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And god created the black dress #3

Cheira a Verão!

Porque é que toda a gente encara a chegada do Verão como período de férias? Porque é que a maioria associa a bom tempo uma coisa boa e o mesmo já não acontece com o mau tempo?

Nunca pensaram nisso porque provavelmente é óbvio que o calor é mesmo bom.

Quem nunca teve uma depressão por ‘longos períodos de céu nublado’ que atire a primeira pedra.

Portugal, como país, é uma boa prova disso. Não há crise, falta de expectativas ou taxa de desemprego que bata um bom dia de praia.

Os portugueses são criaturas que vivem à beira-mar plantados, que olham para tudo com uma nostalgia doentia que nos faz lamentar incessantemente de qualquer adversidade.

Temos aquela resignação que dá impunidade a quem nos rouba, porque ‘os que virão serão piores’.

Que nos leva a ficar em casa nos dias de manifestação, porque ‘não adianta, não vai mudar nada’.

Que nos faz ter taxas históricas de abstenção, porque ‘ganham sempre os mesmos’.

Temos sempre que ter em conta o típico tique nervoso de fazer comédia com todas as coisas que nos lesam directamente: escândalos políticos, desemprego, corrupção, bancarrota ou qualquer coisa do género.

Mas também gostamos de drama e de qualquer assunto triste que dê para escrever uma canção.

Somos o povo do Fado, da sina, do destino predefinido para o sacrifício. A nossa vida é um fardo que levamos às costas olhando para o chão em constante lamúria e não somos meigos com os nossos conterrâneos.

Não, achamos que todos carregam um fardo menos pesado do que o nosso e que os fardos alheios são sempre ‘facilitados’.

Nesta tragicomédia Lusitana, temos que juntar o facto de não termos nascido para ser profissionais, nascemos para ‘desenrascar’ com uma acentuada tendência para a ‘chico-espertice’.

Inventamos soluções para coisas pequenas, distraímo-nos do essencial, tropeçamos nos pés e voltamos a olhar para o mar e para o queixume da nossa vida.

Gostamos de sofrer, é um facto, com: política, futebol, emprego, família, amigos, tudo o que envolva as nossas emoções mais básicas.

Para nós, os idealistas vêm de outro país qualquer ou pelo menos já estiveram uma temporada fora, pois se sempre cá estiveram ‘foi porque ninguém os quis, não valem grande coisa’.

Isto tudo, claro, antes da chegada do calor.

Com calor, as únicas questões que se colocam são: ‘Super Bock ou Sagres?’ ou ‘Algarve ou Costa Alentejana?’.

A crise vem sempre depois das férias.

Quem não compreende esta tendência migratória portuguesa é porque nunca viveu a constante aflição de ser português, o nosso karma, a nossa tarefa neste mundo.

A auto-estima aniquilada pelos nossos superiores hierárquicos, a insegurança social motivada em parte pela nossa Segurança Social, os organismos públicos que nos tratam como números, ter de voltar a casa dos pais em avançada idade adulta por falta de ‘liquidez’, os empregos sem possibilidades de ir a lado algum, o trabalhar gratuitamente porque tudo é óptimo para o currículo, mesmo que tenhamos mais habilitações do que quem nos contrata, os crimes sem culpados, os casos que prescrevem… mas chega de negativismo, estão 30º.

Viriato ou a padeira de Aljubarrota deixaram de ser os nossos ídolos, agora seguimos a ‘Menina dos fósforos’[conto de Hans Christian Andersen] e só queremos rumar para o sul para não morrer de frio.

 

Crónicas Anteriores: Sou uma “pasta” de mim própria // Ó.Vários

Texto escrito em total desacordo ortográfico

Fotografia de Pedro Soenen



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