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Primavera Sound Porto 2026 | Dia 1 (11.06.2026)

Primeira noite feita de nostalgia melancólica e revolta em jeito de rave.

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Texto por Daniela S e fotografia por Graziela Costa.

Eis-nos regressados à nossa estação preferida. Um ano depois e tudo na mesma, como se quer: o Primavera Sound Porto continua a ser o espaço perfeito para navegarmos no culto da nostalgia enquanto deitamos um olho à emergência futura. A dicotomia vê-se só de olhar de soslaio para o cartaz: temos a oportunidade, à beira-mar plantada, de recordarmos os já veteranos de Porto The XX antes de nos deixarmos perder na euforia dos Kneecap muito pouco tempo depois. Tem sequência lógica? Não sabemos, mas, no final do dia, faz sempre todo o sentido. 

Mas comecemos pela tarde, que nos obrigou a algum jogo de cintura para conseguir ver (quase) tudo, como já é apanágio deste festival. Passadas as portas, começa a despedida aos PAUS que, em jeito de exéquias, nos deixaram no seu rock de “Enterro” a pedir outro funeral antes do fim, já anunciado para este ano. É pena a despedida… mas adoramos o mortório. 

Ali ao lado, mais duas propostas que, apesar do que defendemos no primeiro parágrafo, se conjugam na mais deliciosa perfeição: primeiro, e no palco Estrella Damm, tivemos Nation of Language a dar lições de synthpop. Ambiente perfeito para começarmos a festa. Apesar da ingratidão da hora (ao final da tarde de uma quinta-feira de trânsito numa cidade cada vez mais densa), o grupo de Brooklyn aproveitou o calor super anormal que se verificava no recinto (choveu copiosamente há dois anos, lembram-se?) para celebrar a onda retro, cada vez mais em voga. Hora de dançar. «This Fractured Mind», «Sole Obsession», «Wounds of Love», «September Again» ou «Weak In Your Light» (esta conhecem de certeza!) voltaram a contagiar o Parque da Cidade do Porto, por onde já tinham passado em 2023. 

Quem também conhece bem o Porto (ou não fosse de lá) são os Sensible Soccers, que regressaram aos palcos depois de um curto hiatus de três anos e com novo álbum na algibeira, mas que só vamos conhecer a sério lá mais para setembro. Quem passou pelo Parque da Cidade naquela “golden hour” do primeiro dia de Primavera Sound 2026, no entanto, teve direito a espreitar algumas das novidades e dançar na indefinição da banda que recusa rótulos, mas não foge ao “appeal” da repetição. É boa neste caso, prometemos: junta, como sempre, eletrónica, krautrock, pós-rock e instrumental para nos levar a viajar, em crescendo, pelo movimento da música e dos corpos. Que se dane o calor, combatamos o suor das temperaturas com o suor da cinesia. 

Ainda mal recompostos, hora de ir ver Big Thief, que o comboio da música não pára, mas abranda. E a estreia do folk-rock de Andrianne Lenker e companhia acabou por cair que nem uma luva neste começo de noite e de festival. Era mesmo isso que se pedia: depois da euforia, a melodia. Depois da perdição na repetição dos corpos, os olhares intensos. Onde terminava a banda e começava o público? Ainda agora não sabemos, tal a intimidade que se criou ao cair da noite no Estrella Damm. O resto deixamos para a lente da Graziela Costa, que faz mais justiça à magia intimista que ali se manifestou. 

Queremos continuar por sonoridades norte-americanas em angústia e melancolia? Não seja por isso: no palco Zyn estão os Texas is the Reason (sim, esses mesmo), também eles de regresso aos palcos mas com uma bagagem de nostalgia a justificar o título que demos a este artigo… A noite pedia mesmo um momento emo e o quarteto era a razão (desculpem, não conseguimos evitar a piada…). De repente, os millenials presentes estavam de volta à infância, quem viveu os 90’s mais a fundo também e os mais novos aprendiam o que era isto do post-hardcore, tudo em comunhão e sem grandes atropelos. Afinal de contas, «Do You Know Who»…they are? Estamos a falar da banda que, só com um álbum, reinventou a emoção melódica. Fomos todos “Misfits” durante uma horita… e, quando estamos quase a chegar aos 40, temos de admitir que soube mesmo bem.

Continuamos a viagem rumo aos dois nomes maiores desta primeira noite, dois trios particularmente antagónicos e que, noutros tempos, teriam sido certamente rivais geográficos. Vamos primeiro aos cabeças de cartaz, The XX, que mais podiam ser chamados de “meninos bonitos do Primavera”, tendo em conta o furor que sempre fazem por palcos junto ao mar plantados. O furor, desta vez, no entanto, prendia-se com mais um hiato. A devoção pejada de saudade tem destas coisas… e a dream pop em jeito indie, como sempre, era expectável, mas muito desejada pelo público portuense, que só não dizemos que teve direito a mais do mesmo, porque os arranjos dos “clássicos” foram ligeiramente diferentes e até tivemos direito a incursões nos trabalhos a solo de cada um dos elementos da banda. Num concerto de “remember” versão «Crystalized», o público não conseguiu escapar ao habitual magnetismo de Jamie, Oliver e Romy e, de repente, parece que nunca tínhamos deixado aquele espaço minimalista que todos habitamos da primeira vez que os vimos literalmente ali, anos antes. Continuam adoravelmente “boring” para o nosso gosto particular, mas a conseguir, mesmo assim, arrancar afetos e deixar sorrisos. 

A pausa nas convulsões, no entanto, tinha chegado ao fim: estava na altura de abraçar o caos com os Kneecap. O trio de Belfast, que se tornou conhecido do público mainstream graças ao filme com o mesmo nome, tinha muito para mostrar e não desiludiu quem já vinha preparado para participar desta autêntica rave de inconformados. Tal como demonstraram na película (de que somos fãs!), os três saltitam entre a comédia e o drama de forma exemplar, da mesma forma que o fazem entre a eletrónica e o hip-hop, aproveitando para deixar mensagens políticas prementes entre as suas autênticas aulas de gaélico. 

Estava encontrada a primeira banda verdadeiramente politizada desta edição do Primavera Sound, que não se coibiu de enfiar em palco quem quisesse hastear a bandeira palestiniana de punho em riste… Os Kneecap foram, de resto, apenas os primeiros de uma série de bandas que, nos dias que se seguiram, fizeram exatamente o mesmo. Os irlandeses, polémicos, deixaram “elogios” que não vamos reproduzir aqui a muitos dos seus alvos prediletos, com especialmente destaque para o governo britânico, Keir Starmer e, claro está, Israel. Tudo cru, como se quer, com a violência de um presente negro e inescapável a que nos pedem para não fecharmos os olhos, e a explosão de esperança revestida de rebeldia odiosa de quem está disposto a lutar por um resultado diferente. Que lufada de ar fresco num palco com nome de multinacional, que estreia por terras portuguesas e que declaração de amor em jeito de asneirada ao público do Porto (que declararam ser melhor que o de Barcelona). Na cidade em que as asneiras são vírgulas, declaramos: os Kneecap serão sempre bem-vindos!
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Leiam aqui as reportagens do segundo e terceiro dia do festival.



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