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Rock In Rio Lisboa 2026 (21.06.2026)

Dia esgotado, mais que esperado. Quiçá, abençoado. 

Estando, desde 2024, localizado no Parque Tejo, o RiR Lisboa 2026 acolheu muitos e muitos e muitos mil… | Por ora, a Rua de Baixo esteve presente no segundo dia desta décima primeira edição do festival. 

O dia 21 de Junho na Cidade do Rock – Tanto de tudo; Tudo de tanto. 

Aquele dia longo e ansiado, aquele dia que do sol fez casa, aquele dia equiparado a uma grande paixão que quase nos aflige. Sob esta premissa, se descreve aquele que foi o dia mais povoado do RiR Lisboa 2026. Um espaço físico alargado, às vezes absorvente. Um lugar mental excitado, por vezes assoberbado. Muitas eram as filas que serpenteavam os caminhos, poucas eram as sombras que as detinham, endireitavam e fixavam. Por outro lado, ao “jardim à beira-mar plantado” que ali se formou, não faltou água (literal e metaforicamente) – acessível, indispensável, em permanência. Ao mesmo tempo, da possibilidade de escolha se fez ofício, como quem diz, muitas eram as coisas que se podiam viver naquele local circunscrito. 

“O caminho faz-se caminhando”

Entra-se no recinto, um terreno meio que assimétrico, quase todo ele em terra. Letras vermelhas agigantadas que dizem “Rock in Rio” e que servem como letreiro de boas-vindas. Estamos debaixo de uma luz solar abrasadora que aquece não só o verão que chegou, como também incendeia vontades e permanências. À medida que se palmilha o recinto, vamo-nos apercebendo da imensidão que permeia esta “cidade” construída ao milímetro. Quatro palcos, vários cantinhos de comida e bebida, algumas zonas de lazer, muitas instituições e marcas representadas e, finalmente… vira a roda gigante e toca o slide! Torna-se quase impreterível conhecer este ambiente fictício, o qual ganha toda a verdade e sentido pelas muitas pessoas que o habitam – sejam elas público que assiste ou não… 

“É urgente um barco no mar” 

O rio Tejo como pano de fundo, afugentando a pressa e apaziguando a ânsia. Podia ser só mais um olhar sobre a finitude, não fosse a nostalgia a fonte de quase todos os vestígios de emoção vividos naquele dia grande e cheio. E, apesar de ter sido difícil manter o toque, dado o sobreaquecimento sentido, foi deveras possível instituir um arquétipo de memórias que se sustentaram não só pelos concertos ouvidos, como também pelas brincadeiras e jogos – leia-se, convívio, conversa e curiosidade  (a lei dos 3 c’s)… Podia falar, também, do fogo-de-artifício e do espectáculo de avionetas; não obstante, abafo tão muita grandiosidade, não fosse o RiR o artesão de manuseios e comprometimentos. 

Muitos concertos = (a) um ver se te avias 

.grandson

Uma voz inquieta e imprevisível. Nota-se a resistência, a dissonância, o poder catártico. Muito era o calor no ar, muita era a rebeldia em palco. Uma actuação que foi sendo elevada a cada nova canção, não fosse ele próprio uma explosão em massa. Ritmos fortes e pesados, ao mesmo tempo reivindicativos. Dono de um impulso combativo, urgente…ciente das palavras que canta e protesta. A abertura do Palco Mundo, naquele dia dourado, seria, assim, inconformada. 

.Blasted Mechanism 

Um pulo aqui e um pulo acolá, o que, infelizmente, só possibilitou a audição longínqua da banda portuguesa. Não obstante, o entusiasmo incendiário que vinha directamente do Palco Super Bock foi suficiente para reprimir qualquer salto ligeiro. Por sua vez, os corpos puseram-se todos a mexer, numa tentativa bem conseguida de celebração e universalidade. Aqui não houve quarta parede ou o que quer que isso seja – todos os muros foram deitados abaixo, porquanto se ergueram pontes colectivas e identitárias. São trinta anos de estrada, de tribo abençoada.  

