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John Gabriel Borkman

De Henrik Ibsen, encenação de Thomas Ostermeier. CCB, 13 de Fevereiro.

O banqueiro John Gabriel Borkman vive no 1º andar do seu apartamento desde que saiu da prisão. Entre a escuridão da noite vagueia pelas escadas mas nunca surge depois da porta principal. É no seu quarto que reflecte, planeia e prepara um reaparecimento. A sua mulher Gunhild odeia-o e vive por baixo. Ella Rentheim é irmã gémea de Gunhild e o verdadeiro amor de Borkman. O filho Erhart, criado por Ella, é disputado entre as irmãs e Borkman deposita no filho um plano que sustenta a sua reabilitação para mais tarde regressar ao poder socioeconómico. Por fim, Borkman sai do seu quarto e participa na disputa pelo seu filho. Ibsen descreve a ascenção e a queda meteórica de um homem obcecado, e deixa uma fé residual que fecha o pano.

Foi no dia 13 de Fevereiro no Grande Auditório do CCB que a Schaubühne Am Lehniner Platz nos apresentou uma encenação contemporânea de uma peça do norueguês Henrik Ibsen escrita em 1896.

João Gabriel Borkman é uma peça que retrata a culpa, o erro, a amizade, o amor, e a vida como uma possível sequela da morte. O cenário simples e a sua insensibilidade fazem-nos ficar expectantes. As interpretações cheias de verdade agarram-nos à tensão e ao peso das palavras e das expressões. Há uma pluma densa de fumo que forra o chão e nos transporta para um ambiente volátil onde tudo se questiona, principalmente a vida.

Foco uma cena em que Wilhelm Foldal, amigo do Borkman, se encontra com este no seu quarto e, depois de vários momentos de contestação e ironia, cria-se um lugar cénico e poético onde se questiona a amizade afirmando que esta surge quando duas pessoas fingem o que sentem sustentando uma hipocrisia partilhada. A brilhante interpretação de Angela Winkler no papel de Ella Rentheim traz-nos a verdade e a simplicidade do amor fragilizado por uma doença terminal. Faz-nos reflectir sobre a intemporalidade dos afectos e o quão simples estes podem ser num desfecho emocional num determinado momento da nossa vida.

Há uma música de morte que vem do quarto de cima que acaba por descer no corpo gasto e cansado de Borkman, representando a obsessão humana e transportando nele um reino nunca erguido. A disputa por um futuro depositado no corpo de um jovem, que só deseja a liberdade, fá-los cair num solo de devastação, morte e desesperança, mas ao mesmo tempo de conforto e de abandono, numa viagem silenciosa e apática, mas que tudo significa.



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