“Inferno” de Dan Brown

“Inferno” | Dan Brown

A utopia da equação do apocalipse populacional

Depois de vários milhões de exemplares vendidos em todo o planeta, Dan Brown volta à carga com “Inferno”, um livro que gerou uma galopante expectativa à medida que se aproximava a sua aparição nas livrarias.

Os mais céticos temiam por uma “sequela” do menos atrativo “O Símbolo Perdido”, mas, felizmente, a nova aventura do professor universitário de Harvard e especialista em simbologia Robert Langdon por terras de Itália revela-se bastante atrativa e, como é apanágio de livros como “O Código da Vinci” ou “Anjos e Demónios”, estamos perante um livro repleto de mistério, aventura e ação.

Como em todas as obras de Brown, “Inferno”, editado pela Bertrand, pode ser lido e entendido sob várias e diferentes perspetivas e como um bom thriller nem tudo o que luz é ouro. Apesar de ter chegado a Portugal no início de julho, nos Estados Unidos, a mais recente obra do autor de “Código da Vinci” foi lançada no dia 14 de maio (14/5/13), data que serve de anagrama ao valor do PI (3,1415), fazendo também alusão aos círculos do Inferno mencionados na obra maior do italiano Dante Alighieri, “A Divina Comédia”.

E é mesmo o longo e poético texto épico de tendências teológicas que se encontra concentrado no âmago de “Inferno”, definindo toda a ação do livro e que vai guiar Langdon e seus companheiros de aventura ao longo das 24 horas mais agitadas do conhecido especialista da arte de interpretar símbolos.

Desta vez o nosso herói fanático por casacos de tweed está em Itália e vê-se obrigado a tentar anular uma ameaça de praga global desencadeada por um vírus micro orgânico. Sem saber a razão e sob um estado amnésico, Langdon vê-se numa cama de um hospital de Florença e alguém atenta contra a sua vida.

Felizmente, Sienna Brooks, uma jovem e muita atraente e peculiar médica, consegue salvar Robert numa primeira instância dando início a uma vertiginosa viagem pelas ruas de Florença. Para complicar a tarefa desta dupla improvável, o único auxílio que professor e médica têm para se guiar é uma réplica manipulada de “O mapa do Inferno”, a célebre pintura de Sandro Botticelli, um dos expoentes máximos do Renascimento italiano.

Todos os acontecimentos apocalípticos retratados em “Inferno” estão diretamente ligados a Bertrand Zobrist um multimilionário transumanista, especialista em investigação genética e fanático pela obra de Dante, que criou uma terrível praga que se ativada em 24 horas significará o fim da humanidade como a conhecemos.

Assim, está nas mãos de Langdon e Brooks descobrirem a localização desta bomba terminal e evitar que o vírus passe de ameaça a realidade. Tal como como é seu apanágio Brown leva Robert Langdon por caminhos repletos de enigmas que apenas podem ser descobertos através da decifração de códigos, pistas várias e símbolos crípticos que entretanto forma deixados pelo génio louco de Zobrist que encontrou proteção através dos préstimos de uma organização-sombra conhecida como “O Consórcio”, liderada pelo também ele enigmático preboste.

Para além de garantir o anonimato da obra Bertrand Zobrist, o Consórcio tinha como outra das suas missões a difusão de um vídeo idealizado pelo cientista mas o seu perturbante conteúdo levou a organização a quebrar o rígido protocolo.

Pelo meio desta bem pensada e coesa narrativa surgem outros personagens que serão importantes para o desfecho desta alucinante aventura digna de um filme de Indiana Jones versão século XXI. Elisabeth Sinskey, a maior inimiga de Zobrist, representante máxima da Organização Mundial de Saúde, bem como figuras secundárias como diretores de museus por onde Landon e Sienna passam ou simples condutores de barcos pelas águas de Veneza assumem-se como peças essenciais ao imenso puzzle que é o mais recente livro de Dan Brown e em que qualquer pormenor é decididamente essencial.

Nesta obra verdadeiramente cinematográfica e que obriga o leitor a devorar as páginas do livro de forma compulsiva, o autor, como habitualmente, tem a mestria de fundir temáticas e assuntos díspares que torna a narrativa num cruzamento entre revisitação histórica e cultural, com uma perspetiva de divulgação turística, assim como um alerta para questões cada vez mais emergentes como, neste caso, os problemas da sobrepopulação e a falta de recursos naturais sentida por um planeta à beira de um colapso existencial.

Se em alguns casos estes elementos assumem um papel enriquecedor para a própria trama noutras ocasiões causam quebras de ritmo. Exemplos desse travão são as muitas descrições dos locais onde decorre a ação, o exaustivo recorrer ao filme elaborado por Zobrist ou a escusada e repetitiva menção aos “óculos de marca” do Dr. Ferris.

A forma como Dan Brown refere e apresenta a causa transumanista é outra das mais-valias desta obra. Tal como qualquer teoria levada ao extremo, a sua “má” interpretação leva a fundamentalismos. Neste caso, estamos próximos de um revivalismo da eugenia, pensamento que levou a ciência nazi a procurar desenvolver a raça ariana em detrimento das outras por eles consideradas menores. Segundo o “Inferno” de Brown, no caso dos transumanistas o que se pretende é uma mutação induzida que ative certas sequências genéticas tendo como o futuro da espécie o ser “pós-humano” que no fundo é uma forma de tornar a evolução do Homem imediata afastando-a no normal processo gradual.

Teorias à parte, “Inferno” é um livro absolutamente imperdível para os fãs de longa data de Dan Brown e para todos os que querem passar boas horas na companhia de um thriller repleto de suspense, com uma pitadas de ficção científica, e que combina um tema muito interessante com uma narrativa fluida, concisa e altamente viciante, no fundo ingredientes habituais nos livros do autor norte-americano.



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