.The Pretty Reckless 

Voltamos ao Palco Mundo. E que volta de 360º graus se deu… um concerto que há muito estava para acontecer… e aconteceu! Despida de personas e/ou personagens, Taylor Momsen foi rainha e senhora, soberana da nação de fãs e não-fãs que estavam ali; perante uma banda cujo hard rock ‘puro e duro’ os agiganta e encadeia, somos cortados por dentro, arranhados por fora e, mais que tudo, somos reestruturados no todo. Parece contraditório, mas The Pretty Reckless fez questão de nos mostrar que o rock n roll está vivo (e recomenda-se), ainda que possam surgir pequenos lutos pelo caminho. Entoaram-se músicas antigas e novas, canções do passado e do presente, num futuro que com certeza será ainda maior para esta banda que da sonoridade “pesada” faz amuleto. 

NOTA: já se pode escutar o novo álbum de The Pretty Reckless, intitulado Dear God, e lançado no dia 26 de Junho. 

.Kaiser Chiefs 

Há lá melhor festa do que esta?! Duvido!! Por entre vídeos lunático-cómicos como pano de fundo, até à própria excentricidade da banda em si… este concerto foi, certamente, um dos momentos mais altos deste dia. Entrámos no autocarro-foguetão da banda inglesa e não mais (se) quis sair. Entregámo-nos à resistência, sem que ela nos destruísse ou esgotasse. Fomos filhos da liberdade, sangue do mesmo sangue. Ricky Wilson foi malabarista, trapezista, acrobata e, até…. ‘trepador de estruturas não permitidas’. Bradou-se aos céus em contentamento, pois que estávamos perante um anjo insurrecto e movedor de povos! Cantou-se em uníssono, numa demanda pela cumplicidade. E que bonito foi.

.Cypress Hill 

Icónico-consagrados. Até se podia dizer que foi um concerto interregno, secundário, não fosse o frenesim meio que ainda disfarçado pela escuta de Linkin Park (que se apresentariam a seguir, no mesmo Palco Mundo). Cypress Hill são mais do que a precisão rítmica que surge como um esqueleto robusto que nos estrutura e dá forma; são, também, pedra angular na fixação e alcance da sonoridade hip-hop latinoamericana. Patrocinadores do activismo verde (para bom entendedor, duas palavras bastam…) e, simultaneamente, cultivadores de uma identidade própria da qual se orgulham – vão à luta por isso e sabem bem de onde são. Até podemos considerá-los descobridores dos sete mares, desde logo porque o mar que navegam é para todos. Rimas corpulentas, ritmos possantes, rios de ‘boas vibes’… um concerto que, apesar da timidez de quem não conhecia a banda, foi uma boa jogada em prol de uma banda que envelhece bem. Para além disso, ainda deram um lamiré do próximo álbum que sairá no final deste mês.

.Linkin Park 

Uma surpresa não vista a olho nu. Isto é, se calhar esperava-se menos, se calhar ansiava-se mais… todavia, muito catártico. Fez-se contagem decrescente, como que um novo ano anunciado. De facto, estávamos perante algo ainda estreme – mas credível e muito centrado. Acredita-se no essencialismo quando há perda, como se tudo durasse para sempre – é possível que haja infinitude (na memória) das coisas e das pessoas. Cantou-se em coro como se não houvesse (o) amanhã, uma saudade natural e marcadamente incansável. Começou-se “Do Zero”, sem que isso representasse uma tela em branco. Ao mesmo tempo, viveram-se os clássicos com nostalgia, com abundância e muita comoção. Os Linkin Park são adubo que nos fez/faz germinar, campo fértil que vai em contramão e não se despista. Éramos cerca de 90 mil, um número compreensível mas muito extenso. O som às vezes escondia-se, parece, como se se tivessem olvidado as palavras. Para além disso, e apesar de um pouco errante e vagueante, foi um concerto que teve tanta emoção que acabou por ser também perspicaz – tanto na forma como se apresentou, como no desenvoltar dos artistas em palco e na relação com o público. 

 

 



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