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«Morte e Vida Madalena» e a arte de filmar em pé de guerra

Um exercício de sobrevivência criativa, onde tudo o que pode correr mal, corre — e ainda assim há filme, há riso, há vida.

Guto Parente, um dos nomes mais persistentes do cinema independente brasileiro, estreia esta quinta-feira em Portugal “Morte e Vida Madalena”, comédia sobre os bastidores caóticos de uma rodagem de baixo orçamento. Com Noá Bonoba num registo tragicómico notável, o filme chega às salas nacionais depois de arrecadar o Prémio da Competição Cine+ no FIDMarseille e o Prémio Especial de Melhor Longa-metragem no Festival de Brasília. Em Lisboa, pode ver-se no Cinema São Jorge, um dos redutos do cinema de autor na capital, onde já tinha passado em sessão especial no Queer Lisboa. Um retrato tão hilariante quanto comovido sobre o que significa fazer cinema fora da indústria.

O ponto de partida: uma rodagem à beira do abismo

Madalena é produtora de cinema, está grávida de oito meses e prepara-se para rodar um filme de ficção científica de baixo orçamento escrito pelo pai, recentemente falecido. Quando Davi, o realizador da obra e também seu ex-marido, desaparece misteriosamente do set a meio da rodagem, é ela quem precisa de assumir as rédeas de tudo — o argumento inacabado, a equipa exausta, o orçamento inexistente — antes que o bebé decida nascer. A premissa de Guto Parente é simples de enunciar e complexa de sustentar: como se faz um filme quando praticamente nada colabora?

É a partir desta ideia, cara ao próprio percurso do realizador cearense — figura ligada ao coletivo Alumbramento e à produtora Tardo Filmes, com onze longas-metragens feitas quase sempre fora dos circuitos convencionais — que nasce uma comédia sobre o cinema precário, artesanal, feito entre amigos. Não é um filme sobre o triunfo da indústria, mas sobre a persistência de quem insiste em fazer cinema apesar dela.

A linguagem do filme: o caos como método

Parente opta por um dispositivo de comédia de erros, com um humor tipicamente brasileiro que funciona como arma de sobrevivência — rir dos problemas para não ser esmagado por eles. A câmara acompanha de perto o nervosismo do set, os improvisos, os pequenos desastres que se acumulam, sem nunca perder o fio condutor emocional da protagonista. Há qualquer coisa de meta-cinema nesta escolha formal: o filme que vemos espelha, na sua própria feitura, a fragilidade e a urgência do filme que as personagens tentam terminar dentro da ficção.

A interpretação de Noá Bonoba é o centro gravitacional de toda esta engrenagem — uma energia física e um timing cómico que sustentam o tom entre o histérico e o genuinamente comovido. Ao seu lado, Tavinho Teixeira compõe uma figura debochada, quase kinskiana, que contamina o filme de uma anarquia contida. É cinema de autor sem pretensão de solenidade: rigoroso na construção, mas despudorado no efeito cómico que persegue.

Morte e Vida Madalena — still do filme de Guto Parente
Tavinho Teixeira e Noá Bonoba em cena de “Morte e Vida Madalena”, realizado por Guto Parente.

As personagens e o que carregam

Madalena carrega, literalmente, duas gestações em simultâneo: a do filho que está para nascer e a do filme que herdou do pai morto, com todo o peso simbólico que isso implica. É uma personagem que se recusa ao colapso, mesmo quando tudo à sua volta parece exigi-lo — e é essa recusa, mais do que qualquer resolução narrativa fácil, que dá ao filme a sua carga emocional. Davi, o ex-marido ausente, funciona como vazio estrutural: a sua fuga é o motor da história, mas também a marca de uma masculinidade que abandona responsabilidades e deixa às mulheres a tarefa de terminar o que começaram juntos.

À sua volta, uma comunidade de artistas nas margens — atores, técnicos, amigos de longa data — que Guto Parente filma com afeto e sem idealização. Não são heróis do cinema independente, são pessoas cansadas, mal pagas, a segurar um projeto com fita-cola e teimosia. É nessa coletividade, mais do que na protagonista isolada, que o filme encontra a sua verdadeira temperatura afetiva.

Morte e Vida Madalena — still do filme de Guto Parente
A equipa de rodagem em plena crise criativa, num dos momentos centrais de “Morte e Vida Madalena”.

O que o filme diz (e o que cala)

Por trás da comédia de bastidores, “Morte e Vida Madalena” é também uma reflexão sobre a economia afetiva do cinema independente — sobre o que significa fazer arte quando o dinheiro nunca chega, quando os prazos são impossíveis e quando a única coisa que sustenta um projeto é a lealdade entre quem nele trabalha. Há, ainda, uma queerness que atravessa o filme sem nunca ser explicitamente assinalada como tema: presente na forma como as relações se organizam, na fluidez dos afetos entre a equipa, na maneira como a igualdade e a inclusão triunfam, discretamente, sobre a hierarquia e a violência simbólica do set.

O filme não pretende esgotar-se numa mensagem fechada — antes celebra a ambiguidade produtiva de fazer arte em coletivo, longe das fórmulas da indústria. Se cala alguma coisa, é precisamente a tentação do discurso explícito: prefere mostrar a comunidade a funcionar do que teorizar sobre ela, confiando na energia dos corpos e no humor como formas de argumento político.

Morte e Vida Madalena — still do filme de Guto Parente
Guto Parente assina uma homenagem ao cinema precário e artesanal em “Morte e Vida Madalena”.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal

“Morte e Vida Madalena” é indicado para quem procura, no meio das estreias de agosto dominadas por sequelas e thrillers de acção, um objeto que fale diretamente sobre o próprio ato de fazer cinema — e que o faça sem se levar demasiado a sério. É também um convite para quem acompanha o cinema independente brasileiro contemporâneo, de Guto Parente a toda a geração ligada ao coletivo Alumbramento, e para quem aprecia comédias que escondem, sob o riso, uma reflexão sincera sobre precariedade, luto e comunidade artística.

Coprodução entre a brasileira Tardo Filmes e a portuguesa C.R.I.M. Produções, com apoio da RTP e do ICA, o filme chega às salas portuguesas distribuído pela Urtiga, distribuidora dedicada ao cinema independente em Portugal. Em Lisboa, o Cinema São Jorge — que já o tinha exibido em sessão especial no Queer Lisboa 2025, com a presença do próprio realizador — volta a acolher esta comédia sobre a teimosia de continuar a filmar quando tudo parece conspirar para o contrário.

Conclusão editorial

Num panorama de cinema de autor cada vez mais atento à precariedade da própria produção, “Morte e Vida Madalena” junta-se a uma linhagem de filmes que transformam as dificuldades materiais do fazer cinematográfico em matéria narrativa — sem cair no cinismo nem na autocomplacência. Guto Parente confirma-se como uma das vozes mais consistentes do circuito independente brasileiro, e este seu décimo primeiro longa-metragem, apesar da escala modesta, tem o alcance emocional de um filme muito maior. Não resolve todas as tensões que levanta, mas talvez essa seja, precisamente, a sua maior honestidade.



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