Slowdive_Graziela_Costa-7703

Primavera Sound Porto 2026 | Dia 2 (12.06.2026)

Segunda noite (esgotada) para viajar com Gorillaz.

,

Texto por Daniela S e fotografia por Graziela Costa.

Logo ao entrar no recinto, neste segundo dia de Primavera Sound Porto 2026, dava logo para perceber que o ambiente estava diferente e que ia ser mais difícil circular entre palcos. Não era de estranhar, ou não estivéssemos perante um dia esgotadíssimo. A culpa? Vamos adivinhar que era dos Gorillaz, velhos conhecidos do público português, que nutre especial carinho pelo vocalista Damon Albarn, que também já teve noites muito felizes com outros projetos – cough Blur – no mesmíssimo palco noutras primaveras. 

Mas antes disso há ainda muito que conversar. Vamos começar por Baxter Dury, que não começamos nada mal… A abrir verdadeiramente o palco Estrella Damm (perdoa-nos, Rita Vian!), a postura irónica e espampanante deste “british man” cinquentão estava perfeitamente alinhada com a da figura de outro “british man”, aquele que terá levado a maioria a esgotar o certame. Apesar disso, a mistura de “spoken word”, eletrónica e algum pop mesclado com pós-punk (juramos que isto faz sentido) não agradou, certamente, a todos. Nem toda a gente gosta dos seus vocalistas com sarcasmo e doses copiosas de autoconfiança enquanto segue alegremente – e de camisa aberta – para a reforma adiada. É, no entanto, difícil de ignorar, mesmo para quem não aprecia e/ou estava acabadinho de aterrar no Parque da Cidade no final de um dia de trabalho e com as intenções fixadas noutras sonoridades. 

Para quem gosta de carisma, sim, mas no feminino, ali ao lado estava outra excelente alternativa. Completamente em casa, ou não fosse do vizinho Minho, Gisela João mostrava como poucos o quão merecida era a sua passagem pelo palco com nome de marca de nicotina. Com o fado como pretexto para contar histórias só nossas, acabou por ser mais do que universal, cantando no idioma dos (des)amores que transpõe qualquer barreira linguística. Mesmo os estrangeiros (que eram muitos) não arredaram pé do palco Zyn, rendidos à emoção esfuziante da fadista, como peixe na água a cantar quem somos, todos nós, os seres humanos. Só não dizemos que foi uma das grandes surpresas do festival porque só alguém muito pouco atento ao percurso de Gisela João ficaria surpreendido com o que ali se passou ao final daquela tarde… 

Mas continuemos o caminho que, mesmo ali ao lado e quase em simultâneo, tínhamos um dos Animal Collective para espreitar no palco Vodafone. O norte-americano Noah Lennox, mais conhecido por Panda Bear, já é da “casa” (reside em Lisboa há pelo menos 20 anos). Voltamos com ele ao espaço da repetição que experimentamos na noite anterior com os nortenhos Sensible Soccers, mas desta vez com direito a formato e grupeta renovados – e, arriscamo-nos a dizer, irrepetíveis. O conceito está em mutação e isso sentiu-se em palco, com Lennox menos agarrado a tarefas mais, digamos, “tecnológicas”. A eletrónica continua, claro, presente na melodia, mas o alinhamento parece que ganha mais sol e “surf”, mesmo que tenha sido do agrado dos mais arraigados fãs. Perfeito para o contexto geográfico. 

Não nos alongamos, no entanto. Temos de ir fazer “shoegazing” para outro lado. Pelo palco com nome de cerveja (catalã) estavam já os Slowdive que, como o próprio nome indica, proporcionaram aos presentes uma bela viagem melódica e imersiva pela nostalgia de quem tem mesmo muitos anos disto. Já os tínhamos visto por cá há uns belos anos e, mais tarde, em 2023, pelo que não esperávamos grande ineditismo, mas é sempre bom ouvir guitarras ao vivo e vibrar com “When The Sun Hits”, ironicamente, já noite dentro. 

De Black Country, New Road, confessamos, não podemos dizer muito porque Viagra Boys eram competição de peso, mas deixamos que as fotografias da Graziela Costa pintem o cenário enquanto seguimos diretos para o que nos trouxe verdadeiramente aqui: Gorillaz. 

Não estávamos sozinhos, longe disso. As imagens de drone disponibilizadas pelo festival mostram o quão compacta estava a frente de palco naquela noite e os burburinhos do que se passara noutros concertos por essa Europa fora justificavam perfeitamente tamanha façanha. 

A banda, já de culto – pelo menos por cá -, mostrou, desde o início, que não se faz munir só de bonecada. A promover o mais recente LP numa viagem à Índia que deve ter sido bem catártica para o vocalista (recentemente divorciado), viajamos com os bonecos para lugares muito muito bonitos e espirituais. Melhor cenário só se fosse ao final da tarde, mas jamais colocariam os “headliners” a essa hora (infelizmente para nós, jovens velhos, que já apreciamos matinées). 

Pontualíssimos, os britânicos digitais não se deixaram valer de hits e não parecem querer descansar nos louros alcançados algures nos anos 00. Okay, admitimos que houve muito quem não gostasse de “The Mountain” (estamos a olhar para vocês, críticos musicais), mas não é o caso desta que vos escreve: os Gorillaz continuam a inovar 30 anos depois e a juntar sonoridades que, à partida, não deveriam “casar” tão bem. Acabamos, assim, por não “viajar” só metaforicamente pela Índia e acabamos por ouvir tantas influências quanto continentes há neste nosso planeta. E isso, meus amigos, é muito bonito. E funciona. E é de enaltecer, especialmente numa banda com mais de três décadas e que é vista por muitos como “mainstream”. 

As sucessivas presenças “surpresa” em palco também fizeram valer bem a enchente, que celebrou com Yasiin Bey (Mos Def himself, confirmamos!), Bootie Brown, Moonchild Sanelly e Joe Talbot (dos Idles, que atuavam no dia seguinte). 

Sem direito a encore, tivemos, no entanto, direito a tudo o que se quer: desde mensagens políticas sem histerismo (com referências veladas na roupa aos protestos estudantis na Sérvia, por exemplo, ou um mergulho na multidão para ir buscar uma bandeira do Haiti), a, sim, «19-2000» ou «Rhinestone Eyes», entre outros tantos êxitos inescapáveis. 

Balanço final? Um festim para agradar a gregos e a troianos e uma verdadeira celebração de musicalidades que só quem foi lá para ouvir «Feel Good Inc» ou «Clint Eastwood» é que pode não ter apreciado… Nós? Nós não só gostamos, como nem nos importamos de ter esgotado as energias todas antes de recebermos convenientemente a espanhola Bad Gyal logo a seguir, mas reggaeton não é, de todo, a nossa “praia”. Amanhã há mais! 

.

Leiam aqui as reportagens do primeiro e terceiro dia do festival.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This