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O Rei da Evasão

Sonhar acordado.

Cedo se percebe que “O Rei da Evasão” não nos vai oferecer uma narrativa escorreita, guiada pela lógica da realidade, Armand Lacourtade (Ludovic Berthillot) é o rei da evasão, não por andar a fugir de cuecas ou com o rabo à mostra boa parte do tempo, mas por escapar-se para aquele território onde tudo acontece, do mais comezinho ao mais inimaginável, aquele território para onde se vai quando se sonha acordado. Nesse sítio é-se capaz de qualquer coisa e qualquer coisa é capaz de acontecer. Assim, tudo o que se vê no filme é de desconfiar, possivelmente nada daquilo aconteceu, nada daquilo é real.

Se o cinema é mentira 24 frames por segundo, por que carga de água é que se espera encontrar a realidade num filme? Os filmes sempre foram feitos de artifício, a maioria disfarça-o bem, constrói-se sobre um simulacro de realidade, uma lógica de cinema, que o espectador aceita como verdadeira enquanto dura o filme: a tal suspensão da descrença. “O Rei da Evasão” é um fugitivo dessa lógica, essa é a sua particularidade. Não se pode dizer que é uma coisa nunca vista ou rara, mas é certo que cria uma sensação de desconforto no dito espectador.

A questão do que é ou não realidade já foi explorada em inúmeros filmes, o último dos quais foi “Inception”. Em última análise é uma discussão que não deve interessar muito aos autores de “O Rei da Evasão”, que se aproveitam da liberdade narrativa que a irrealidade e a lógica do sonho lhes proporcionam. Mas se das maiores fraquezas do filme de Christopher Nolan é a sua solidez (a dúvida sobre a realidade nunca está na raiz do filme, é só uma das flores que dá) de onde nunca se perde o pé, deixando o espectador confortável nas suas certezas, neste “O Rei da Evasão” dá-se exactamente o mesmo pelo caminho contrário. Como o filme não tem chão, e pé não encontra um poiso certo, está-se permanentemente num plano surreal, irrealista, a dúvida resolve-se depressa e o conforto instala-se igualmente.

A grande fraqueza de “O Rei da Evasão” reside aqui, apesar de ter pouco mais de uma hora de duração, parece que se estende interminavelmente, porque não há nenhuma tensão, ninguém está em perigo, é tudo imaginação. É como uma anedota que continua depois da punchline, por muito e muito tempo.

“O Rei da Evasão” tem uma ou outra coisa interessante, principalmente nos primeiros vinte minutos, a figura do polícia que funciona como a consciência do protagonista, a droga que lhe dá desejo, que demonstra a sua enorme pulsão sexual, os seus medos e anseios que despontam aqui e ali, as personagens secundários que nunca saem completamente de cena e aparecem nos sítios mais improváveis, mas por repetição tudo acaba por cansar.



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