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“Depois de 20 anos a ver terror, já pouca coisa me mete medo”

Aos 20 anos, o MOTELX estica-se a 11 dias, estreia mais uma longa portuguesa de terror e traz a Lisboa nomes tão improváveis como os fundadores dos Portishead e dos Sleaford Mods. Em conversa com a RDB, João Monteiro, diretor artístico do festival desde a primeira hora, posição que partilha com Pedro Souto, explica porque é que o género nunca foi só sangue e sustos — e porque é que o verdadeiro objetivo é o desconforto.

Há uma ironia simpática na origem de João Monteiro como curador de cinema de terror: em criança, tinha medo horrível do género. “Tive que os recuperar, mas queria vê-los”, conta, sobre os filmes clássicos de terror que só conseguiu enfrentar mais tarde — entre eles os da Hammer e os de Vincent Price, que hoje cita como referências fundadoras do seu próprio gosto. Duas décadas depois, é esse mesmo medo de infância, transformado em curiosidade e depois em profissão, que o leva a decidir todos os anos o que assusta o público de 40 países.

Faltam poucos dias para o Cinema São Jorge se voltar a encher de sangue, sustos e — cada vez mais — de outras coisas que não se resumem a nenhum dos dois. O MOTELX, festival internacional de cinema de terror de Lisboa, chega este ano à sua 20.ª edição, e para assinalar a data estica-se a 11 dias de programação, entre 3 e 13 de setembro. Falámos com João Monteiro, um dos diretores artísticos do festival desde a primeira hora, sobre o que mudou, o que ficou igual, e porque é que “terror” continua a ser uma palavra pequena demais para o que o género hoje é.

Uma estrutura que se recusou a dispersar

Quase duas décadas depois, e apesar do salto excecional para os 11 dias desta edição de aniversário, João Monteiro insiste que a arquitetura do festival mudou pouco desde então: “Se compararmos a primeira edição com esta, a estrutura está lá toda.” Começou com cinco dias no São Jorge, passou para sete, e o alargamento deste ano é, sublinha, um gesto simbólico — não o arranque de uma expansão permanente.

Para Monteiro, essa contenção é, precisamente, um dos segredos da longevidade do festival: “Um dos segredos para a longevidade do MOTELX tem a ver com uma recusa em sair daquele formato e trabalhar dentro dele. Não sair para outras salas, não dispersar público, manter a coisa contida.” À volta desse núcleo foram-se acrescentando peças — o Quarto Perdido, o prémio de curtas-metragens — mas sem nunca abandonar a ideia original de um festival concentrado num único cinema.

Essa fidelidade ao Cinema São Jorge tem, para Monteiro, um lado quase afetivo — e uma pontinha de humor bem a propósito de um festival de terror. Descreve a sala como uma espécie de “casa assombrada”: “Aquilo está igual ao que estava quando foi exibido o ‘Red Shoes’ do Michael Powell” — o filme que inaugurou o São Jorge, em 1950. Para o diretor artístico de um festival de terror, ter por casa uma sala com 76 anos de fantasmas por trás é tudo menos um problema.

O nascimento do terror português

Se há uma diferença que Monteiro assinala sem hesitar entre o MOTELX de hoje e o de 2007, é a existência, ano após ano, de uma longa-metragem portuguesa de terror. “Em 2007 seria irrisório pensar nisso. Primeiro tivemos que descobrir filmes de terror que foram feitos em Portugal desde o nascimento do cinema.” Duas décadas depois, o festival pode finalmente dizer que há, todos os anos, pelo menos um filme português no género. “Não vamos dizer que é um movimento, mas mostra alguma coisa diferente, obviamente, e mostra um princípio.”

