a artista sai e entra em palco novamente, agora vestida de azul com algo que se assemelha a uma manta de sobrevivência amarela: “Free Palestine”, segue-se o grito que pareceu o mais fraco de todos os apelos feitos nos últimos concertos.

Talvez seja porque há muita gente que começa a sair do Vale em direção ao palco onde começa Maruja no palco Coura Sem Paredes. Lá ao fundo, no Vodafone, ouvem-se os últimos aplausos da linha da frente de M.I.A. E regressam, finalmente, o crowd surfing e as mosh.

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Leiam aqui as reportagens do primeiro, segundo e quarto dia do festival.



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