“Requiem for a dream”

“Requiem for a dream”

Um murro no estômago inesquecível

Quem é que não gosta de um final feliz? É o que se espera quando se vê um filme ou se lê um livro e, de nove em dez exemplos, é um destes finais que obtemos. Sejamos francos, um final feliz dá-nos um sentimento de conforto e faz-nos dormir melhor. No entanto, toda a moeda tem duas faces e neste caso também existe o lado oposto do espectro. Nele nem todas as histórias ou personagens terminam felizes, onde conseguem tudo o que querem e estão de bem com o mundo. Não há problema que isso aconteça, mas sabemos que nem sempre é a realidade.

É neste segundo grupo que descobrimos a adaptação de Darren Aronofsky do romance de Hubert Selby Jr. de 1978. Esta adaptação é um marco dentro do género de filmes cuja temática se centre nos vícios devido à sua abrangente e concreta representação das consequências destrutivas do abuso de drogas. Neste filme, o realizador acentua o contexto entre as diferentes formas de dependência e demonstra como o vício aprisiona, sucessivamente, as pessoas num sonho de falsas ilusões e onde o desespero será, eventualmente, esmagado pela realidade.

No seu romance, Hubert Selby Jr. refere-se ao american dream como algo inatingível, uma compilação dos vários desejos das diversas personagens desta história, que recorre a uma qualquer forma de vício como substituto da realização de um sonho. “Requiem for a Dream” é, como o título indica, uma elegia à ilusão de um sonho das quatro personagens principais.

Darren Aronofsky convida-nos a uma mórbida jornada por entre um frenesim sonoro e visual. Através de frenéticas sequências, histéricos split-screens e imagens paralelas, o realizador não tenta descrever o mergulho dos protagonistas num absoluto horror. No entanto, no meio da loucura do seu processo criativo, não há nenhuma forma que não seja justificada. As características referidas podem ser perturbadoras, mas são necessárias para responder a inúmeras questões que não são, de todo, agradáveis de se ouvir, como é o caso da omnipresença da sociedade de consumo. Estes abusos expressam-se através de objectos que representam essa sociedade, como a televisão e o frigorífico.

Outro dos objectivos do filme é fazer com que os espectadores partilhem do sofrimento físico e moral de um viciado em drogas, nomeadamente através da deterioração das suas percepções visuais e sonoras. Além disso, pretende demonstrar de forma simples, directa e áspera, a dependência de um drogado na sua substância de abuso. A mensagem do realizador é simples de compreender. Não se trata de retratar vícios em drogas, mas também em objectos aparentemente inofensivos. Estes podem destruir as nossas faculdades de raciocínio e de julgamento.

Ellen Burstyn faz o que nenhuma actriz tinha ainda ousado fazer no Cinema – empurrar a sua fisicalidade a ambos os extremos para transmitir uma mulher comum desumanizada. Jennifer Connelly é uma mulher desumanizada por um inofensivo errado de julgamento a algo que ela tomou como banal. Jared Leto e Marlon Wayans são dois homens perdidos num mundo só deles e desconexo da realidade.

No fim, independentemente de o filme nos chocar ou não, acabamos com a sensação de termos sido espremidos perante a destruição física e psicológica dos quatro protagonistas. Esta é uma experiência que nos dá um soco no estômago, mas que conseguirá ser inesquecível.



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