Monteiro não reclama para o MOTELX a paternidade exclusiva desse crescimento — o festival nasceu numa altura em que Portugal já tinha outros certames de cinema de género consolidados, como o Fantasporto, além do Indielisboa, do Doclisboa e do Queer Lisboa – mas acredita que ter um espaço onde estes filmes são bem-vindos, em vez de rejeitados, fez diferença: “O facto de existir um sítio onde se pode mostrar estes filmes, onde as pessoas sabem que o que nós procuramos é exatamente aquilo que lhes faz serem rejeitados noutros festivais — acho que isso ajuda.” Como prova, cita nomes que passaram pela competição de curtas do MOTELX e hoje fazem longas-metragens: Fernando Alle, Gonçalo Almeida, e Bruno Lacerda. “É difícil, não estamos a falar de coisas instantâneas em que o financiamento aparece e se faz, mas estes realizadores deram-se a notar no MOTELX e depois, através do MOTELX, puderam também dar-se a conhecer lá fora, dentro deste circuito específico, que são os festivais de cinema fantástico.”

Portishead, rave culture e a persona de Jason Williamson

Uma das novidades mais inesperadas desta edição é a presença de Geoff Barrow, fundador dos Portishead, e de Jason Williamson, vocalista dos Sleaford Mods. “Também nós” ficámos surpreendidos, admite Monteiro, entre risos. A ligação faz-se através de “Game”, filme produzido pela produtora fundada por Barrow com um grupo de amigos, incluindo o realizador — uma produção de orçamento reduzido, quase minimalista: duas personagens, um cenário, uma situação. “Achamos o máximo e achamos que era interessante”, diz Monteiro, sublinhando também o lado geracional do convite: “Tendo em conta que eu tenho pessoas no escritório que não sabem quem são os Portishead”.

“Game” passa-se no pico da cultura rave em Inglaterra, e é aí que a ligação à música se justifica — não como decoração, mas como matéria do próprio filme. “É uma tentativa de olhar para esse movimento e pensar o que nós ganhámos, refletir um pouco sobre o que foi aquilo.” Jason Williamson interpreta uma personagem construída à medida da sua própria persona de palco: “Ele é perfeito para estar a fazer aquele discurso da raiva, do ressentimento — uma coisa muito presente na sociedade britânica, principalmente nesta questão da rave culture. Há uma parte a viver aquilo intensamente e outra a olhar e a censurar o que se está ali a passar.”

Este convite marca também, para Monteiro, uma mudança geracional na forma como o festival escolhe quem trazer a Lisboa. Nos primeiros dez anos, o MOTELX empenhou-se em captar os grandes mestres clássicos do terror. Hoje, com muitos desses nomes já falecidos ou impossibilitados de viajar, “abre-se um novo capítulo, em que nós estamos mais a ver quem são os novos” — sem nunca descurar o passado, sublinha, apontando para a homenagem desta edição a Sergio Martino: “Toda a gente conhece o cinema dele, ninguém sabe quem ele é” — através de Tarantino e de outros cineastas pós-modernos de Hollywood que recuperaram o giallo italiano dos anos 70 e 80.

Terror não é só sangue e sustos — nunca foi

Confrontado com a ideia, ainda comum, de que “cinema de terror” é sinónimo de sangue fácil e jump scares, Monteiro é direto: essas outras dimensões do género — o político, o social, o metafórico — estiveram lá desde o início. “O género foi, de certa maneira, inventado na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial. Filmes como ‘The Cabinet of Dr. Caligari’ ou ‘Nosferatu’ já, de certa maneira, preveem o que aí vinha.” O que existe, defende, são fases: “O ambiente sociopolítico do mundo influencia o tipo de filmes que se vê.” Não gosta da palavra “zeitgeist”, mas é disso que fala — de um “arquétipo de medo” coletivo que muda com o tempo. “Neste momento, estamos todos com medo do clima, estamos todos com medo do fascismo e estamos todos com medo do Trump. De certeza que os próximos anos, e já começa a aparecer nestes filmes, isto vai ser o tema comum.” Nas curtas portuguesas mais recentes, nota, já se sentem temas como a gentrificação ou a crise da habitação a servir de mote para ficções de terror.

Curadoria: uma “geografia do terror”

Com 170 filmes de 40 países nesta edição, o processo de seleção passa necessariamente por uma equipa e por uma triagem prévia — “não consigo ver 170 filmes, não é possível”. O objetivo, explica Monteiro, é a variedade dentro dos subgéneros: “Não quero ter 10 slashers, nem 10 filmes de zumbis, quero ter pelo menos um de cada.” E há uma procura deliberada de sair da produção dominante — Estados Unidos, Reino Unido, França — em busca de cinemas “mais parecidos connosco, a nível de produção”, tentando “fazer uma espécie de viagem, uma geografia do terror”.

Os filmes de abertura e encerramento obedecem a uma lógica própria, quase ritual. “Nós queremos que o filme da abertura seja o mote de entrada para a semana, e o filme de encerramento feche bem, no sentido de dar continuidade” — até porque, lembra Monteiro, o MOTELX já não se resume ao festival de setembro: há sessões mensais, à meia-noite, no Nimas. “Não queremos que a energia final seja de fim.”

Roger Corman, o pai esquecido do cinema independente

Esta edição presta ainda homenagem ao centenário de Roger Corman, com a presença de Julie Corman numa masterclass. Para Monteiro, é um gesto quase de reparação histórica: “Foi chocante que alguém tão importante como ele já fosse hoje um nome esquecido. E no entanto, o cinema que vemos hoje em dia deve muito a Roger Corman.” Corman é descrito por Monteiro como o verdadeiro pai do cinema independente americano — “o primeiro produtor independente a conseguir destruir um sistema de estúdios completo” — e o responsável indireto por filmes como “Tubarão” ou “Guerra das Estrelas”, que só se tornaram possíveis depois de os grandes estúdios se renderem à fórmula que Corman explorava, atento à contracultura e a um público jovem.

Três filmes para quem nunca foi

Para quem nunca pisou o MOTELX, ou o conhece pouco, João Monteiro deixa três recomendações desta edição. Primeiro, “Game”, o já mencionado filme com Geoff Barrow e Jason Williamson: “Não sendo o terror que as pessoas esperam, é algo que ajuda a perceber as potencialidades e onde é que se pode chegar através dos filmes de terror, que não são só para adolescentes.” Depois, “The Mouths”, do realizador japonês Takashi Shimizu, autor de “Ju-On” (a base de “The Grudge”) — um dos nomes maiores do J-horror que nasceu a seguir a “The Ring”: “É uma espécie de versão dele do ‘Scream’, um olhar para o próprio género que ele ajudou a criar.”

Por fim, o filme de encerramento, “Fall 2” — e é aqui que Monteiro se entusiasma mais. Diz que não é aconselhável a pessoas com vertigens, e di-lo como o maior elogio possível: é exatamente esse desconforto físico, garante, que faz o filme funcionar. Compara a experiência a uma montanha-russa “entras e sabes que vais sofrer um bocadinho” — e recua a uma das imagens fundadoras do próprio cinema: “Resgata um bocadinho a essência do cinema, (…) através de meia dúzia de planos, de truques de câmara a experiência de nos sentirmos a uma grande altitude funciona às mil maravilhas (…) houve alturas em que eu queria parar o filme, porque já não aguentava mais” — e isto vendo-o em casa, longe do impacto de uma sala escura.

Foi precisamente essa comparação que o levou a recordar o primeiro filme da saga, visto em sala: “Vi o primeiro ‘Fall’ em sala e meu Deus. Mexi-me, remexi-me, estive ali mesmo a sofrer como já não sofria há muito.” Um efeito raro, garante, num percurso profissional de duas décadas a ver terror: “É um bocado engraçado, porque voltas um bocadinho àquela altura em que isso te fazia impressão. Depois de 20 anos a ver filmes de terror como profissão, já pouca coisa te mete medo ou impressiona.” E é precisamente esse desconforto — a sensação física de “sofrer” durante o filme — que Monteiro identifica como a verdadeira medida de sucesso do género: “Eu sei que é o objetivo do género.”

O MOTELX decorre entre 3 e 13 de setembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa.



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